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VEVA DE LIMA

A casa excecional da bela escritora medíocre

<span class="creditofoto">FOTO Mário Marzagão</span>

FOTO Mário Marzagão

Esta é a história de uma escritora medíocre que se faz amar e cujos episódios da sua relação com Salazar, amigo do marido, são pouco menos do que deliciosos. Ela que fez correr tinta em Londres: bonita, insinuante e bem vestida, despertou a simpatia da família real e a atenção da pequena Isabel, neta da rainha Maria e de Jorge V. A obra literária que protagonizou não foi pensada para lhe sobreviver - mas a casa que deixou é a sua mais impressionante obra (que está com problemas)

Texto Joana Leitão de Barros

A porta do 240 da rua Silva Carvalho, nas Amoreiras, é ainda um segredo lisboeta, exclusivo e inesperado. Perduram as folies dos dias de Genoveva de Lima Mayer, que adotou o pseudónimo literário “Veva de Lima”, autora de numerosas peças de teatro e poesia. Com lugar cativo na galeria dos excêntricos de Lisboa, é uma figura marcante da alta sociedade dos anos 20, 30 e 40. É casada com Rui Ennes Ulrich (tio-avô do banqueiro Fernando Ulrich), monárquico e amigo de Salazar, professor de finanças na Universidade de Coimbra, que virá a ser diretor do Banco de Portugal (1914-1927) e presidente do conselho de administração da Companhia de Moçambique (1920-1933). E, por duas vezes, embaixador extraordinário e plenipotenciário em Londres.

Inicialmente decorada em 1920, quando a alugam à família Anadia, a Casa vai tornar-se o último salon littéraire de Lisboa, na tradição romântica que junta elites e artistas, intelectuais e políticos boémios. Durante a década de 20, quando os Clubes e a sua cocaína fazem furor, é palco de festas e encenações estridentes. Veva de Lima não receia o ridículo, se bem que tenha um sentido de humor seco, declama e representa-se. Em casa veste Jean Patou. Inspirada por África, que conheceu com o marido, chega ao ponto de caracterizar os os criados, engraxando-lhes a cara de negro e vestindo-os com tangas de leopardo. Dispõe-nos ao correr da escadaria, segurando archotes, à espera dos convidados. Uma outra vez, instala tendas no jardim para compor o cenário , inspirado por alguns camelos que viu no circo e que pede emprestados. Ou ,simplesmente, encena uma entrada triunfante para si mesma, feita ao som de trombetas. Faz-se esperar e surge no salão abanando plumas, dentro de um pequeno atrelado em forma de cisne, puxado pelo eterno amigo e cúmplice Afonso Lopes Vieira. Pelo meio dá-se o suicídio do filho, ainda jovem. E à sua volta murmura-se sobre o amante que sobe ao quarto pela escada interior, a relação escaldante que a liga a uma poetisa, com quem passa largas tardes no moinho que tem em Monsanto. Adorada pelo marido, Veva de Lima chama-lhe “o meu gato”.

<span class="creditofoto">Foto Nuno Botelho</span>

Foto Nuno Botelho

Mário Nascimento fez parte da equipa do Museu da Cidade que inventariou a coleção de arte existente no interior da casa - está ainda a preparar uma dissertação de mestrado sobre ela. O retrato que Mário Nascimento faz da escritora medíocre foi ganhando densidade quando começou a ler a sua correspondência. “É uma mulher moderna, mesmo quando escreve a Ruy a pedir-lhe autorização para cortar o cabelo. Cria a sua imagem pública e orienta-a, torna-se uma mulher famosa da sociedade. Tem iniciativa, é dela a ideia da Festa da Flor, a favor das vítimas da Primeira Grande Guerra, faz espetáculos para angariara fundos para os desfavorecidos, percebe que consegue mobilizar a sociedade. Organiza conferências e corresponde-se com figuras estrangeiras. É corajosa: o testemunho que dá a uma rádio em Espanha sobre as razões de ser anglófila é um atrevimento para o Estado Novo. E é aventureira: infiltra-se por volta de 1920 numas conferências bolchevistas em Paris, para saber do que se trata. E nas artes incentiva os modernistas, compra duas peças a Marie Vassilief, do círculo de Picasso, lança no seu salon jovens artistas, corresponde-se com escritores.”

E é também uma mulher que se faz amar. Alguns episódios da sua relação com Salazar, amigo do marido, são pouco menos do que deliciosos, mostrando como nem o seu charme desarmou a rigidez do presidente do Conselho. O convite que lhe envia para uma visita, com a data em branco, recebe resposta negativa e formal. Mas Salazar vai fazer nomear Ruy como embaixador em Londres, em 1933. A nova embaixatriz faz correr tinta em Londres, bonita, insinuante e bem vestida, passeando à trela a pantera que criou desde pequena. Veva Ulrich vai despertar a simpatia da família real e a atenção da pequena Isabel, neta da rainha Maria e de Jorge V.

