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O imenso negócio
da China

Pequim está a desenhar uma nova ordem mundial, capaz de redefinir o sistema económico e geopolítico. Portugal, que o Presidente chinês Xi Jinping visita dentro de dias, oferece uma porta de entrada atraente para o centro do sistema europeu de poder. Mas os principais países da Europa resistem e procuram manter a união que equilibre o embate com o gigante do Oriente

texto Bruno Maçães* Ilustração Helder Oliveira

Quando o Presidente chinês, Xi Jinping, visitar Portugal no início de dezembro, o nosso país terá pela frente uma das escolhas de política externa mais importantes das últimas décadas: aderir ou não à grande iniciativa geopolítica chinesa Cintura e Rota. Há muitas razões que explicam a importância da decisão. A Cintura e Rota é provavelmente a grande história do século, a aposta de Pequim em transformar radicalmente a ordem política e económica global, colocando a China no centro.

Portugal jogaria normalmente um papel secundário neste grande jogo, mas uma série de circunstâncias contingentes alterou esse cenário. A China foi capaz nos últimos anos de desenvolver relações próximas com vários países da Europa Central e de Leste. Na Europa Ocidental tudo tem sido mais difícil. A necessidade de investimento chinês é menor e o desalinhamento de valores — potenciado por uma maior sensibilidade da opinião pública para as diferenças entre os regimes políticos europeus e chinês — bem mais profundo. A China conseguiu sem grande dificuldade construir uma organização reunindo 16 países do Centro e Leste europeus, alargada aos Balcãs, mas quando procurou repetir a estratégia no Sul da Europa — discussões em que participei enquanto secretário de Estado dos Assuntos Europeus — tudo se revelou muito mais difícil. Por um lado, países como Portugal, Espanha ou Itália são mais zelosos daquilo a que chamamos espírito europeu e portanto pouco dispostos a abrir as portas a divisões consecutivas da União Europeia. Por outro, uma disposição demasiado aberta às iniciativas chinesas pode ser interpretada como manifestação de uma soberania enfraquecida, e todos os Estados da Europa Ocidental têm de si a imagem de países influentes no xadrez mundial.

Os esforços chineses fracassaram no passado, mas o momento decisivo é na verdade agora, quando Pequim procura atrair países da Europa Ocidental para a sua grande iniciativa. Portugal oferece uma porta de entrada atraente naquele que é o centro do sistema europeu de poder. É uma economia onde o investimento chinês é já significativo e onde promessas de novos investimentos podem angariar boa vontade. É também um país onde sobrevive a ideia de que a política externa não se reduz à política europeia. É, finalmente, um país conhecido pela razoabilidade e estabilidade das suas opções de política externa. Se Portugal aderir à Cintura e Rota, isso contribuirá sem dúvida para normalizar a iniciativa e pode ser o empurrão de que países como a Itália, Espanha ou a Holanda estão à espera.

Estas são as considerações do lado chinês. Do lado europeu, a questão tem contornos muito diferentes. Como me confidenciou recentemente um embaixador da União Europeia, países como a Alemanha e a França estão hoje profundamente arrependidos de ter permitido a aproximação da Polónia, Grécia e da Hungria à China. Não querem cometer o mesmo erro com Portugal ou a Itália. No limite acreditam que eles próprios se tornariam vulneráveis ao poder chinês se o tivessem de confrontar isoladamente e querem por isso manter a integridade da União Europeia nas suas relações com a China. Pelo menos do ponto de vista da dimensão das duas economias, a União Europeia pode rivalizar com a China de igual para igual. O mesmo não se passa com a Alemanha ou a França.

Portugal tem por isso de refletir que — por muito que a decisão de aderir à Cintura e Rota possa elevar radicalmente o nível das suas relações com a China — há um preço a pagar na Europa e não só na Europa. A Alemanha e os Estados Unidos têm pressionado o Governo português a dar uma resposta negativa a Xi Jinping, mas as maiores pressões chegam de Paris, com o Presidente Macron a fazer saber, por canais diplomáticos, que ficará muito desiludido com António Costa se a resposta for positiva.

