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Estado da Noção

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Francisco Louçã

Um apurado sentido de classe

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Oito magnatas norte-americanos no topo da lista estão empenhados politicamente. Mas não é em filantropia nem em causas ambientais e fraturantes

Alguns dos multimilionários mais destacados na hierarquia mundial são conhecidos pela sua dedicação a causas ambientais e sociais e são elogiados como filantropos e beneméritos. Michael Bloomberg, o republicano que foi presidente da câmara de Nova Iorque, promove o controlo das armas e os direitos gays; George Soros financia lutas pelos direitos humanos e investigações académicas heterodoxas; Warren Buffet, Jeff Bezos e Bill Gates contribuem para causas humanitárias. Lindos exemplos, mas a grande maioria dos milionários olha noutra direção e põe os seus dinheiros e a sua influência noutras causas, segundo revela o livro “Billionaires and Stealth Politics”, de Page, Seawright e Lacombe, publicado agora pela editora da Universidade de Chicago. Os autores estudaram as carreiras dos cem multimilionários no topo da lista dos Estados Unidos e verificaram que quase todos se dedicam a financiar campanhas contra a segurança social ou pela redução dos impostos, sobretudo dos impostos sobre o imobiliário, que os incomodam dado o valor das suas propriedades, já que os impostos sobre os rendimentos do topo da pirâmide social são muito baixos.

As duas famílias

A concentração de riqueza nos EUA é acentuada. Os oito magnatas norte-americanos no topo da lista, seis Waltons e dois Kochs, possuem tanta riqueza como 44% da população dos EUA. A família Walton detém cerca de 150 mil milhões de dólares — o PIB de um país desenvolvido de dimensão média, quase o PIB de Portugal — em ações da sua vasta cadeia retalhista Walmart (do qual detêm 54%). A dinastia tem cerca de meio século: a Walmart foi criada em 1962, tendo crescido rapidamente, tornando-se a maior cadeia retalhista do mundo. Os Waltons limitaram a sua participação política direta, intervindo, sobretudo, em causas típicas da direita, como a animosidade contra a escola pública.

Os Kochs, em contrapartida, são mais intervenientes. A fortuna Koch teve origem em 1925, quando Fred Koch fundou a empresa com o nome da família e que é, neste momento, a segunda maior empresa privada dos EUA. Os dois filhos agora à frente da empresa, David e Charles, compraram, em 1983, a parte dos irmãos, Frederick Jr. e Bill, tendo desenvolvido o negócio a um ponto em que a sua fortuna ultrapassou o valor da IBM ou da Honda. Detêm indústrias petrolíferas e petroquímicas especializadas em fraturação hidráulica (fracking), com vastas participações nas indústrias transformadoras, dos equipamentos de extração, da produção química e do etanol, entre outros investimentos.

Embora a classe dirigente dos Estados Unidos aprecie, de modo geral, os serviços de grupos de reflexão de direita e tenha até, ocasionalmente, apoiado alguns deles, a ligação direta entre ambos foi malvista no passado recente, porque seria demasiado política e avessa às tradicionais normas norte-americanas que encorajam uma postura mais contida. Mas essa atitude tem vindo a mudar com a radicalização da política e, em particular, com o ascenso de Trump, um milionário de carreira modesta no imobiliário (para os padrões da burguesia norte-americana) mas que representa o triunfo da agressividade do populismo.

Uma longa história à direita

No caso dos Kochs, esse empenho político vem de há muito tempo. Fred Koch, o fundador da dinastia, foi um dos primeiros apoiantes da John Birch Society, uma rede privada do tempo da Guerra Fria e que promoveu a propaganda antissocialista. A John Birch Society foi criada em 1958, no auge do maccartismo, para perseguir comunistas e revelar as suas pretensas conspirações. Os filhos de Fred financiam agora o Cato Institute, instituição radical defensora do mercado livre e criada em 1977, envolvendo-se em ações diretas de ativismo político. Em 1980, David foi o candidato a vice-presidente do marginal Partido Libertário. Mais recentemente, os Kochs orientaram os seus esforços para a direita tradicional, financiando candidatos do Partido Republicano, mesmo os associados ao Tea Party, como parte de um esforço concertado para desviarem a política norte-americana para a direita. Entraram há pouco para a primeira liga enquanto apoiantes da campanha de Trump, especificamente através de amigos chegados, como Mike Pence (o vice-presidente) e Betsy DeVos (secretária da Educação), embora recentemente tenham criticado o Presidente por prometer muito e cumprir pouco.

