COOPERAÇÃO
A nova lógica
do investimento angolano
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António Mota aceitou títulos do Estado angolano como pagamento FOTO RUI DUARTE SILVA
Cadeia Kinda Home, construtora Omotapalo ou grupo Cosal são novos atores no mercado português
Abílio Ferreira
A rede angolana de mobiliário e decoração Kinda Home, com quatro lojas em Angola, escolheu o Porto para se estrear no mercado português. A primeira megastore inclui uma zona de restauração da Kinda Food e é inaugurada para a semana. Um investimento de €20 milhões numa construção de raiz, gerando 150 novos empregos. A empreitada coube à Mota-Engil, mas bem poderia ter sido executado pela construtora Omotapalo. Os grupos da cadeia Kinda e Omotapalo são exemplos de empresas angolanas de capital português que ganharam músculo financeiro e inscreveram Portugal no seu mapa de expansão. São exemplos da nova lógica do investimento angolano em Portugal.
A cadeia de mobiliário é do universo do empresário Luís Vicente que fez fortuna na distribuição da fruta e diversificou em Angola para produção de refrigerantes e sumos, fundando a Refriango. A Omotapalo resultou, em 2003, de uma parceria luso-angolana em Huíla envolvendo o industrial de Viana do Castelo, Carlos Fernandes. Em 2016 espetou lanças em sete novos mercados. Em Portugal, a marca surge em obras residenciais de vulto no Porto e Lisboa, operando ainda na promoção imobiliária, com financiamento do EuroBic, o banco angolano de Isabel dos Santos e Fernando Teles.
De carácter estratégico, foi também o investimento, há dois anos, do grupo Cosal, fundado pelo empresário angolano Jaime Freitas, no retalhista automóvel MCoutinho que comercializa 16 marcas em 46 pontos de venda. A Cosal é um dos principais grupos privados angolanos e tem no sector automóvel um dos seus negócios.
As duas economias “estão mais interligadas do que às vezes parece” e “condenadas a aprofundar a reciprocidade”, diz João Luís Traça, o advogado que preside à Câmara de Comércio e Indústria Portugal-Angola. O advogado adverte que as “empresas portuguesas devem antecipar desde já as oportunidades que se abrirão no futuro em Angola”, apesar do país viver dias difíceis.
O perfil das economias leva a que o investimento angolano em Portugal tenha adotado uma lógica mais financeira, centrada no imobiliário. O modelo está em mudança. As operações deixaram de ser protagonizadas pela Sonangol e figuras do regime, como Isabel dos Santos (Efacec e Galp), ou de terem contornos obscuros como a passagem de António Mosquito pela Soares da Costa e Global Media.
Do lado português, os investimentos focam-se em operações de raiz e na transferência de tecnologia. O ambiente desfavorável, com o consumo em queda (30%) e a desvalorização cambial (80% em 2018), travou investimentos. Luanda aposta agora na diversificação da economia e na produção local.
O fluxo de investimento definha, como provam as estatísticas. O investimento português acumulado reduziu-se de €4,6 mil milhões (2014) para €2,8 mil milhões (junho de 2018). E as empresas portuguesas estão a retirar dinheiro de Angola: €131 milhões (2017) e €165 milhões este ano (até junho). No mesmo período, o stock de investimento angolano reduziu-se de €1,7 mil milhões para €984 milhões.
O sentimento dominante da comunidade empresarial é de gerir as operações, sem reforçar a exposição. Mas há exceções. O grupo Monte, da Póvoa, centrou em Angola o seu renascimento e opera nos negócios do ambiente, imobiliário e automóvel. Está em expansão. Por isso, os lucros gerados “são reinvestidos e não precisávamos de repatriar dividendos”, diz o administrador Tiago Patrício. As operações “sobre salários de expatriados e importação de materiais estão em normalização”.
Dívidas certificadas
Angola prometeu e cumpriu. As autoridades de Luanda já certificaram €200 milhões de dívidas às construtoras e pagaram metade do valor reconhecido. Mas o cálculo final é incerto e há casos em que divergências de valores atrasam o apuramento final. A diversidade de contratos “é enorme, é preciso considerar a revisão de preços e qual a moeda que vigora dos contratos”, diz ao Expresso Ricardo Gomes, presidente da Associação de Empresas de Construção e Obras Públicas (AECOPS). A dívida está concentrado num número reduzido de construtoras — 20 empresas representam 80% da dívida.
A atualização cambial depende dos organismos envolvidos. Após o ciclo depressivo 2012/2015, o número redondo que circulava no sector apontava para uma dívida acumulada de 1000 milhões de dólares (€875 milhões). Mas houve construtoras, como a Mota-Engil, que aceitaram obrigações do Estado. António Mota nota que o atraso nos pagamentos “é um caso recorrente”. O fundamental é o “processo de reconhecimento”, cabendo a cada empresa acertar o modo de pagamento. A desvalorização cambial “não é exclusiva de Angola e faz parte da vida das empresas”.
Cadeia Kinda Home, construtora Omotapalo ou grupo Cosal são novos atores no mercado português