Mas o que é então a Cintura e Rota? É um nome e pouco mais do que um nome, mas um nome cuja vantagem mais óbvia é reunir um número de novos e significativos desenvolvimentos: o crescente poderio chinês, a necessidade cada vez mais urgente sentida pela China de transformar o sistema mundial à sua imagem e as reações ou respostas de outros países a esse projeto. Equivalentes no passado da Cintura e Rota teriam de ser igualmente vagos e ambiciosos. Talvez o melhor equivalente seja um conceito como o “Ocidente”, uma metáfora que tenta representar uma certa ordem política e económica mundial, com os Estados Unidos à cabeça. A Cintura e Rota é um rival ou uma alternativa ao Ocidente. Como dramaticamente escreve o académico chinês Ming Hao, “o mundo não se desloca da harmonia para o conflito, mas do conflito para a harmonia, do Ocidente para a Cintura e Rota.”

A Cintura e Rota é um rival ou uma alternativa ao Ocidente. Uma ordem mundial permeada por princípios políticos chineses e com a China no centro

A Cintura e Rota é o nome para uma ordem mundial permeada por princípios políticos chineses e com a China no seu centro. Em termos económicos isto significa que a China organizará e liderará um número crescente de cadeias globais de valor, reservando para si os segmentos mais valio­sos de produção e criando fortes ligações de colaboração e infraestrutura com outros países, cujo papel na iniciativa será o de ocupar segmentos de menor valor. Politicamente, Pequim espera construir o mesmo tipo de mecanismos de garantia de que o Ocidente tem beneficiado: ligações profundas de comércio, infraestrutura e investimento oferecem pontos de pressão políticos que permitem garantir a estabilidade e aprofundamento do sistema no seu conjunto. Até muito recentemente era crível que os projetos da China estivessem limitados às suas periferias. Que países como a Hungria ou a Grécia sejam hoje capazes de defender as posições chinesas em importantes reuniões em Bruxelas mostra que o jogo tem um alcance bem mais amplo — de Lisboa a Xangai ou Jacarta, o que está em causa é a estrutura e as regras que governarão a Eurásia no seu conjunto.

Quando anunciou a iniciativa, em dois discursos em setembro e outubro de 2013, o Presidente Xi Jinping apelou ao espírito da velha Rota da Seda, o complexo de ligações comerciais entre as principais civilizações da Ásia e Europa há mil ou dois mil anos. A referência ao mundo antes da hegemonia europeia pode ser usada para defender um novo modelo de relações internacionais assente na cooperação e na aprendizagem mútua, mas contém também as sementes de um regresso ao tempo em que a China era o centro da economia global e uma superpotência tecnológica, dominando os segredos da produção de seda, papel, pólvora e da construção de gigantescos juncos, junto dos quais as nossas caravelas poderiam parecer barcos de recreio. Abraçando o espírito da Rota da Seda, a comunidade internacional estaria a aceitar a construção de uma nova ordem, a inauguração de uma nova idade histórica e, numa palavra, a revolução do sistema internacional.

Pontos de vista

“Já sabíamos quais eram as suas ideias e discordamos.” Eu acabara de fazer uma curta apresentação sobre a Cintura e Rota no Instituto Chongyang para os Serviços Financeiros na Universidade de Renmin, mas o reitor executivo do influente centro de reflexão, Wang Wen, explicou que já conhecia bem as minhas ideias. Depois de as ter apresentado na noite anterior num seminário na Universidade de Pequim, tinham sido discutidas por todos os especialistas da área através da sua habitual aplicação de mensagens. Ou antes, já tinham sido completamente criticadas e invalidadas.

“Para si, a geopolítica é a coisa mais importante. Mas deixe que lhe pergunte: já leu o documento estratégico oficial sobre a Cintura e Rota? Há lá uma geopolítica mundial?” Wang Wen estava a referir-se a um documento governamental chinês publicado em março de 2015, com o título “Visão e Ações sobre a Construção Conjunta da Cintura Económica da Rota da Seda e da Rota da Seda Marítima do Século XXI”. A Cintura Económica da Rota da Seda foca-se em juntar a China, a Ásia Central, a Rússia e a Europa através da massa terrestre eurasiática. Não é por coincidência que a componente terrestre se chama cintura económica: uma estrada é apenas uma ligação de transporte entre dois pontos, uma cintura é um corredor económico densamente ocupado para comércio, indústria e pessoas.

