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Quando Lisboa saiu à rua de máscara e luvas…

Saímos à rua num dia assim, nesta quinta-feira, no primeiro dia em que entrou em vigor o Estado de Emergência, e em que ironicamente se celebra também o dia do Pai. E encontrámos muitos lisboetas de luvas, máscaras, algumas delas improvisadas, medo, mas também ânimo, humor e engenho

Reportagem Bernardo Mendonça (texto) e António Pedro Ferreira (fotos)

Novos tempos, novos cumprimentos. Dois homens com seguramente mais de 60 anos encontram-se por acaso à porta de um dos poucos cafés abertas nas Amoreiras, em Lisboa. E, sem hesitarem, tocam-se nos cotovelos, numa coreografia que seria completamente absurda até há bem pouco tempo, e que agora é bastante comum a revelar consciência e cuidado com esta pandemia do novo coronavírus que atingiu o país.

Nas ruas quase desertas, muitas das pessoas com que nos fomos cruzando na cidade usavam máscara e luvas, algumas só luvas, algumas com a máscara no pescoço, é certo, outras com lenços improvisados e até havia quem usasse as capas de telemóvel para tapar a boca e nariz enquanto falava ao telefone. Chegámos mesmo a ver no bairro de Campo de Ourique uma rapariga de gaze à volta do rosto e óculos escuros, numa versão do filme “Homem invisível”, dirigido por James Whale, lançado em 1934.

No primeiro dia em que o Estado de Emergência entrou em vigor no país para enfrentarmos estes novos tempos de “guerra”, “porque é de uma verdadeira guerra que se trata” contra este vírus, como afirmou o Presidente esta quarta-feira à noite, parece por vezes valer tudo para fazer face ao desconhecido.

Como ironicamente o 1º dia do Estado de Emergência calhou no Dia do Pai, encontrámos João Almeida, de 50 anos, funcionário público, a celebrar o dia com as suas filhas, Maria Rita, de 12 anos, e Ana Rosa, de 11. Todos sem máscara, porque ao ar livre e com os devidos cuidados ela não faz sentido, justifica este pai. E acrescenta: “Hoje só demos abraços, nada de beijinhos, nada de muitos histerismos.” Estão no Jardim da Parada, que parece nesta quinta-feira um jardim meio fantasma, que costuma estar pleno de gente, de crianças, de famílias e velhos senhores a jogar cartas nas várias mesas por ali espalhadas e que agora estão isoladas com fita.

A DISTOPIA DO MEDO

Também o parque infantil está igualmente vedado. As cadeiras da esplanada do quiosque estão arrumadas até data incerta. João e as filhas pedem hambúrgueres para comer fora dali para o almoço. Planeiam seguir para o parque do Alvito, em Monsanto, para respirarem ar puro onde contam não encontrar muita gente. “Estou a levar isto na boa. O que me assusta é o medo e a histeria das pessoas. A facilidade com que aceitam autoritarismos. Acho que ontem foi uma manifestação de autoritarismo entre o hipocondríaco de Belém e a demonstração agressiva da PSP que fez uma publicação nas redes sociais com agentes com cara agressiva a dizer “Fique em casa, nós estamos na rua.”

João Almeida considera no entanto que até agora o Governo tem estado a agir “de forma ajustada e proporcional”. Mas já não acha o mesmo desta decisão do Presidente. “O novo Estado de Emergência já foi a meu ver uma escalada do medo.” E é sobre o medo que fala da distopia que assiste na cidade. “Vejo que a malta entrou em pânico e desatou a usar máscaras e luvas, mas sem as saberem usar devidamente, sem precisarem delas ou usando-as em situações em que não são necessárias. Tenho também visto uma série de máscaras que não são adequadas, que criam uma falsa segurança nas pessoas. O que revela que não têm tido orientações precisas, que estão desorientadas. Com medo.”

