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A primeira exportação de Draghi para a Reserva Federal em Washington – a paciência

Jerome Powell roubou a Mario Draghi a palavra chave “prudência” na gestão da política monetária. O guru italiano é o pai da famosa regra dos 3 Ps <span class="creditofoto">Foto Credito Foto</span>

Jerome Powell roubou a Mario Draghi a palavra chave “prudência” na gestão da política monetária. O guru italiano é o pai da famosa regra dos 3 Ps Foto Credito Foto

O italiano inventou a gestão da política monetária pela regra dos 3Ps – paciência, persistência e prudência. Um dos ‘pês’, o da paciência, apareceu agora nas atas da reunião da Reserva Federal norte-americana (Fed) e nas palavras do seu presidente, o norte-americano Jerome Powell

Texto Jorge Nascimento Rodrigues

Fixe esta palavra – paciência. Ela passou a ser a nova palavra chave da comunicação para os mercados da Reserva Federal (Fed), o banco norte-americano. Ela aparece nas atas da reunião de dezembro, publicadas esta semana, e foi retomada por Jerome Powell, o seu presidente, no debate em que ontem participou no seleto Clube Económico de Washington.

Mas a patente não lhes pertence. Importaram a buzzword. Foi Mario Draghi, o italiano que está à frente do Banco Central Europeu (BCE), que inventou a regra dos 3 Ps – paciência, persistência e prudência – que lhe tem servido para convencer os demais, até os mais renitentes, os falcões, de que não quer aventureirismos na política do euro.

Por enquanto, a Fed importou a paciência, mas não tarda que o resto dos 3Ps venha por acréscimo. Aliás, as atas da reunião revelam que a equipa de Powell está inclinada para “esperar para ver”, uma regra de prudência que Draghi defendeu nos últimos anos antes de acabar com o programa de compra de ativos no final do ano passado.

Um dia destes, Trump, ele próprio, publica um tweet a tornar a regra de Mario Draghi em doutrina de gestão monetária. Quem sabe se o italiano, depois de sair em final de outubro da chefia do BCE, não encontra um filão de guru na América.

O que é certo é que os mercados financeiros de Nova Iorque adoraram a importação. Juntamente com o otimismo sobre o andamento das negociações entre Washington e Pequim, no âmbito da trégua na guerra comercial, a prudência de Powell foi como a cereja em cima do bolo. Powell ficou mais flexível e as negociações entre a Casa Branca e Pequim vão continuar, o que é o melhor que se poderia esperar deste começo do ano, depois de um ano negro nos mercados em 2018. Os índices de Wall Street e do Nasdaq prosseguem num movimento altista desde há uma semana e registam ganhos acumulados de 6%.

Com a nova palavra chave prudência, o que os investidores em Wall Street esperam é que a Fed faça, de facto, uma pausa (o que já foi defendido por alguns membros do banco central na reunião de dezembro, segundo revelam as atas) na escalada da taxa diretora em 2019. O que, também, agradará a Trump que zurziu nos últimos meses de 2018 sobre o banco central e o seu presidente (por ele escolhido), acusando-os de loucura por andarem a subir os juros e de não ouvirem os mercados.

Mas não só em Nova Iorque se batem palmas. Os mercados de ações pelo mundo levam um ganho de 6% e uma das divisas que se fortaleceu foi precisamente o renminbi chinês (ver Tome Nota).

A paciência que a Fed quer mostrar aos mercados vem na altura certa. O Banco Mundial publicou esta semana o seu relatório anual de previsões económicas e trouxe más notícias para 2019 e 2020: reviu em baixa o crescimento mundial nos dois anos, cortou no dos EUA em 2020, no da zona euro em 2019 e no das economias emergentes nos dois anos.

O corte no crescimento norte-americano em 2020 é um balde de água fria para Trump em ano eleitoral – em vez de perto de 2%, a taxa deverá ficar-se por 1,6%, o que compara pessimamente com 2,9% em 2018 e 2,5% no ano seguinte.

A economia mundial afasta-se de um crescimento anual de 3% e cai para 2,8% em 2020 e 2021. O crescimento anual dos emergentes sofreu um abrandamento – esperava-se que subisse para 4,7% em 2019 e 2020, mas vai ficar em 4,2% e 4,5% respetivamente.