A Rota da Seda Marítima é concebida para ir da costa da China até à Europa através do Mar da China do Sul e do oceano Índico por uma rota da costa da China através do Mar da China do Sul para o Pacífico Sul, por outra. No mar, a iniciativa focar-se-á na construção de rotas de transportes suaves, seguras e eficientes, que liguem importantes portos marítimos. Em conjunto, as componentes terrestre e marítima procurarão ligar cerca de 70 países. A abreviatura na China para o projeto combinado é — sem surpresa — a Cintura e a Rota.

O documento oferece uma visão de maior integração económica entre economias mutuamente complementares. Pretende promover o ordenado e livre fluxo de fatores económicos, uma alocação mais eficiente de recursos e uma integração de mercados mais profunda. Um fator importante é que a iniciativa deverá respeitar as regras dos mercados. Não existe na realidade menção de considerações geopolíticas. Ou nunca foram consideradas, ou tudo foi cuidadosamente verificado e revisto para parecer um plano de negócios. Wang Wen insistiu que a minha maneira ocidental de pensar sublinhava distinções e oposições, ao passo que os chineses, pelo menos aqueles que não tinham sido infetados pelas mesmas doutrinas, estavam interessados na cooperação e no acordo. Não há hipótese de os outros países virem a aceitar os valores e as ideias ocidentais, disse ele, mas aceitarão as estradas e as centrais elétricas chinesas.

“Pensa que isto é apenas a doutrina pública? Pensa que existe uma doutrina secreta que não está no documento? Isso é impossível. A China é um país muito grande, com muitos governos regio­nais e locais. Imagine a confusão se lhes dissessem uma coisa e esperassem que fizessem outra.” Voltei a sentar-me na cadeira. Claro que não havia uma doutrina secreta. Aceitava que as autoridades chinesas não tivessem interesse em geopolítica, mas e se as considerações geopolíticas acabassem por ser decisivas, quer quisessem quer não? Fiz notar a Wang Wen que o pensamento geopolítico no Ocidente se desenvolveu como uma espécie de compreensão profunda. Como a psicanálise, não se espera que descreva uma aparência imediatamente acessível, mas o jogo de forças em grande parte exteriores à consciência e exigindo um treino especial para se tornarem acessíveis.

O documento “Visão e Ações...” não fala de geopolítica, mas nalgumas das secções mais interessantes desenvolve uma teoria de integração económica que depende fortemente do poder político. As declarações mais ambiciosas do documento dirão provavelmente respeito à política de coordenação económica: “Os países ao longo da Cintura e Rota poderão coordenar completamente as suas estratégias e políticas de desenvolvimento económico, estabelecer planos e medidas para a cooperação regional e projetos de larga escala.”

O grande mercado

As autoridades chinesas, alicerçadas na teoria marxista, estão familiarizadas com a ideia de um sistema mundial que articula as relações do poder económico e da dependência económica no âmago da economia global. Os padrões de especialização e a vantagem comparativa determinam o lugar que cada país assume na economia global e, em resultado disso, os níveis de prosperidade absoluta e relativa que poderá esperar alcançar. A economia global é menos um campo de jogos nivelado e mais um sistema organizado em que alguns países ocupam posições privilegiadas e outros, como a China, tentam ascender a esses patamares de comando.

Os decisores chineses partilham com os seus homólogos ocidentais a premissa de que a globalização económica e financeira tornou difícil que um único país persiga uma visão económica específica. Mas os chineses estão menos inclinados a renunciar a todas as formas de planeamento económico do que a redefinir as regras do jogo da globalização. Uma das prioridades identificadas no documento “Visão e Ações...” é melhorar a “divisão do trabalho e a distribuição das redes industriais”. Quando se trata da divisão do trabalho ao longo das cadeias de valor da produção industrial, as posições e as preferências que refletem os interesses nacionais dos países nas regiões da Cintura e Rota poderão diferir, ou mesmo entrar em contradição uns com os outros. Em tais casos, os observadores não deverão ter ilusões de que a China, como promotora da iniciativa, estará numa posição única para prosseguir os seus interesses.

