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Demissão de Nielsen “já estava há muito no forno”. Trump quer “gente mais durona” na fronteira

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Foto Reuters

A saída de Kirstjen Nielsen da liderança do Departamento de Segurança Interna é um novo passo em direção a uma política de imigração mais restritiva. Trump justifica-se: “o nosso país está CHEIO!”

Texto Ricardo Lourenço, correspondente nos EUA

Após um périplo europeu, Kirstjen Nielsen chegou este domingo à Casa Branca para um encontro com o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Objetivo? Afinar a estratégia para a fronteira sul e melhorar as relações pessoais com o próprio chefe de Estado, que, via Twitter, já a tinha criticado várias vezes.

Gorada a tentativa, Nielsen apresentou a demissão de secretária de Segurança Interna menos de uma hora depois. “Já estava há muito no forno. A secretária Nielsen não se enquadrava no modelo agressivo de combate à imigração ilegal defendida por Trump”, diz ao Expresso Juan Zarate, ex-secretário de Segurança Interna de George W. Bush.

Esta nova baixa na Administração surge após uma sucessão de desabafos públicos do líder americano sobre a contínua chegada de milhares de migrantes oriundos da América Central.

Na semana passada, ele acenou, inclusivamente, com o encerramento total da dita fronteira, caso as autoridades mexicanas não estancassem a hemorragia a montante. A proposta levou vários conselheiros económicos do Presidente a insistir com o facto de que tal teria um impacto negativo na economia americana, extremamente dependente das importações. O sector automóvel seria o principal afetado.

Outro dado que prova a insatisfação do magnata nova-iorquino ocorreu na passada quarta-feira, quando ele retirou o apoio à nomeação de Ron Vitiello para liderar a US Immigration and Customs Enforcement (ICE), Agência federal que investiga a presença de ilegais e procede à sua deportação. Mais uma vez, Trump justificou a decisão com o facto de precisar de “gente mais durona” no combate à imigração clandestina.

Trump já está em campanha

Nas últimas semanas, o Presidente norte-americano tinha pedido a Nielsen que fechasse vários sectores da fronteira e que parasse de aceitar pedidos de asilo. Tal não aconteceu, visto que o Departamento de Segurança Interna considerou as propostas “ineficazes” e “inapropriadas”, conta-nos um responsável daquele Ministério.

<span class="creditofoto">Foto Reuters</span>

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O aumento da retórica anti-imigrante coincide com o bombardeamento noticioso sobre as presidenciais de Novembro de 2020, motivado pela multiplicação de candidaturas democratas que colocaram as televisões num frenesim, com entrevistas diárias.

“Ele sabe que tem de animar a base. E se há tema que anima, e de que maneira, é este!”, lamenta Kyle Kondik, professor de Ciência Política na Universidade da Virgínia. “O encerramento parcial do Estado durante 35 dias, o mais longo da história norte-americana, só porque Trump queria um muro na fronteira com o México, prova que ele está disposto a fazer o que for necessário, mesmo que isso provoque instabilidade política e crise económica”.

Este domingo, após a saída de Nielsen, Trump relembrou no Twitter que o “país está CHEIO!”, uma mensagem que deixa Kondik “desesperado” e “indignado”.

O Departamento de Segurança Interna emprega mais de 240 mil pessoas e possui um orçamento de 40 mil milhões de dólares (35,5 mil milhões de euros). Criado após o atentado terrorista de 11 de Setembro de 2001, tem a responsabilidade de proteger o território americano de qualquer tipo de ataque, seja ele convencional ou cibernético, assim como o de planear e coordenar a resposta aos desastres naturais.

Ken Cuccinelli, antigo-procurador geral da Virgínia e um ultraconservador com vasto apoio junto da base do Partido Republicano, a tal que será decisiva para reeleição de Trump no próximo ano, é o favorito para ocupar o cargo deixado vago por Nielsen.