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Discriminação

O antissemitismo renovado

Chamam-lhe antissemitismo “mainstream” ou “renovado” e trata-se de um fenómeno crescente, cada vez mais visível e com episódios de violência associados. Os governos vão implementando medidas para diminuir estes ataques mas, ainda assim, será suficiente para evitar que o pior aconteça?

Texto Flávia Tomé e Helena Bento Ilustração Ana Simões

“Judeu! Judeu, filho de uma puta judia.”

“Porque é que falas assim comigo?”

“Judeu, és filho de uma puta judia.”

“Tu não me conheces. Porque é que estás a falar assim comigo?”

“Hitler vai voltar e dar cabo de todos vocês, seus judeus!”

Yorai está calmo. Não é a primeira vez que recebe no telemóvel uma chamada de um número desconhecido a ofendê-lo. Está sentado numa das mesas do restaurante que abriu há cinco anos em Berlim, Alemanha, com apelido igual ao dele, Feinberg’s - especialidades israelitas. Um minuto e 24, um minuto e 25, um minuto e 26. Um minuto e 26 de insultos que são apenas interrompidos pela voz pouco incrédula de Yorai, que tenta perceber o que leva alguém que não o conhece a ligar-lhe diretamente e a utilizar palavras tão violentas como as que acaba de ouvir. “Infelizmente é algo a que me habituei. Tem acontecido demasiadas vezes.”

Yorai Feinberg, judeu israelita de 36 anos, diz que quando chegou à capital alemã, em 2012, “a cidade era muito agradável e amigável, muito melhor do que é hoje em dia”. “Sentia-me apoiado: saía à noite, conhecia tipos que me abraçavam já bêbedos e davam-me as boas-vindas. Era um sítio politicamente muito liberal”, recorda, entusiasmado, em conversa com o Expresso, para logo depois pôr de lado as memórias dos inícios felizes e explicar-nos que atualmente a situação é bastante diferente e sente-se “muito ressentimento contra Israel”.

Protesto em Berlim contra o facto de Trump ter reconhecido Jerusalém como capital de Israel Foto Getty

Protesto em Berlim contra o facto de Trump ter reconhecido Jerusalém como capital de Israel Foto Getty

Vendo de fora, não se percebe logo que o estabelecimento de Yorai Feinberg é israelita. Há um toldo verde com o nome e a especialidade do restaurante escrito a letras brancas, mesas e cadeiras como em tantos outros restaurantes e três janelas que ocupam quase toda a fachada. É só do outro lado do vidro que se entra em Israel - decoram as paredes quadros com o nome do país e a estrela de David, símbolo-mãe dos judeus com seis pontas e dois triângulos equiláteros sobrepostos que serve de amuleto de proteção. Mas houve um dia em que ficou desprotegido: o nome deste antigo bailarino profissional chegou à imprensa internacional quando, a 19 de dezembro do ano passado, a namorada publicou na sua página de Facebook um vídeo de uma discussão à porta do restaurante em que se vê Yorai a ser insultado por um desconhecido. “Estava a conversar com um amigo meu quando um homem chegou perto de nós e começou a gritar palavras muito pouco amigáveis”, recorda ao Expresso. O incidente reacendeu o debate sobre antissemitismo na Alemanha. “Atualmente, há um grande risco em ser-se judeu.” A conversa telefónica transcrita no início deste texto é posterior a isso.


“Ouvimos muitos relatos sobre ataques cometidos por muçulmanos mas as estatísticas nem sequer refletem isso”

Segundo um relatório divulgado em 2017 pela Agência Europeia para os Direitos Fundamentais (FRA), o número de ataques antissemitas na Alemanha subiu de 1.366 em 2015 para 1.468, em 2016, o que corresponde a um aumento de 7,47% (houve, no entanto, um decréscimo face a 2006, ano em que foram registados 1.809 ataques daquela natureza). Ainda de acordo com aquele relatório, a maioria dos ataques foram cometidos por grupos ligados à extrema-direita (isto é, 1.381); há registo de dois incidentes cometidos por grupos de extrema-esquerda, 48 de ideologia estrangeira e 37 não estão discriminados. Dados recentes do Ministro do Interior alemão mostram que em 2017 os ataques aumentaram 2,5%, subindo para 1.504.