Quem não tem medo é Aurora de Brito, 80 anos, lenço no pescoço, mãos tingidas do vermelho dos morangos, estilo castiço e cheia de energia. É a vendedora mais antiga do mercado de Campo de Ourique, onde trabalha há 68 anos. Começou a trabalhar naquele local com apenas 12 anos. O que mudou nestes tempos da Covid-19? “As pessoas agora afastam-se de mim no balcão. Digo-lhes que não tenho a peste. Respondem-me que estão a afastar-se para me proteger. Mas eu não tenho medo de apanhar o vírus. Sou transmontana. Nasci no frio. Sou rija. Na verdade eu é que devia estar em casa, pela minha idade e por ter passado por um cancro, mas não tenho medo.” D. Aurora queixa-se que no primeiro dia de Estado de Emergência pouca gente lhe comprou fruta ou verdura, mas que no dia anterior foi um vê se te avias. “Vendi tudo, tudo.” Aurora recusa-se a usar máscara e luvas porque não lhe dá jeito e vive segundo o seu lema: “Antes no mercado que numa casa de saúde.”

A MÁSCARA DA TININHA

Além do medo há também [felizmente] o bom humor, o engenho e a criatividade dos portugueses. E encontrámos isso tudo na lisboeta Cristina Guimarães, de 75 anos, reformada, antiga educadora infantil, conhecida por amigos e família como a ‘Tininha’. Esta não a da SIC, mas a de Campo de Ourique que nos chamou a atenção pela sua máscara de tecido às florzinhas azuis. Um mimo de máscara. Trazia ainda uma mala no braço e luvas descartáveis. “Tenho estado mais por casa, como nos está a ser pedido. Saí agora apenas para comprar pão e renovar o cartão multibanco. O resto das compras já fiz ontem. As filas têm sido enormes, mas tudo bem organizado.”

Perguntámos-lhe se a máscara que trazia era uma criação sua. “Claro. Tenho a mania das costuras. Ontem quando estive a ouvir o Presidente Marcelo a declarar o Estado de Emergência, aviei sete máscaras para mim e outras tantas para dar a outras pessoas. Os tecidos e os elásticos já os tinha guardados em caixas para uma qualquer eventualidade. Para o Manel, o meu marido, fiz uma em tons de azul de uma cortina em algodão que tinha. Mas ele usa-a do avesso, do lado branco, porque não aprecia os motivos decorativos.” Tininha garante-nos que andou no mesmo colégio infantil que Marcelo Rebelo de Sousa, o “Lar da Criança”, na Lapa. “Fomos colegas, embora eu seja um bocadinho mais velha. Ele tem-nos dado muita segurança.”

Tininha que tem 4 netos, e outros tantos postiços, afirma que se viu forçada a pegar na agulha e dedal pelo facto das máscaras estarem esgotadas nas farmácias e que aprendeu tudo sobre proteção e esterilização... no Youtube. “Tudo o que não sei vejo na net. Sempre que chego a casa, passo estas máscaras a ferro durante muito tempo.” Tininha ainda chegou primeiro a fazer máscaras a partir de filtros de café - que garante também se terem esgotado no supermercado do bairro. “Juntei-lhes umas molas, daquelas de segurar os guardanapos. Foi um conselho da minha cunhada, mas estou mais satisfeita com estas minhas máscaras em tecido de algodão, como deve ser. Para não ficar infetada.” Diz estar a aproveitar o tempo que passa mais em casa, para ler. “De momento leio as “21 lições para o século XXI”, do escritor e professor de história israelita Yuval Noah Harari. Já li os dois anteriores dele. E faço-o mais à noite que é a altura do dia onde sinto mais liberdade.”

Liberdade. Curiosa palavra para estes tempos que vivemos. No interior do quiosque dos jornais das Amoreiras, um dos poucos estabelecimentos abertos na zona, Miguel Sepúlveda, um venezuelano de 34 anos, vende jornais de luvas e máscara. “Esta semana a venda dos jornais baixou muito. Pelo menos metade.” O autocarro 58 que nos leva até ao Chiado, e que costuma estar durante o dia apinhado de gente, estava apenas com 5 passageiros. Dois deles de máscara. Todos distanciados uns dos outros. Zona do condutor interdita e entrada feita pela parte detrás [medida que abrange todos os autocarros].

