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Torre De Marfim

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Paul De Grauwe

Os negócios da mentira

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As emoções tornaram-se agora um solo fértil para uma nova atividade nas redes sociais. O modelo de negócio das redes torna possível fazer negócio com as mentiras

O sucesso do negócio da mentira é que o custo de produção de mentiras é zero. Isto difere em muito com o que custa produzir a verdade <span class="creditofoto">FOTO Jaap Arriens/NurPhoto via Getty Images</span>

O sucesso do negócio da mentira é que o custo de produção de mentiras é zero. Isto difere em muito com o que custa produzir a verdade FOTO Jaap Arriens/NurPhoto via Getty Images

Há pouco tempo, as novas redes sociais eram aclamadas como magníficos instrumentos de novas formas de democracia. Todos teriam acesso a uma imensidão de fontes de informação que os permitiria tomar decisões informadas. Mais ainda, poderiam falar para todo o mundo e fazer com que a sua voz fosse ouvida. Uma nova era democrática iria florir como milhares de rosas vermelhas.

Hoje estamos a quilómetros-luz desta imagem idealizada das novas redes. Em vez de informação objetiva, temos uma polarização da informação e uma sistemática disseminação da mentira. “Fake news”, como são agora chamadas. O que correu mal? Esta é a minha resposta. O modelo de negócio utilizado pelas redes sociais para espalhar a informação é errado.

Este é o modelo: o indivíduo X distribui uma notícia via Facebook ou outra rede social. Se a notícia for marcada com um gosto por, digamos, um milhão de pessoas, a página que divulga a notícia atrai a atenção dos publicitários. O acesso a essa página permite-lhes distribuir a sua mensagem comercial de modo direto a um milhão de pessoas. O Sr. ou Sra. X que distribuiu primeiro a notícia vai ganhar: a sua página torna-se comercialmente valiosa, o que lhe permite ganhar muito dinheiro.

Este modelo não é necessariamente mau. Num mundo em que todos procuram a informação melhor e mais objetiva, este modelo não tem nada de mal. As páginas que distribuem a melhor informação são recompensadas. O modelo contribui para o surgimento de um novo mundo com pessoas mais bem informadas. Era assim que se pensava que as redes sociais iam funcionar.

O problema é que as pessoas também agem por outros impulsos que não só a busca pela verdade. As pessoas têm sentimentos como o amor, mas também o ódio; a empatia e a inveja. Estão muitas vezes irritadas por causa das coisas que (aos seus olhos) estão mal no mundo. Ficam escandalizadas com a corrupção e a injustiça. A inveja, o ódio e a raiva são sentimentos muito fortes.

Em vez de informação objetiva, temos a sistemática disseminação da mentira. O modelo de negócio das redes sociais é errado

Estas emoções tornaram-se agora um solo fértil para uma nova atividade nas redes sociais. O modelo de negócio das redes torna possível fazer negócio com as mentiras. O Sr. ou Sra. X constrói assim uma página que sistematicamente produz e distribui mentiras.

Essas mentiras devem ser de uma natureza tal que apelem às emoções de raiva, ódio e inveja. Aparentemente, as pessoas fazem gosto mais depressa, e mais espontaneamente, em notícias que ampliam a sua raiva, ódio ou inveja. As páginas que disseminam mentiras tornam-se muito lucrativas. Muitos criam estas páginas na esperança de enriquecer rapidamente, graças à disseminação de mentiras. E isto cria uma nova indústria de negociadores de mentiras.

Na origem deste triste estado das coisas está o modelo de negócio das redes sociais. Estas têm como fonte de rendimento a venda de informações valiosas de milhões de pessoas a alguns publicitários.

O segundo fator em que assenta o sucesso do negócio da mentira é que o custo de produção de mentiras é zero. Isto difere em muito com o que custa produzir a verdade. Para recolher informação objetiva é preciso fazer pesquisas dispendiosas. A produção da mentira é gratuita e tem, por isso, uma “vantagem competitiva” sobre a produção da verdade.

O que podemos fazer acerca disto? Será o regresso ao antigo modelo, como o do jornal tradicional em que as pessoas pagavam pela informação que recebiam, a solução? Esse modelo poderia ter aparecido quando a internet e as redes sociais começaram. Mas agora é, provavelmente, tarde de mais para mudar para um modelo em que os utilizadores pagam pela informação que recebem. O modelo assente na publicidade existe e não vai mudar na sua essência.

A única saída é investir mais na educação, especialmente na educação com um espectro mais abrangente: educação que permita aos jovens ter contacto com ciências, história, direito, ciências sociais, literatura, etc. Uma educação assim torna-os mais despertos para detetar a mentira e ver a diferença entre a mentira e a verdade. Isso também tornará o negócio das mentiras menos lucrativo.

Professor da Universidade Católica de Lovaina, Bélgica