Em reação ao ataque a um jovem israelo-árabe em meados de abril em Berlim, que quis fazer uma espécie de teste à tolerância religiosa (em específico, em relação ao judaísmo) ao fazer-se passar por judeu usando um quipá num movimentado bairro da capital alemã, a chanceler alemã, Angela Merkel, disse numa entrevista a um canal televisivo israelita que os refugiados árabes levaram para a Alemanha “um tipo diferente de antissemitismo” (um dos suspeitos foi identificado como sírio, 19 anos, requerente de asilo). Josef Schuster, presidente do Conselho Central dos Judeus na Alemanha (instituição fundada em 1950 com o objetivo de reorganizar a comunidade judaica no país após o Holocausto), chama a atenção, porém, para aquilo que considera ser um mal-entendido sobre os responsáveis pelos ataques. “Ouvimos muitos relatos sobre ataques cometidos por muçulmanos mas as estatísticas nem sequer refletem isso. O antissemitismo tem centenas de anos. É parte substancial da ideologia dos extremistas de direita. O incitamento ao ódio contra judeus é inerente à ideologia nazi”, diz ao Expresso. Embora a instituição a que preside não recolha números de ataques contra judeus no país, Josef Schuster diz ter a perceção de que o número é superior ao apresentado pelas autoridades alemãs, “uma vez que muitos dos ataques nem sequer são denunciados”. Há receio e falta de confiança nas autoridades.

Em resposta ao aumento dos ataques e incidentes antissemitas (várias crianças e jovens denunciaram ter sido alvo de ofensas e ameaças nos últimos meses em escolas em Berlim por causa da sua religião), o Governo alemão nomeou no início de abril um comissário especial que terá como funções delinear uma estratégia para combater o antissemitismo no país. Numa entrevista recente ao “Washington Post”, Felix Klein, de 50 anos, resumiu a situação assim: “O antissemitismo sempre existiu na Alemanha, mas é agora mais evidente e mais agressivo”. Adam Ferziger, professor no departamento de História Judaica na Universidade de Bar-Illan, em Ramat Gan, arredores de Telavive, concorda. Ao Expresso, diz que durante décadas não se viram manifestações antissemitas por causa da derrota da Alemanha na Segunda Guerra Mundial e pela culpa que a sociedade alemã sentia, “mas a situação está a mudar agora”.

O mural do monopólio

Além da Alemanha, foi em países como o Reino Unido, a Polónia e França que se registou um maior número de ataques antissemitas em 2016, de acordo com o relatório já aqui citado da Agência Europeia para os Direitos Fundamentais. Destes, foi no Reino Unido que se registou um maior aumento, tendo o número de ataques subido de 629 em 2015 para 786, em 2016, o que corresponde a um aumento de 25%. Dados da Community Security Trust, uma organização britânica de defesa da comunidade judaica no país, mostram uma realidade ainda mais dramática, com uma subida no número de ataques de 960 em 2015 para 1.382 em 2017. As estatísticas colocaram o Reino Unido numa situação desconfortável e a polémica recente envolvendo Jeremy Corbyn não veio ajudar a isso. O líder do Partido Trabalhista foi acusado de não defender a comunidade judaica no país e de concordar ou não discordar o suficiente dos membros do seu partido que continuam a fazer declarações consideradas antissemitas (outros tantos foram já suspensos, expulsos ou forçados a demitir-se pelas mesmas razões). Corbyn foi ainda criticado pela comunidade judaica por ter manifestado no Facebook o seu apoio a um artista que pintou um mural no bairro de Tower Hamlets, na zona este de Londres, em que se viam judeus a jogar monopólio em cima de vários trabalhadores despidos da cintura para cima. A publicação é de 2012 mas foi agora recuperada e o líder trabalhista já comentou o assunto, dizendo “não ter olhado com atenção para a imagem”. Entretanto, Avi Gabbay, líder do Partido Trabalhista israelita, anunciou que vai suspender as suas ligações com os parceiros britânicos, alegando não poder relacionar-se com Corbyn enquanto este não “reagir de maneira adequada” ao problema.

Foto Getty

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“Antissemitismo atingiu níveis nunca antes vistos desde a Segunda Guerra Mundial”

Em entrevista ao Expresso, Moshe Kantor, presidente do Congresso Judaico Europeu (EJC), que representa dezenas de comunidades judaicas da Europa, diz ver a polémica que envolve Corbyn com “grande preocupação”. “Todos os partidos políticos têm os seus loucos e os seus racistas, mas o que conta é a forma como os seus líderes lidam com isso e, quanto a isso, Corbyn tem claramente deixado muito a desejar. Continua sem reconhecer o quão grave e profundo é o antissemitismo no seio do seu partido, tendo permitindo ao longo do tempo que o problema se agravasse até chegar a um ponto intolerável.”

