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Política

Conferências por streaming, podcasts e uma chuva de hashtags. Como os partidos levaram a política para as redes

Com boa parte do país fechado em casa, os políticos foram obrigados a adaptar-se e a pensar noutras formas de passar a mensagem. No Bloco, já há sessões públicas feitas por streaming. CDS envia intervenções do líder por vídeo. A conta de Instagram do PCP foi atualizada quase 40 vezes em três dias

Texto Mariana Lima Cunha

A nota de agenda começava sem qualquer novidade digna de registo. Na terça-feira, às onze horas, a coordenadora do Bloco de Esquerda reunir-se-ia com a nova secretária-geral da CTGP, Isabel Camarinha. Até aqui, nada a estranhar. A parte inédita chegaria depois: a reunião não aconteceria com as duas líderes na mesma sala, mas em salas e até edifícios diferentes, através de streaming. Também a conferência de imprensa seria transmitida por vídeo, logo a seguir. Tudo com um ecrã pelo meio.

Um exemplo dos novos tempos, tempos que também estão a afetar a forma como se faz e se comunica a política. A história da conferência de imprensa de Catarina Martins é paradigmática: na nota que seguiu para os jornalistas, explica-se que será preciso fazer o download de um programa informático específico para assistir à conferência e que apesar de os jornalistas não poderem estar na sala, haverá lugar a perguntas, mas também aqui o esquema de funcionamento mudou - as mesmas teriam de ser enviadas para a assessoria, por escrito, para que a coordenadora as lesse e respondesse a cada uma por ordem de chegada.

Catarina Martins na “reunião“ de terça-feira com a nova secretária-geral da CTGP, Isabel Camarinha <span class="creditofoto">Foto cortesia esquerda.net</span>

Catarina Martins na “reunião“ de terça-feira com a nova secretária-geral da CTGP, Isabel Camarinha Foto cortesia esquerda.net

Nunca os jornalistas, ou os políticos, passaram por uma coisa assim. “Temos de nos adaptar. Andamos imparáveis nas redes”, confirma fonte do Bloco de Esquerda, cuja aposta nos meios digitais em tempo de distanciamento físico é particularmente evidente. Seja para divulgar medidas e informação ou até para concretizar iniciativas em modo virtual. Marcadas já estão pelo menos duas: uma conferência online, esta sexta-feira, sob o mote “Responder à crise, não deixar ninguém para trás”, com participações de vários especialistas e da eurodeputada Marisa Matias; e uma sessão online de perguntas e respostas, no dia 23, com o deputado José Soeiro, a propósito de direitos laborais.

Também os podcasts publicados no portal do partido, o esquerda.net, estão a ser “reforçados”, a somar à reprodução das conferências de imprensa em vídeo - ou até a sua transmissão em direto - e à visível produção cada vez maior de materiais de esclarecimento. No Instagram, são constantes as partilhas das medidas propostas pelo partido, mas também de conteúdos sem ligação direta às iniciativas bloquistas (por exemplo, uma partilha sobre o Festival #Euficoemcasa, que pôs dezenas de músicos portugueses a dar concertos via instagram).

Mas o Bloco não é o único partido que acelerou o passo para se adaptar à nova realidade política. Esta semana, os jornalistas já receberam por duas vezes comunicações do presidente do CDS, Francisco Rodrigues dos Santos, feitas através de vídeo e áudio. “Temos estado muito ativos nas redes”, sublinha também fonte do partido, lembrando as partilhas também cada vez mais regulares de informação nas redes sociais dos centristas, sobretudo para frisar as medidas que estão a propor no contexto da crise ou as declarações que o presidente e o líder parlamentar vão fazendo sobre o assunto.

No PCP, uma onda de publicações sobre a Covid-19 também invade o instagram oficial do partido. É, aliás, ali que se pode ler que na sexta-feira o secretário-geral, Jerónimo de Sousa, fará uma declaração a que se poderá assistir em todas as redes sociais e na conta de Youtube do PCP. De resto, se a “luta” ganhou agora novos focos, as redes refletem isso mesmo: o surgimento do surto proporcionou que a esquerda apostasse muito em medidas focadas nas áreas da Saúde e do Trabalho, dadas as consequências da pandemia para estes dois setores, e nas redes do PCP surgem “lembretes” em catadupa sobre as iniciativas nesse âmbito.

Esta quinta-feira, por exemplo, um post em que se lia que “o SNS é a resposta” para a presente crise era seguido por toda uma série de publicações a concretizar essa ideia, apresentando uma medida por post: reabrir o hospital Pulido Valente, contratar mais profissionais no SNS; reabrir centenas de camas, etc. Desde segunda-feira, e tomando o Instagram por exemplo, já houve 39 novas publicações feitas pelos comunistas.

No PS, a prioridade está a ser “dar apoio ao Governo” no combate à epidemia, mas já foram anunciados contactos online com os militantes, depois de as eleições distritais do partido terem sido adiadas no contexto do surto. Os sociais-democratas também têm recorrido às redes sociais de forma mais tradicional e com mais parcimónia, republicando intervenções de Rui Rio ou intervenções parlamentares - mas esta quinta-feira já publicou um pequeno vídeo animado para celebrar o dia do pai, mostrando um pai e um filho que contactam através das redes sociais.

Uns mais rápido do que outros, os partidos vão se ajustando à nova comunicação a que o vírus obriga. É a política em tempos de pandemia.