Os padrões de especialização e divisão do trabalho internacionais são particularmente relevantes na era das cadeias de valor globais. Hoje, muito poucos produtos são fabricados num único país. As importações de produtos de um país serão provavelmente de bens intermédios, ou seja, mercadorias, peças ou componentes, ou produtos semiacabados, que usa para fazer os seus próprios produtos. Com o surgimento de cadeias de valor globais, a abordagem mercantilista que vê as exportações como boas e as importações como más começa a parecer contraproducente e mesmo contraditória. Se um país impuser tarifas altas e obstáculos às importações de bens intermédios, as suas exportações serão as primeiras a sofrer. As empresas nacionais precisam portanto de acesso fiável a importações de bens e serviços a nível mundial para melhorar a sua produtividade e capacidade de exportação. Nesta nova era, compensa pensar para lá das fronteiras nacionais. Quando os produtos intermédios tendem a atravessar as fronteiras muitas vezes, mesmo as pequenas taxas e engarrafamentos alfandegários têm um efeito cumulativo e as medidas protetoras contra as importações aumentam os custos da produção e reduzem a competitividade das exportações.

Estes são todos bons argumentos a favor da liberalização comercial, mas o que acontecerá à capacidade para organizar a produção ao longo de linhas mais eficientes? Se os bens forem produzidos inteiramente dentro de um país, este terá controlo completo sobre todo o processo. A partir do momento em que sejam produzidos no mundo, o resultado combinado de uma intricada divisão do trabalho dentro de cada cadeia de valor, as coisas tornam-se mais complicadas. O que se pretende é selecionar e escolher os melhores segmentos dentro de cada cadeia de valor. A política industrial visa cada vez mais tarefas e não indústrias, mas, para isso, é preciso obter acesso às alavancas da política industrial dentro dos outros países, para conseguir organizar a produção ao longo de toda a cadeia de valor. Um país tem muito mais a ganhar deslocando-se para os segmentos de valor mais elevado numa cadeia de fornecimento do que aumentando a produtividade num segmento já ocupado.

Assim, se a China se quiser focar em determinados segmentos de uma dada cadeia de valor, precisará de elevados níveis de complementaridade nos outros países. Tal só se desenvolverá se as infraestruturas de transporte e comunicação adequadas forem construídas e se esses países adotarem as decisões certas de política económica. Um especialista chinês disse-me que a Cintura e Rota é o primeiro exemplo de política industrial “transnacional”. “Anteriormente, toda a política industrial era nacio­nal”, disse-me. E tem uma certa razão, pois até a União Europeia, quando criou um ambicioso quadro transnacional de regras e instituições, tendeu a abandonar a política industrial, com a justificação de que uma tal política não poderia ser reproduzida a um nível transnacional. Isto aponta para o choque entre diferentes modelos de integração.

As redes de transporte e comunicação são sem dúvida um requisito para o desenvolvimento de correntes de valor globais, mas o elemento crucial é o conjunto de decisões de política industrial através das quais os diferentes países se esforçam por se deslocar para novos segmentos dentro de uma cadeia de valor já ocupada. Para evitar ficar presa numa armadilha de rendimento médio — uma situação em que um país fica preso ao seu anterior modelo de crescimento, depois de atingir um determinado nível de rendimento — e acelerar o processo de se deslocar para segmentos de valor mais elevado, a China quer que a sua política industrial fique suficientemente articulada com os outros países que ocupem outros segmentos e cadeias. Em contrapartida, poderá oferecer financiamento barato e a sua experiência de um modelo económico que se mostrou bastante bem sucedido no fomento da industrialização e da urbanização numa escala temporal de uma rapidez sem precedentes.

Na prática, a indústria chinesa poderá necessitar de fornecedores de confiança de peças ou mercadorias intermédias, ou poderá tentar construir as fábricas de montagem no estrangeiro para evitar taxas de importação, ao mesmo tempo que conservará o grosso da cadeia da produção na China. Poderá tentar criar novas oportunidades para exportar matérias-primas ou bens intermédios produzidos na China ou, inversamente, assegurar as matérias-primas numa base estável para a sua própria indústria.

