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Andamos nisto

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Bernardo Ferrão

Não há vacina para a irresponsabilidade dos deputados?

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No ano passado, uma jovem de 17 anos morreu com sarampo em Lisboa. A história deu brado porque se descobriu que não estava vacinada por opção da família. Na altura chegou a dizer-se que a mãe da rapariga era “antivacinas” e adepta da homeopatia. Aliás, a rapariga não só não tinha proteção contra o sarampo, como também não tinha outras vacinas do Programa Nacional de Vacinação. Ao aprovar esta semana três novas vacinas sem a luz verde da Direção Geral da Saúde, o Parlamento agiu mal e está a criar um precedente perigoso. Os “antivacinas” não terão ganho novos argumentos?

É uma questão de saúde pública, mas acima de tudo de desrespeito pelas entidades científicas e independentes responsáveis pelo plano nacional de vacinação (PNV). Pela primeira vez, o poder político decidiu sem dar cavaco à Direção Geral de Saúde e à Comissão Técnica Independente. Ou seja, não cumpriu a lei que deixa claro que a alteração do PNV só deve ser feita depois de consultada a comissão científica e com o aval da DGS. Como referiu e bem Graça Freitas, teria sido bom que os deputados“tivessem tido em conta os vários pareceres que mandou ao longo dos anos para o Parlamento”

Os deputados terão agora todas as justificações e podem garantir mil vezes que não foram pressionados por ninguém, mas a decisão que tomaram foi irresponsável. Ao atuarem desta forma reforçaram a posição de todos aqueles que acham que as vacinas e a sua inclusão no plano nacional servem apenas para enriquecer as farmacêuticas e os que fazem negócio na órbita dos medicamentos. Mas o mais grave é que com estas votações deram fôlego aos que desconsideram as vacinas, alegando que a Saúde Pública é uma questão de ideologia e de opinião.

Os deputados não foram eleitos para se oporem à ciência. Nem tão pouco para fazerem medicina.

O pior é que ainda não há vacina que nos proteja destes perigos parlamentares. Chegados aqui, e como dizia com piada o meu colega André Antunes, “em caso de dúvidas ou persistência dos sintomas consulte o seu médico…ou deputado!”

Os que contrariam estes argumentos, lembram que estas três vacinas já fazem parte de alguns programas de vacinação europeus. Mas na minha opinião não é isso que aqui interessa, até porque nesses casos as características são muito próprias e diferem de Estado para Estado. Além de elogiadas internacionalmente, as nossas autoridades da saúde têm provas dadas e por isso devem ser assumidas como fundamentais. O que aqui ponho em causa não são as vacinas propriamente ditas – que mais tarde ou mais cedo vão entrar no PNV, deitando por terra o argumento de que a DGS e o Governo só estão apostados na poupança – nem a sua importância para a população, sobretudo a mais carenciada. O meu ponto prende-se sobretudo com o processo decisório. Os partidos que propuseram e aprovaram esta medida meteram-se, por mero jogo político, onde não são chamados.

Os últimos dias foram de vergonha no Parlamento, com os deputados a aprovarem tudo e o seu contrário numa verdadeira coligação negativa contra si próprios. Dizem-me que é a política! Triste política, digo eu. E o pior é que ainda não há vacina que nos proteja destes perigos parlamentares. Chegados aqui, e como dizia com piada o meu colega André Antunes, “em caso de dúvidas ou persistência dos sintomas consulte o seu médico…ou deputado!”