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UMA GUERRA PESSOAL

De Matthew Heineman

Com Rosamund Pike, Tom Hollander, Jamie Dornan (Reino Unido/EUA)

Drama biográfico/Guerra M/16

ESTREIA Depois de “City of Ghosts”, documentário a resvalar para o sensacionalismo em torno dos crimes do ISIS numa Síria já devastada pela guerra, Matthew Heineman recua no tempo e sai-se melhor neste drama biográfico sobre Marie Colvin (1956-2012), a jornalista do “The Sunday Times” que tombou no cerco a Homs no mesmo solo sírio, abatida pelas tropas de Assad. Tinha 56 anos, era uma repórter de guerra experientíssima, havia estado desde meados da década de 80 nas trincheiras dos maiores conflitos do mundo. Escrito por Marie Brenner e Arash Amel a partir de um artigo da primeira na “Vanity Fair”, “Uma Guerra Pessoal” ficciona o percurso da repórter desde a guerra no Sri Lanka, em que perdeu um olho, passa pelas suas missões de risco no Iraque e na Líbia (pena aquele episódio patético com Kadhafi), até ao desfecho em Homs. É um filme de guerra que não quer virar a cara à violência (e assim era Colvin, que acreditava no trabalho como um dever mais precioso do que a própria vida), embora vacile ao deixar-nos uma personagem bifurcada, ora corajosa nos momentos de adrenalina ora de uma fragilidade psicológica absoluta na intimidade. “Uma Guerra Pessoal” escapa-se da obscena estetização da guerra que vergou outro filme deste ano também inspirado (não diretamente) em Colvin, “Les Filles du Feu” (ainda por estrear). E se Heineman evita o cliché da martirização para a qual o filme parece sempre tender, deve-o ao trabalho notável de Rosamund Pike, que segura com frieza um papel difícil sobre uma mulher sem medo. / Francisco Ferreira

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A VINGANÇA DE LIZZIE BORDEN

De Craig William Macneill

Com Chloë Sevigny, Kristen Stewart, Jamey Sheridan (EUA)

Drama M/16

ESTREIA A lenda narra que “Lizzie Borden took an axe/ And gave her mother forty whacks./ When she saw what she had done,/ She gave her father forty-one” — mas não é verdade. O número de machadadas com que Abby e Andrew Borden foram assassinados, na sua casa em Fall River, na manhã de 4 de agosto de 1892, foram bem menos que quarenta — mas mais de dez... Além disso, Abby era madrasta e não mãe de Lizzie. E, por fim, o tribunal nunca considerou provado que Lizzie Borden tivesse cometido os crimes, apesar de nenhuma outra pessoa ter sido acusada dos mesmos, tendo vivido em paz e herdado riqueza até depois dos 60 anos. Nos mais de cem entretanto decorridos, o caso tornou-se uma lenda e Lizzie Borden, para alguns, uma lutadora pelos direitos da mulher, atendendo à opressão vivida no interior da casa Borden e até — há quem especule — a uma possível paixão lésbica entre Lizzie e uma criada irlandesa que, descoberta, teria desencadeado a tragédia. “A Vingança de Lizzie Borden” (título descomedidamente explícito face ao austero “Lizzie” original) partilha esta visão, encenando um drama de época numa sociedade patriarcal onde as mulheres vivem subjugadas e numa posição de completa dependência. A normalidade é que o senhor da casa possa subir, noturnamente, ao quarto da jovem criada, com o conhecimento silencioso da mulher. A normalidade é que esteja nas suas mãos a gestão do património, mesmo daquele que, nominalmente, às filhas pertenceria por herança. O filme constrói-se como quem explica os eventos cujos resultados — os cadáveres chacinados do casal — aparecem logo no início, sem, contudo, os justificar. E oferece dois personagens de boa envergadura a Chloë Sevigny (também coprodutora do filme), no papel de Lizzie, e a Kristen Stewart, na criada a quem os patrões chamaram Maggie, a quem até o nome verdadeiro (Bridget Sullivan) é por eles negado — e só por Lizzie reconhecido. / Jorge Leitão Ramos

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A FEBRE FERRANTE

De Giacomo Durzi

(Itália/França)