CHIADO DESERTO

Chegados ao Chiado, perto da hora de almoço, parecia estarmos a viver uma manhã de feriado. Daqueles feriados em que está tudo a banhos. Ou ainda mais deserta que isso. Veem-se vários turistas. Os grupos de estrangeiros com que nos cruzamos não parecem muito preocupados e andam mais juntos do que seria aconselhável. De notar que entre os poucos estabelecimentos abertos, estava a livraria Bertrand...mas vazia de clientela. Na rua do Carmo há apenas uma loja de roupa aberta, isolada como uma ilha num mar de portas fechadas, com o funcionário de máscara à porta. Na montra letras vermelhas gritam saldos. A rua responde num quase silêncio. O nosso fotógrafo chama a atenção para o facto da habitual longa fila para o elevador de Santa Justa ser apenas uma memória dos tempos em que não havia o novo coronavírus.

“NUNCA PODE FALTAR PÃO, NÃO É?”

Mais abaixo, o Pingo Doce do Rossio revela uma grande fila de gente no exterior que dá a volta à rua. Isto porque como em todos os restantes supermercados a nova política é limitar o número de pessoas no seu interior. Neste lugar são permitidas vinte e oito pessoas de cada vez. As pessoas cá fora estão demasiadamente aproximadas, sem a aconselhada distância de um metro de segurança.

Abordamos a única senhora que está de luvas de plástico e o rosto coberto por um lenço malhado com motivos da tropa. Fátima Sousa, de 44 anos, é cozinheira no Hotel Turim, na Avenida da Liberdade, e por motivos de segurança está em casa há duas semanas, com os dois filhos, uma filha de 19 e um de 5.

O marido que é padeiro tem ido trabalhar. “Porque nunca pode faltar pão às pessoas, não é?”. É. “Vou comprar iogurtes, vinagre e álcool de desinfeção se houver. O resto tenho tudo. E quando chegar a casa tomo logo um banho, claro. O que mais me custa é ter tanto tempo o miúdo em casa, tento entretê-lo com jogos, televisão e internet. Não é fácil.”

Na mesma fila está um casal de italianos que há semanas que já deixaram de se sentir de férias em Lisboa. Agora estão apenas à espera dum voo de regresso para a sua cidade, Sicília. Emilio Silipigni, reformado militar, de 62 anos, e a mulher, Gracia Silipigni, de 60, estão a dormir um airbnb no Bairro Alto e, apesar de saberem estar em maior segurança em Lisboa, contam os dias até maio - mais precisamente dia 1 de maio - que é quando possivelmente conseguem um voo de regresso. O que têm feito? “Comprar comida, pequenos passeios e muito recolhimento. Gostamos de Lisboa, mas temos muitas saudades de casa.”

“AINDA NÃO ESTÃO A LEVAR MUITO A SÉRIO”

A poucos metros dali, tanto a emblemática Rua do Ouro, como a rua das portas de Santo Antão, ambas das ruas mais povoadas da cidade, plenas de esplanadas e de turistas estão agora quase vazias. A comunidade africana que se costuma juntar ao lado do Teatro Nacional D. Maria II, mantém-se quase no mesmo número e com a mesma proximidade de sempre.

Apanhamos um táxi. O motorista Cláudio Mendes, de 39 anos, brasileiro de Minas Gerais a viver há 24 anos em Portugal usa máscara e luvas. Afirma que nos últimos dias perdeu 80% da clientela. E mostra-se preocupado com a sua sobrevivência. Conta-nos que começou a usar máscara e luvas quando soube do estado de calamidade que a Itália está a viver, quando tudo piorou, ‘há duas semanas’. “Isto é uma tragédia, a nossa economia em Portugal estava tão bem e agora isto. Sabe uma coisa, já houve clientes que me escolheram por usar máscara e luvas porque se dizem mais seguros. Mas olhe ali para aquela praça de táxis, nem um usa. Ainda não estão a levar isto muito a sério...”