Pouco depois dá-se a demissão muito falada de Ruy, ligada a um almoço com D. Duarte Nuno e precipitada por uma notícia do Daily Telegraph, numa altura em que a ameaça da restauração da monarquia ainda se faz sentir. Mas Ruy Ulrich voltará ao cargo, em 1950. E é por essa altura que Isabel II pede a Salazar para prolongar a missão de Ruy, para que o casal possa representar o país na cerimónia da sua coroação, em 1953. O que assim acontecerá.

Segundo Mário Nascimento, a obra literária de Veva da Lima não foi pensada para lhe sobreviver. Mas a Casa é a sua mais impressionante obra. O que o leva a fazer o paralelo entre a Casa Veva de Lima e o que sucede em Lèves com Madeleine Castaing, em Abbotsford House com Sir Walter Scott e no Chateau de Groussay com Charlie de Beiestegui.

FOTO Mário Marzagão

A Câmara de Lisboa (CML) adiou as obras programadas para a Casa Veva de Lima, também conhecida como “Palácio Ulrich”, não prevendo iniciá-las antes de meados de 2019. Alterações na fundações do edifício, comprado em 1980 a Miguel Pais do Amaral, estão a provocar infiltrações, vindas das caleiras do telhado. É uma intervenção necessária, tanto para o imóvel como para o acervo. O recheio pertence em grande parte à CML, alguns objetos à Fundação Maria Ulrich e o restante à Associação Casa Veva de Lima. Trata-se de uma coleção importante enquanto conjunto de património integrado, dizem os especialistas.

Existem já pinturas danificadas e paredes com manchas indisfarçáveis. Quando chove deslocam-se móveis para os preservar da água. E em risco estão os papeis de parede da manufatura Dufour, identificados em diversas monografias.

A 23 de abril último, altura em que os deputados municipais do PS visitaram a casa, a situação era já crítica. A notícia que fizeram publicar no site da Área Metropolitana de Lisboa dá nota disso e refere a “necessidade urgente de obras”. Questionada, a Câmara de Lisboa esclarece que o início das obras não foi adiado, isto porque não foi anunciada (publicamente) uma data para o seu início. E diz que em relação ao custo das obras falta ainda “avaliar o estado de conservação do edifício, fase que está em curso e que determinará a instrução do respetivo caderno de encargos e mapa de trabalhos”.

FOTO Mário Marzagão

No impasse, Alfredo Magalhães Ramalho, à frente da Associação Veva de Lima, está de pés e mãos atados. “A prioridade é apenas uma, a de levar a cabo as sessões que fazem parte do nosso objetivo social. A conservação do edifício é assunto exclusivamente da CML e a associação tem de se conformar com a decisão do adiamento.” Por outro lado, a associação recebeu já a garantia de que será transferida temporariamente para um outro espaço da CML, logo que as obras tiverem início. Os estatutos da associação, criada em memória do casal Genoveva Lima Mayer e de Rui Ennes Ulrich, determinam uma ação cultural contínua e regular. Entre os seus sócios fundadores está a CML mas também universidades, a Fundação Calouste Gulbenkian, a Academia Nacional de Belas Artes, o Conservatório Nacional de Música, a Academia Portuguesa de História e a Sociedade de Geografia de Lisboa, entre muitos outros.

Mário Nascimento não hesita em classificar a casa como um caso à parte - o efeito “cápsula do tempo” é destacado pelo investigador. “É um recheio e um edifício que não foi dividido entre herdeiros, nem disperso em leilões. A sua arquitetura interior não foi remodelada, não foi musealizada, não teve os seus objetos selecionados, é autêntica.” Em Lisboa é única. “Apesar de não ser a casa de um colecionador, de não integrar nenhuma raridade ou objeto de primeira água, e de ter inúmeros defeitos, é excecional. Se a Fundação Ricardo Espírito Santo Silva recria um ambiente passado com peças de excelência, se a Fundação Medeiros e Almeida abriga peças representativas do gosto de um colecionador, poder-se-ia pensar que a Casa Veva de Lima, por não ter uma coleção exemplar, traduziria uma vivência doméstica quase comum. O que está longe de ser assim. E é aqui que a questão ganha uma razão extra de importância.”

Mário Marzagão

A programação da Casa Veva de Lima vai continuar a realizar-se nas Amoreiras, até ver. Ocasionalmente são organizadas visitas guiadas. As sessões temáticas recomeçam na próxima quarta-feira, em noite dedicada à evocação de Lima de Freitas, entregue ao arquiteto João Cruz Alves. Ao jantar segue-se a palestra com debate. Será assim quinzenalmente e às quarta-feiras.

O acesso é aberto mas controlado, de forma a que os convidados possam deambular pelas várias salas e quartos, como faziam os convidados dos anos 20. A frequência é heterogénea e muitas vezes fora da caixa, como a carismática anfitriã gostaria. Junta curiosos e apaixonados pela escritora, muitos deles atraídos pelo ambiente felliniano. Através de um “conviva” já frequentador da Casa, pode entrar-se no “local de muito bom gosto que se tornou uma casa de gosto duvidoso... até que as pessoas a conheçam, façam perguntas e encontrem respostas”, como diz Mário Nascimento.