Realidade e teorias

Poder político e económico: não é difícil passar de um para o outro sem interrupção. Faço uma nota mental de que, mesmo que a Cintura e Rota seja só sobre economia, isso não significa que não seja também sobre política. Mas antes de partir, preciso que Wang Wen me responda a uma pergunta: “A sua descrição da Cintura e Rota é inteiramente baseada no valor económico. Não há nada sobre valores políticos ou culturais. Porquê? Porque razão acha que os valores económicos têm a capacidade de se tornar universais e agradar a diferentes povos de uma forma que está ausente nos valores políticos?”

Wang Wen sorriu e desatou numa explicação apaixonada: “Deng Xiaoping disse que a prática é o teste da verdade.” Voltou-se para o seu assistente, discutindo rapidamente qual seria a melhor palavra em inglês: test, criterion? Concordaram com teste, mostrando inadvertidamente que as palavras exatas do mestre tinham de permanecer inalteradas. “Portanto, é a prática que nos deve conduzir. Procuramos a verdade a partir dos factos, partimos da realidade e não de teorias.”

Para os estrategos chineses a ordem global ocidental teve início com o império português na Ásia

A verdade é que existe uma diferença radical entre os esquemas de ação europeus e chineses, que se vai revelando lentamente ao viajante. Os europeus concebem um modelo ideal nas suas mentes, que depois tentam executar, transformando a realidade de modo a fazer com que se pareça com o modelo planeado. A filosofia europeia, a começar por Platão, focou-se em encontrar uma forma de transpor a distância entre o modelo e a realidade. Para o pensamento tradicional chinês, isso nunca foi um problema. Em vez de estabelecerem um plano para a ação, os chineses inclinam-se a considerar o curso dos acontecimentos de que fazem parte, deixando-se levar pela propensão das coisas e retirando o máximo das suas consequências. Enquanto os europeus veem nas circunstâncias externas obstáculos capazes de arruinar o plano melhor delineado, os chineses querem aproveitá-los, usando os fatores favoráveis implícitos na situação, explorando-os constantemente e permitindo que se desenvolvam, de tal modo que, por exemplo, quando uma pessoa se empenha finalmente na batalha o adversário já se tenha rendido. As tropas vitoriosas começam por ganhar e só depois é que se lançam na batalha; os derrotados começam por se lançar na batalha e só depois é que tentam ganhar. Inspirando-se nesta tradição, a China moderna está a desenvolver uma nova constelação de valores políticos centrados na capacidade e na eficiência do Estado: uma vez que os objetivos políticos são obtidos a partir da situação prática e não de uma imagem idealizada, a sua realização é tida como inevitável. Os diferentes esquemas de ação parecem assim estar completamente preservados nas variantes europeia e chinesa da política moderna.

Nessa tarde, iria regressar a Renmin para proferir uma palestra no seminário Cintura e Rota, orientado pelo professor Wang Yiwei. É um sinal de como as coisas se estão a desenvolver depressa o facto de poder haver um seminário inteiro dedicado à iniciativa e Yiwei é também o autor do primeiro livro em inglês sobre a Cintura e Rota. Enviou um estudante para me receber na Porta Ocidental de Renmin e jantámos no restaurante da universidade com um grupo de académicos europeus e membros dos grupos de reflexão associados à universidade. Começo a minha palestra com uma referência velada à minha conversa com Wang Wen nessa manhã:

“Foi-me dito esta manhã por um influente pensador desta universidade que o meu hábito de pensar em termos geopolíticos se deve às minhas origens europeias e que, na China, ninguém pensa assim. Estou disposto a concordar que a geopolítica não é a forma de considerar a Cintura e Rota. Terão de me perdoar se os meus pensamentos vos parecerem estrangeiros, embora fiquem a saber que estou a tentar aprender convosco e que com certeza são já menos estrangeiros do que eram ontem.”