Os cem multimilionários seguem estes exemplos. Afinal, lutam pela vida: menos impostos sobre a propriedade, mais apoios fiscais a quem tem fortuna e menos desperdício com aqueles que estão em baixo, os 99% da população.

A tourada que ensina a esquerda

A excitação com a magna questão do IVA das touradas é reveladora de uma atitude, de um clima e de um risco.

A atitude é a que se poderia esperar, uma espécie de deslumbramento hiperbólico com a faena, numa espécie de competição entre toureiros que querem ganhar uma volta à praça. O touro foi “adotado pelo homem ibérico, e criado como o mais nobre dos adversários, digno de sobreviver para enfrentar o Homem até ao fim dos tempos, simulando e celebrando, com o cavalo de combate, a tradição milenar do guerreiro ibérico”, escreve Sousa Pinto, em modo de delírio poético. “Até ao fim dos tempos” é muito otimismo, mas o nosso “guerreiro ibérico” tem destas coisas. O mesmo diria da afirmação ousada, e algo constrangedora, de que não percebe poesia quem não festeja a bandarilha ou que namora o totalitarismo quem não comemora rabo e orelha.

Do outro lado, está o clima que dá por certo que, se a violência contra uma cadela é punida com pena de prisão, ou se os combates de cães são proibidos, se os sacrifícios de animais já são interditos e se a tradição nunca mais foi o que era, um dia a exibição do massacre do touro deixará de existir.

Mas a lição para a esquerda não está nem na radicalização espetacular dos toureiros nem na certeza tranquila de que o tempo concluirá esta querela. Está na demonstração atual do risco e da vulnerabilidade comunicacional das agendas de entretenimento. Há gente para tudo, como se viu, e sobretudo para a agitação de emoções apopléticas. Com tanto arrebatamento, o efeito de contaminação constrói um artifício de alheamento. Esse é o caldo de cultura em que tudo se confunde, pois se definem linhas de fratura apoiadas na distração. E, como 2019 é um ano de todos os perigos, a lição deste episódio taurino é de grande valia: pois saiba-se na esquerda que só ganhará quem nunca se desviar do que interessa e perderá quem deixar afirmar-se o interesse pelo desinteresse. É a vida das pessoas, mesmo a vida, o salário, a segurança no emprego, a segurança na saúde, o cuidado dos filhos, a pensão, o acompanhamento das pessoas dependentes, que tem de determinar as escolhas. Não será nunca uma bandarilha a definir os campos e os resultados.

A imaginação de uma fraude de 55 mil milhões

U m grupo de 38 jornalistas de 12 países investigou 180 mil páginas de documentos, fazendo a conta: entre 2007 e 2011, foram pagos na Alemanha e em mais dez países europeus 55,2 mil milhões de euros de devoluções indevidas de impostos a vários bancos e fundos financeiros, que usaram um esquema imaginoso de fraude. Gerhard Schick, deputado verde no parlamento alemão, promoveu um inquérito sobre o tema e confirmou essas conclusões.

A Reuters explica como funcionava o esquema: “Um banco concordava em vender ações a uma entidade, por exemplo um fundo de pensões, antes de ser pago o dividendo, mas entrega as ações depois do pagamento. O banco e o fundo reclamam então a devolução de imposto. Por vezes, os bancos usam o short selling, acordando vender títulos que não são seus e que vão comprar depois. O título é vendido rapidamente entre um sindicato de bancos, investidores e fundos, para criar a imagem de muitos proprietários”, que reclamam o mesmo pagamento. O Santander é um dos bancos identificados nesta investigação, que responsabiliza um ex-inspetor fiscal que teria passado a ser consultor financeiro pela invenção do esquema. O ex-inspetor vive refugiado na Suíça e culpa o fisco alemão pela incompetência, dado que o prémio estava mesmo à mão de semear e as autoridades fecharam os olhos.

Schick nota ainda que as autoridades alemãs só notificaram os outros países mais de três anos depois de terem identificado o crime. A conclusão razoável é que a imaginação financeira é inesgotável, mas sai cara.