Documentário M/12

ESTREIA Tal como o título permite adivinhar, o objeto de estudo deste documentário do italiano Giacomo Durzi é a obra de Elena Ferrante. Fala-se — como presumivelmente se saberá — de uma figura literária não identificada. De facto, desde o início da sua carreira, Ferrante fez questão de preservar ciosamente o seu anonimato, escrevendo sob pseudónimo, recusando-se a aparecer em público e a dar entrevistas presenciais, de maneira a obrigar os media e o público a concentrarem as suas atenções na sua produção literária. Ora, ainda que aflore o mistério criado em torno da identidade de Ferrante (trata-se de um homem ou de uma mulher, de um escritor/a velho/a ou novo/a?), Durzi conformar-se-á à sua vontade, analisando o seu trabalho e sondando os motivos do seu retumbante sucesso internacional. Para esse efeito, o filme socorrer-se-á de uma estrutura narrativa a todos os títulos convencional (para não dizermos: “televisiva”), articulando entrevistas realizadas com personalidades da cena literária, quer com excertos lidos em voz off de algumas cartas de Ferrante quer com sequências que combinam a animação e a imagem real para ilustrar o conteúdo desses vários depoimentos — é o mais longe que aqui se vai em termos de arrojo formal. O interesse deste documentário reside, por inerência, naquilo que escritores como Roberto Saviano ou cineastas como Mario Martone (que adaptou um dos romances de Ferrante em “Vítima e Carrasco”, de 1995) têm a dizer sobre a sua obra. Dir-se-á — e com razão — que o projeto deixa a desejar no que toca à ambição, mas a forma como os entrevistados conseguem fazer-nos entrar no interior dos grandes temas e características da literatura de Ferrante (as relações de conflitualidade entre as mulheres, a precisão e a violência com que a sua escrita vai escavando as emoções…) chega e sobra para que, a despeito das suas limitações de princípio, recomendemos o filme. / Vasco Baptista Marques

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SEI QUE ESTÁS AQUI

De Scott Speer

Com Bella Thorne, Richard Harmon, Dermot Mulroney (EUA)

Drama/Thriller M/14

ESTREIA Adaptação de um romance para jovens adultos de Daniel Waters, “Sei Que Estás Aqui” implanta-nos numa pequena cidade do Illinois e num futuro distópico não muito distante, para acompanhar uma adolescente de look gótico (Thorne) que vai procurando regressar à normalidade depois do “evento”. Leia-se, depois de um acidente científico que, vá-se lá saber porquê, gerou uma horda de “remanescentes”: pessoas mortas no “evento” que reaparecem sob a forma de fantasmas incomunicáveis e não-sencientes. Quando um deles começa a interagir com a protagonista de um modo ameaçador, ela juntar-se-á ao freak bonitinho da sua turma (Harmon) para tentar apurar toda a verdade sobre os fantasmas. O que se segue é um misto de procedural fantástico e de melodrama romântico para adolescentes pintado em tons sombrios, que tem o inconveniente de se apoiar num argumento que usa e abusa de um jargão pseudocientífico para enganar papalvos, que acumula inverosimilhanças com uma candura que é quase desarmante (um físico de primeira linha dá agora aulas no liceu local…) e que denuncia o vilão assim que ele aparece. Interdito a menores de 16. V.B.M.

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HISTÓRIAS DE UMA VIDA

De Jean Becker

Com François Cluzet, Nicolas Duvauchelle, Sophie Verbeeck (França)

Drama M/12

O novo filme do veterano Jean Becker — o filho e assistente de realização de Jacques Becker — segue um juiz militar (Cluzet) que, no fim da Primeira Guerra Mundial, se instala de armas e bagagens numa solarenga vila da província francesa. A sua missão? Julgar um herói de guerra (Duvauchelle) que, por razões que só conheceremos no final, se encontra acusado de insulto à pátria. Eis a base de um filme que, após dizer ao que vem, se centrará nas sucessivas entrevistas que o juiz realiza com o acusado na prisão local, por forma a tentar compreender os verdadeiros motivos do seu ato (que vão sendo determinados através de flashbacks que recriam a sua experiência na guerra). Becker investe a fundo no desenho humanista das suas personagens, que, na ausência de qualquer efeito de contraste (todas elas são, à sua maneira, intrinsecamente bondosas), acabam por se tornar inverosímeis. Além disso, o trabalho de reconstituição histórica é a tal ponto ‘sanitário’ (nem uma pequena mancha de sujidade vem perturbar o verniz daqueles planos) que se torna impossível acreditar visualmente no mundo que aqui nos é oferecido. Ficam pois os bons sentimentos, mas isso não chega. V.B.M.