Não se poderia chamar à intensa troca de ideias “livre” no sentido pleno da palavra. Sou extremamente cuidadoso, por exemplo, a responder à pergunta de um estudante sobre as pretensões territoriais da China no Mar da China do Sul, muito mais cuidadoso do que alguma vez fui como político a falar de questões igualmente delicadas. A repressão não é óbvia, mas isso acontece porque todos se sentem responsáveis por patrulhar aquilo que acontece sob a sua guarda. Se determinada aula da universidade, ou galeria de arte, ou jornal local permitir que venha a público uma mensagem proibida ou inconveniente, a pessoa encarregada ficará com a culpa não tanto por causa de uma falha política, mas por uma falha intelectual, uma falha de julgamento e de antecipação que só poderá vir a prejudicar a sua carreira. Por outro lado, as ideias parecem circular rapidamente e ser levadas a sério e isso marca um contraste bem-vindo com a indiferença generalizada que tantas vezes encontrei nas universidades e nos centros de reflexão na Europa e nos Estados Unidos.

Dois caminhos

Temos uma poderosa imagem da velha Rota da Seda nos nossos espíritos: uma linha de camelos a desaparecerem por detrás de uma duna de areia algures na Ásia Central, talvez aproximando-se de um caravançarai. E sobre a Cintura e Rota? Que imagem mental poderemos formar da iniciativa?

Irei apresentar duas possibilidades extremas. A primeira é do romance de ficção científica de 2006, “O Dia do Oprichnik”, do escritor russo Vladimir Sorokin. Eis uma descrição daquilo a que ele chama “A Estrada”: “É uma coisa espantosa. Vem através da China desde Guangzhou, depois serpenteia pelo Cazaquistão, entra pelos portões da nossa Muralha Sul e depois atravessa toda a largura da Mãe Rússia até Brest. Daí — direta a Paris. A Estrada Guangzhou-Paris. Uma vez que o fabrico de todos os bens necessários vinha da Grande China, construíram esta Estrada para ligar a China à Europa.”

Com dez faixas e quatro linhas subterrâneas para os comboios-bala, não seria uma pequena obra de engenharia, mas, como talvez não seja de surpreender, orgulha-se também de invulgares medidas de segurança contra sabotadores de toda a espécie. A nova infraestrutura de transportes que está a ser planeada como parte da Cintura Económica da Rota da Seda poderia, em princípio, desenvolver-se em linhas semelhantes. Quanto mais importante se tornar, mais se poderá tornar um alvo para terroristas e insurgentes, forçando os seus promotores a adotarem todas as medidas necessárias para reduzir os riscos a proporções controláveis. O resultado seria um projeto que ligasse duas extremidades, ao mesmo tempo que se manteria inteiramente isolado das regiões que atravessasse. O porto seco de Khorgas — que visitei em 2017 — poderia encaixar neste modelo: só o atravessam as pessoas que lá têm assuntos a tratar.

A China e a União Europeia são já as maiores economias mundiais, juntamente com os Estados Unidos, e pode-se esperar que o comércio entre elas continue a crescer e a diversificar-se. Suponhamos que se constrói um porto precisamente no ponto médio entre as duas, onde os comboios de carga podem convergir, descarregar os seus contentores e a partir do qual outros comboios, recombinados de acordo com o seu destino, partirão rapidamente (as gruas gigantescas que eu vi são capazes de deslocar a carga entre comboios em apenas 47 minutos). No entanto, isto será apenas o início. A partir do momento em que o porto esteja completamente operacional, é de esperar que novas áreas industriais e novas cidades comecem a emergir ao longo das rotas comerciais, aproveitando a nova infraestrutura, os baixos custos de trabalho e a crescente especialização industrial em diferentes regiões económicas. Os fabricantes chineses em particular serão certamente atraídos pela possibilidade de entrar no mercado russo sem pagar quaisquer taxas — se se instalarem do outro lado da fronteira, podem beneficiar do facto de a Rússia e o Cazaquistão serem membros da União Económica Eurasiática, uma união alfandegária. A antiga Rota da Seda a ligar o Oriente e o Ocidente poderá regressar com um sabor a vingança.

O CEO do porto de Khorgas, Karl Gheysen, trabalhava no Dubai antes de vir para aqui e a visão que tem para Khorgas inspira-se em grande parte no conceito do Dubai de ter um porto e uma zona económica em combinação. Como a zona económica se desenvolveu, o porto começou a desenvolver-se e, como o porto cresceu, a zona cresceu. A interação é necessária quando se quer criar algo com esta dimensão praticamente a partir do nada.