Não só no Reino Unido como em toda a Europa, Moshe Kantor considera que o antissemitismo “mainstream” - assim designado tal a sua dita normalização e aceitação em larga escala - atingiu “níveis nunca antes vistos desde a Segunda Guerra Mundial”. “Em 1999 foram registados 147 ataques violentos contra judeus em todo o mundo e, desde então, este número tem vindo a aumentar quase todos os anos”, diz Kantor, que não vê uma “explicação em particular” para o aumento dos ataques, “exceto que, à medida que as memórias do Holocausto se desvanecem, aqueles que odeiam os judeus sentem-se mais encorajados e livres para desabafar e partilhar o seu antissemitismo”.

Também para Jonathan Boyarin, antropólogo americano e professor de Estudos Judaicos Modernos na Universidade Cornell, em Nova Iorque, os judeus tornam-se mais vulneráveis à medida que o tempo passa. “As gerações mais novas, por saberem menos sobre a história do Holocausto, terão mais tendência para achar que os judeus são privilegiados e recebem um tratamento especial que não merecem. Essa perceção poderá levar a um antissemitismo renovado.” Jonathan Boyarin considera ainda que os números de ataques “são consistentes com a tendência, evidente sobretudo nos EUA e na maioria dos países europeus, para ter sociedades menos abertas e marcadas por um nacionalismo defensivo, baseado na ideia de que só aqueles que partilham a identidade dominante são os verdadeiros membros de uma nação”.

Eleição de Trump foi “incentivo” ao antissemitismo

Foto Getty

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No caso específico dos EUA, onde os incidentes contra judeus, incluindo ofensas, vandalismo e violência física, aumentaram 57% entre 2016 e 2017 (de 1267 subiram para quase 2.000, representando o maior aumento desde que a organização que os divulgou, a Liga Antidifamação, uma das principais organizações americanas de combate ao racismo e antissemitismo, começou a recolher este tipo de informação, em 1979), Jonathan Boyarin diz “que o ódio a judeus ali está também ligado ao racismo contra afro-americanos”. Já Adam Ferziger nota que há uma “cultura política muito dividida que abre espaço para os extremos” e diz não ter dúvidas de que a eleição de Donald Trump, em dezembro de 2016, deu carta branca àqueles que, de algum modo, já revelavam comportamentos antissemitas. De facto, a atual administração tem sido acusada de nada fazer para travar a intolerância religiosa e Trump foi criticado por não ter feito uma única referências aos judeus ou ao antissemitismo em declarações que fez no ano passado sobre o Holocausto e por ter não ter condenado de forma explícita a marcha da extrema-direita que terminou com a morte de três pessoas em Charlottesville, na Virgínia, em agosto de 2017. “Há erros dos dois lados”, limitou-se a dizer.

“Criticar Israel permite a alguns países da Europa ocidental aliviar a culpa que sentem pelo Holocausto”

“Antes não era popular ser contra os judeus mas começa a haver cada mais vontade de assumir claramente essa posição”, diz Adam Ferziger, para quem o antissemitismo está “hoje disfarçado de antissionismo”. Questionado sobre o que torna, afinal, os judeus alvos, aponta “o papel determinante que desempenham na economia global e na política americana”. “Enquanto os países do leste da Europa que tiveram regimes comunistas nunca fizeram nada para combater de facto o antissemitismo, alguns países da Europa ocidental aliviaram a culpa que sentiam pelo Holocausto criticando a atitude de Israel em relação aos palestinianos”, afirma ainda Adam Ferziger. “Poder culpar o Estado de Israel pelas suas políticas de agressão permite-lhes achar que afinal os judeus não são melhores do que eles foram há 70 anos e isso dá-lhes algum alívio.”

Também para Moshe Kantor, “o ódio contra os judeus metamorfoseou-se em ódio a Israel enquanto Estado judaico” e “embora as críticas legítimas ao Governo israelita não possam ser consideradas antissemitismo, frequentemente o nível de ódio contra Israel é reminiscente de todas as manifestações bem conhecidas do antissemitismo clássico”. “Há quem culpe Israel pelo aumento do antissemitismo mas a história mostra que isso é mentira. O antissemitismo não começou com Israel, apenas deu àqueles que odeiam judeus uma espécie de escudo para se esconderem atrás.”

