JUSTIÇA
Novos detidos de Tancos têm ligações ao tráfico de droga
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Barracão perto de Tomar onde as armas de Tancos poderão ter estado guardadas pelos assaltantes, segundo as suspeitas da Polícia Judiciária Foto Tiago Miranda
Caso do assalto aos paióis de Tancos viu reforçada a sua relação com o submundo do tráfico de droga com as detenções feitas esta segunda-feira. Alguns dos suspeitos estavam a ser investigados há um ano e meio
Texto Hugo Franco, Micael Pereira e Rui Gustavo
Parece cada vez mais evidente que o tráfico de armas não era a única atividade criminosa a que se dedicava o grupo de assaltantes dos paióis do Exército em Tancos. Em paralelo com isso, a Polícia Judiciária e os dois procuradores do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), Vítor Magalhães e João Melo, que estão a investigar o caso assumiram que este também é um enredo que envolve um esquema alargado de tráfico de droga.
De acordo com uma fonte próxima do processo, alguns dos oito detidos desta segunda-feira por suspeita de terem participado materialmente no assalto a Tancos estão indiciados por serem traficantes de estupefacientes. “Este é um meio em que se aparecer uma oportunidade de se ganhar algum dinheiro extra, mesmo fora do tráfico, ninguém hesita em aceitar o trabalho”, revela ao Expresso um responsável.
A investigação aos vários tipos de crime descobertos na sequência do assalto ao armamento em Tancos, ocorrido entre a noite de 27 de junho e a madrugada de 28 de junho de 2017, tem sido feita em simultâneo. Além do tráfico de droga e do tráfico de armas, continuam também a ser seguidas pistas sobre indícios de que por trás do assalto esteja a eventual venda do material de guerra a redes terroristas.
As detenções desta segunda-feira acontecem quase três meses depois de a Polícia Judiciária ter detido, a 25 de setembro, o diretor da Polícia Judiciária Militar (PJM), coronel Luís Vieira, além de outros elementos desta corporação e três militares do Núcleo de Investigação Criminal da GNR de Loulé, no Algarve, por terem montado uma operação de encobrimento para alegadamente ficarem com os louros da recuperação das armas desaparecidas em Tancos. Nessa altura foi detido um único civil, João Paulino, um ex-fuzileiro que cresceu em Albufeira e trabalhava ultimamente como gerente de um bar em Ansião, no distrito de Leiria.
Parte do armamento tinha sido devolvido a 18 de outubro de 2017 num local ermo perto da vila da Chamusca, no Ribatejo, na sequência de uma chamada anónima feita para o número de piquete da PJM, mas uma análise cuidada aos dados das antenas de telemóvel da zona permitiu ao MP e à Judiciária descobrir que essa devolução tinha sido combinada entre a PJM, a GNR de Loulé e João Paulino.
Moradia propriedade da avó de João Paulino e que foi um dos alvos das operações de buscas no final de setembro, durante a primeira vaga de detenções Foto Tiago Miranda
Duas fases distintas do caso
Um total de 85 inspetores da Polícia Judiciária, acompanhados por três procuradores do DCIAP, estiveram envolvidos na operação Húbris II, como foi batizada a segunda fase de Tancos lançada agora. Além dos oito suspeitos detidos, foram feitas dezenas de buscas no centro e no sul do país, segundo um comunicado conjunto divulgado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) e pela PJ.
Um dos objetivos das operações de buscas era recuperar 1450 balas de 9mm furtadas em Tancos e que não tinham sido entregues a 18 de outubro de 2017 na Chamusca. Até ao momento o Expresso não conseguiu apurar se as munições foram recuperadas.
O facto de a PJ ter detido primeiro os suspeitos da operação de encobrimento para a recuperação das armas e só agora ter procedido à detenção dos suspeitos do roubo foi uma opção “estratégica”, explicou uma fonte ligada ao processo. O Ministério Público e a equipa da Judiciária responsável por deslindar o caso consideraram que a investigação “foi destruída” pelas revelações vindas a público na comunicação social nas semanas seguintes ao furto do arsenal de guerra e foi preciso ter paciência e esperar. “A questão da farsa foi importante para perceber todas as ligações ao caso.”
Em setembro, nas buscas a uma propriedade da avó de João Paulino e a outras casas relacionadas com este suspeito na zona de Ansião foram encontradas 66 gramas de cocaína e quase 15 quilos de haxixe, além de uma balança digital e milhares de euros em dinheiro vivo, que os investigadores concluíram servir para vender e comprar estupefacientes.
Já antes, durante as escutas a que os suspeitos estiveram sujeitos, tinham sido detetadas conversas relacionadas com drogas. Num dos acórdãos do Tribunal da Relação de Lisboa proferidos sobre o caso e sobre os quais o Expresso escreveu em julho deste ano, havia referências que levantavam a hipótese de alguns dos implicados na investigação se dedicarem ao tráfico de substâncias ilícitas. Numa das conversas, por exemplo, um dos suspeitos falava de uma plantação de marijuana num sótão. O Expresso confirmou que todos os suspeitos identificados nesses acórdãos — cinco, além dos que já tinham sido constituídos arguidos — fazem parte dos detidos desta segunda-feira.
Além disso, a nota divulgada pela PGR também confirmou que o tráfico de estupefacientes está entre o rol de crimes pelos quais os novos detidos foram constituídos arguidos. Os outros são aquilo que já se esperava: associação criminosa, furto, tráfico de armas e terrorismo internacional.
Caso do assalto aos paióis de Tancos viu reforçada a sua relação com o submundo do tráfico de droga com as detenções feitas esta segunda-feira. Alguns dos suspeitos estavam a ser investigados há um ano e meio