Mais do que uma barreira logística, diz-me Gheysen, é uma barreira psicológica que todos estão a ajudar a derrubar — uma barreira psicológica entre o Oriente e o Ocidente, entre a Europa e a Ásia, uma barreira em torno da qual os governos e as empresas organizaram as suas atividades. Se a Toyota quiser entregar carros de uma das suas fábricas japonesas ou chinesas no Cazaquistão, pede à sua subsidiária europeia que se encarregue da logística e as pessoas em Bruxelas ou em Roterdão pensam então no caminho mais curto, não entre o Japão ou a China e o Cazaquistão, mas entre a Holanda e o Cazaquistão. É difícil imaginar a que profundidade estas distinções vão e a que ponto interferem naquilo a que se chamaria uma logística eficiente. A determinado ponto, esta barreira cairá e isso mudará tudo. Deixaremos de ter a Ásia de um lado e a Europa do outro, mas um único continente, crescentemente interconectado.

As tropas vitoriosas começam por ganhar e só depois é que se lançam na batalha; os derrotados começam por se lançar na batalha e só depois é que tentam ganhar

O outro modelo é a “cintura de cidades” que, no início da era moderna, ligava a Itália aos Países Baixos, os dois centros do capitalismo comercial na Europa. Estas cidades eram pontos de convergência para o comércio e a finança, bem como paragens para as viagens e o intercâmbio cultural. Poderá o modelo ser repetido na Ásia Central, onde, de qualquer forma, seria uma nova e melhorada versão da velha Rota da Seda? Não é impossível. Também em Khorgas, na fronteira entre a China e o Cazaquistão, pode-se encontrar uma imagem inicial, muito inicial desta via de desenvolvimento.

Apenas a algumas centenas de metros do posto fronteiriço, desta vez do lado chinês, há um grande muro com uma longa fila de pessoas formada cá fora. Poder-se-ia pensar a princípio que fosse a fronteira e de facto os procedimentos, uma vez lá dentro, não são diferentes dos de uma alfândega fronteiriça e de uma inspeção da imigração. Quando vos fazem sinal para passar, não se encontram no Cazaquistão, mas no Centro Internacional para a Cooperação Fronteiriça.

O conceito é notavelmente simples, mas é na realidade a primeira vez que é tentado. Imaginem uma área onde as pessoas podem circular livremente e atravessar as fronteiras nacionais sem terem de mostrar qualquer identificação e onde o comércio é livre de taxas ou de quaisquer outras barreiras. A União Europeia é o exemplo perfeito desta visão. Agora, suponha dois países como a China e o Cazaquistão. Decerto que não desejam nem podem criar o mesmo tipo de área de livre movimento e trocas. O que podem fazer, no entanto, é definirem uma pequena porção dos seus territórios fronteiriços e criá-lo numa escala limitada.

Quando entram no Centro Internacional ainda estão na China. Não são permitidos carros particulares lá dentro, mas podem deslocar-se de táxi, carrinhos de golfe individuais e tróleis maiores. Desde as filas da entrada até aos carrinhos de golfe e à sensação de excitação e divertimento que existe no ar, tudo aquilo parece um parque de diversões. Quando se chega realmente à fronteira entre os dois países, há apenas um portão simbólico. Se continuarem a andar acabarão por alcançar o limite entre o Centro Internacional e o Cazaquistão. Aí, têm de voltar para trás, mas dentro dos limites exteriores podem atravessar a fronteira interna as vezes que quiserem, como se se estivessem a movimentar, digamos, entre a Alemanha e a França. O objetivo principal do exercício é descobrir bons negócios isentos de taxas entre uma impressionante variedade de vendedores.