Foto Getty

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Sobre a responsabilidade pelos ataques, Moshe Kantor diz que se tornou “demasiado fácil” culpar a extrema-direita quando hoje em dia os dois extremos, à direita e à esquerda, se tocam em vários pontos, sendo o antissemitismo um deles ou até mesmo o principal. “Extremistas de direita e de esquerda participam nas mesmas manifestações e conferências e partilham tweets e publicações uns dos outros nas redes sociais. É por isso que o antissemitismo é irracional. Não tem uma origem ideológica ou política e os judeus acabam por ser culpados de tudo e do seu contrário.”

“Durante as grandes vagas de ataques antissemitas, o número de judeus que se mudam para Israel aumenta”

Hutz la’aretz. “Fora da terra”, traduzido do hebreu. Da população total de judeus no mundo, constituída por 14,5 milhões, é longe da terra, de casa, que vivem mais de oito milhões. Estão sobretudo espalhados por EUA, França, Canadá e Reino Unido (segundo números divulgados recentemente pelo Gabinete Central de Estatísticas de Israel) mas o aumento do antissemitismo nos EUA e na Europa torna incerto o futuro da comunidade judaica nesses países. Adam Ferziger explica que “alguns [judeus] podem ir para Israel mas a maioria manter-se-á nos EUA ou irá para o Canadá ou Austrália, onde até à data, e apesar de tudo, parece haver garantias de segurança e possibilidade de viver com estabilidade religiosa, económica e jurídica”. Se há algo que nos aproxima uns dos outros é a necessidade de nos sentirmos seguros e ligados ao sítio que chamamos casa, especialmente quando estamos longe dela. O medo torna-nos mais pequenos. “Quando as pessoas têm medo da maioria, e nisso os judeus não são diferentes de ninguém, têm tendência a ocultar a sua identidade para se protegerem. Ao mesmo tempo, em muitas situações, os judeus são ostracizados e tratados como ‘outros’, não tendo outra escolha além de tentar reconetar-se com as suas raízes judaicas”, justifica Ferziger.

Moshe Kantor dá conta de outra tendência. “Vemos que durante as grandes vagas de ataques antissemitas o número de judeus que se mudam para Israel aumenta. Também sabemos que muitos judeus na Europa mudam de localização dentro do próprio país, como no caso de França, onde 70 mil judeus se mudaram para uma cidade diferente no último ano” para escapar à violência contra a sua comunidade.

“Voltou a acontecer em Paris”

Mireille Knoll, judia ortodoxa de 85 anos, sobreviveu ao Holocausto mas foi esfaqueada até à morte no seu apartamento em Paris FOTO GETTY

Mireille Knoll, judia ortodoxa de 85 anos, sobreviveu ao Holocausto mas foi esfaqueada até à morte no seu apartamento em Paris FOTO GETTY

“Olá, vês… Voltou a acontecer em Paris: um monstro atacou várias pessoas perto da Ópera. Um homem morreu. Eu disse-te: a Europa está em perigo.” Quando Daniel Knoll soube que um jovem checheno de 20 anos atacou à faca um grupo de pessoas no centro de Paris, este sábado, tirando a vida a uma pessoa e ferindo outras quatro, enviou-nos uma mensagem. Dias antes, Daniel já nos tinha falado sobre outro “monstro”, aquele que matou a sua mãe em março deste ano. O polémico caso de Mireille Knoll, uma judia ortodoxa de 85 anos que sobreviveu ao Holocausto e foi esfaqueada até à morte no seu apartamento em Paris, gerou controvérsia e fez a opinião pública voltar a questionar-se se França é, afinal, um país seguro para a comunidade judaica. Um dos suspeitos, identificado pelas autoridades francesas como árabe, era amigo da vítima.

É em França que vive a maior comunidade judaica da Europa - cerca de meio milhão. Embora o número de ataques no país tenha diminuído de 2015 para 2016 (de 808 para 335), continua a registar uma das maiores percentagens de ataques a judeus, segundo a Agência Europeia para os Direitos Fundamentais. “Atualmente, França não é um sítio seguro para os judeus”, disse-nos ainda Daniel no sábado, acrescentando depois: “Já não há lugar para os judeus aqui”.