Há um limite para a quantidade de bens que se podem levar, mas não é pouco generoso e provavelmente será aumentado ou eliminado com o tempo. Toda a área é, por enquanto, não muito maior do que um grande centro comercial: a secção chinesa inclui uma série de mercados independentes fornecidos com todo o tipo de mercadorias e embora a secção cazaque seja mais pequena e esteja apenas na fase inicial de desenvolvimento, os seus planos parecem na verdade muito mais sofisticados, prometendo uma maior experiência etnográfica. Há um hotel muito bom do lado chinês, mas talvez apenas alguns dos donos das lojas queiram lá ficar. Não consegui encontrar nenhum restaurante que fizesse jus ao nome, não existiam opções de entretenimento e nem sequer muito espaço para se dar um passeio sossegado. Mas, se isso mudar e a área, já considerável, for expandida, poderemos ver a ideia transformada numa cidade transnacional, onde as pessoas poderão viver e trabalhar entre dois países, tendo acesso livre a tudo que tiverem para oferecer. É um modelo para aquilo em que a região poderá esperar transformar-se.

Quando as pessoas se preparam para partir após um longo dia, os cidadãos chineses têm de fazê-lo através do lado chinês e os cazaques através da sua própria secção. Todos eles transportam consigo pesadas malas de mercadorias. Faz sentido que pequenos negociantes cazaques venham aqui para comprar mercadorias chinesas isentas de taxas. Na verdade, alguns deles viajaram comigo no comboio noturno de Almaty e houve um autocarro especial na estação de Altynkol para os levar diretamente ao Centro Internacional. Para os chineses, não parece tão tentador. Não há muitos produtos cazaques à venda, mas os preços dos produtos chineses são mais baixos e a experiência deve ter os seus próprios encantos. Só na China alguém escaparia de uma cidade construída para os negócios e o comércio para um parque fechado onde poderão ser experimentados mais intensamente.

E Portugal?

A criação de novas ligações em terra é indubitavelmente importante, mas são as novas ligações marítimas planeadas para a Cintura e Rota que se afiguram revolucionárias e são estas também que podem ter um impacto na posição de Portugal no xadrez económico e político mundial.

Contornar o estreito de Malaca por via da construção de um canal através do istmo de Kra na Tailândia é um projeto capaz de modificar dados até hoje invariantes da geopolítica, eliminando de facto a separação entre os oceanos Índico e Pacífico. Na Europa, o que está em causa é uma reconfiguração radical do sistema de portos. Desde o início da era moderna, os grandes portos europeus estiveram continuamente localizados no Norte da Europa, um facto fortemente relacionado com a mais rápida e profunda industrialização do Norte. Ainda hoje portos como Antuérpia, Roterdão, Hamburgo e Londres concentram em seu torno áreas de forte poder económico. A China está interessada em deslocar este sistema para sul, aproveitando rotas marítimas mais curtas entre a China e a Europa e beneficiando portos onde interesses chineses têm uma posição dominante.

Pireu, Trieste, Veneza, Algeciras e Sines. Em todos estes portos a China tem já participações decisivas ou planeia a sua aquisição. Em causa está a reconfiguração de um sistema que se tem mantido estável ao longo dos séculos. A resistência francesa e alemã também se explica nesta medida e as discussões entre Xi Jinping e o Governo português terão de incluir uma visão global do problema. Em resposta a Macron poderemos talvez dizer que não é a primeira vez que um Chefe de Estado francês procura fechar os nossos portos.

Sines explica a importância de Portugal para a Cintura e Rota, mas há também um elemento simbólico que não pode ser ignorado e que tem talvez um peso ainda maior. Como vimos antes, a Cintura e Rota é um plano com o objetivo final de substituir a ordem global ocidental. Ora, para os estrategos chineses essa ordem teve início com o império português na Ásia, uma mensagem repetida por populares documentários na televisão pública, em conversas que tenho quase diariamente em Pequim e até em artigos académicos sobre a Cintura e Rota. Se a ordem inaugurada por Portugal rivaliza diretamente com a iniciativa chinesa, haverá melhor modo de marcar o seu primeiro grande sucesso do que converter Portugal à Cintura e Rota? É já em dezembro que as caravelas chinesas desembarcam em Belém.

* Secretário de Estado dos Assuntos Europeus entre 2013 e 2015. O seu livro “O Despertar da Eurásia” foi publicado pela Temas e Debates em Outubro. Vive atualmente em Pequim