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SAÚDE

A surpresa Narod. Não diz a idade, coleciona arte, acredita numa inteligência superior e previne o cancro

De temperamento imprevisível, Steven Narod conquistou respeito como um dos maiores especialistas mundiais em cancro hereditário <span class="creditofoto">Foto Ana Baião</span>

De temperamento imprevisível, Steven Narod conquistou respeito como um dos maiores especialistas mundiais em cancro hereditário Foto Ana Baião

É um dos maiores especialistas mundiais na investigação do cancro hereditário. Steven Narod tem pressa em combater as doenças oncológicas, sempre mais rápidas do que a Medicina. Está longe de casa mais de 20 vezes por ano para divulgar a mensagem da prevenção e construiu um núcleo duro de investigadores para lutar contra o que às vezes parece ser uma guerra perdida. Vive em Toronto e aprendeu a gostar de Portugal pela mão de uma alemã. Deixa-se conhecer, mas antes dá luta

Texto Christiana Martins Foto Ana Baião em Toronto

Tudo começou numa conferência sobre cancro hereditário em Lisboa, no início de setembro. Presente para falar da especialidade que o tornou reconhecido, Steven Narod aceitou receber o Expresso no seu gabinete em Toronto dois meses e cinco dias depois. Uma semana mais tarde e dois emails sem resposta antes, devolve finalmente uma mensagem, sem cumprimento prévio nem despedida, apenas com a informação: “Tenho quatro horas disponíveis no dia 8.” Bastou.

Para ir a Toronto e voltar foram necessárias 14 horas no total, só de tempo no avião. No dia e na hora marcados, o Expresso lá está. Na agenda, uma jornada preenchida para se conhecer o trabalho de um dos maiores especialistas mundiais em cancro hereditário, a sua equipa mais próxima, os seus braços armados junto dos doentes e a universidade onde leciona. Tudo parece bem encaminhado.

Mas quando a porta da pequena sala de reuniões se abre, Narod já vem agitado: “Não tenho tempo para fotografias!” Sobre a mesa, copos de café e bolos. Senta-se, agarra o pequeno almoço e faz a viagem valer a pena. Começa a falar de forma desassombrada sobre os cancros causados por mutações genéticas que podem passar de geração em geração e que, mais importante de tudo, podem ser evitados. Envolve os interlocutores, inflama-se perante discordâncias, avisa que Portugal tem de agir.

Há 24 anos, Steven Narod integrou a equipa de investigadores que descobriu o gene BRCA 1, capaz de potenciar o desenvolvimento de cancro na mama e nos ovários em mulheres portadoras da mutação genética. Um ano mais tarde, foi a vez de identificarem aquele que ficou conhecido como o gene BRCA 2. E ele voltou a participar da conquista científica. Nunca mais parou. Identificada a causa da origem do cancro, fixou como meta o rastreio do maior número de pessoas portadoras destes genes e as suas mutações, com a maior abrangência geográfica possível. Narod quer rastrear o mundo, à procura de portadores dos genes BRAC 1 e 2, para evitar que estas pessoas desenvolvam neoplasias. Para evitar que morram.

Gabinete de Steven Narod em Toronto

Gabinete de Steven Narod em Toronto

Quase a festejar bodas de prata da descoberta dos genes causadores de cancro na mama e nos ovários, o especialista mudou de foco: deixou de andar a farejar alterações do código genético para se antecipar à doença. Em março de 2017 lançou um projeto inovador de rastreio universal de todos os canadianos que se voluntariem a descobrir se são portadores da mutação.

Por menos de cem euros, basta encomendar pela Internet um teste, que é entregue numa semana numa embalagem com devolução pré paga pelo correio. Tudo pode ser feito de forma voluntária, sem prescrição médica. Se a pessoa testada não for portadora, recebe uma carta; se for, recebe um telefonema e é chamada ao Women's College Hospital, na zona central de Toronto, onde Seteven Narod trabalha e onde lhe serão dadas todas as explicações sobre o que se passa e, sobretudo, o que poderá passar-se.

O momento mais importante desta conversa com a doente será o anúncio de que a forma mais eficaz de evitar o desenvolvimento de um cancro hereditário será a retirada das mamas e dos ovários. Narod está presente em algumas destas conversas. Esta iniciativa, intitulada Screen Project, é a sua menina dos olhos atual e o principal motivo do encontro com o Expresso. Mas não ao ponto de lhe alterar a rotina.

Todos os dias, inclusive no dia em que recebeu a equipa de reportagem, Narod chega ao hospital por volta das 9h e despacha papelada. Monitoriza a entrada de novos dados relativos às doentes, que todos os dias chegam, e atualiza as informações sobre as parcerias internacionais.

Alguns serão dias de dar aulas na Universidade de Medicina de Toronto. Avança com a redação de estudos para publicação em revistas da especialidade. Encontra-se com doentes com alto risco de virem a desenvolver cancro hereditário.

Mas mais de vinte vezes no ano, Narod está fora do gabinete, da cidade e do país. Sai pelo mundo a divulgar as suas investigações e as recomendações para a abordagem preventiva do cancro hereditário. Ásia, América Latina e Europa são destinos recorrentes.

Começou a deslocar-se a Portugal há quatro anos, depois de ter conhecido a presidente da Evita, a associação portuguesa de apoio a portadores de alterações nos genes relacionados com cancro hereditário. Tamara Milagre, alemã de nascimento, estava numa conferência em Filadélfia quando o viu. Não perdeu tempo e lançou logo o convite para que Steven Narod visitasse Lisboa. Foi a primeira de muitas viagens à capital portuguesa.

Mohammad Akbari, Steven Narod, Joanne Kotsopoulos e Kelly Metcalfe

Mohammad Akbari, Steven Narod, Joanne Kotsopoulos e Kelly Metcalfe

Mas antes de aportar a Portugal, Narod teve de chegar ao Women's College Hospital, o que aconteceu em 1995, logo a seguir à identificação dos genes BRCA. Nestas mais de duas décadas, formou um grupo coeso de colaboradores: a grega Joanne Kotsopoulos, a canadiana Kelly Metcalfe e o iraniano Mohammad Akbari.

Joanne dedica-se a estudar os modos de vida que podem alterar a predisposição para desenvolver cancro num portador de mutação genética e a influência da contraceção. O seu mais recente estudo é sobre a utilização de medicação contra a osteoporose para prevenir o cancro nos ovários e o seu foco principal é tentar encontrar uma alternativa às cirurgias preventivas.

Kelly provou que, no caso das portadoras, não basta retirar o nódulo: a verdadeira prevenção só acontece com a mastectomia bilateral. E demonstrou que ter dois parentes próximos que tiveram cancro multiplica por quatro a possibilidade de uma pessoas desenvolver a doença. Mohammad Akbari, que dirige o laboratório do centro de investigação do WCH, já identificou um novo gene mutado e coordena um estudo internacional com dados biológicos das portadoras de alterações genéticas em mais de dez países.

Todos têm paciência com a personalidade irrequieta do líder e as diferenças de feitios são evidentes, mas o maior contraste é entre os dois homens. Enquanto Narod é alto e explosivo, Akbari é pequenino e delicado. O primeiro parece procurar a polémica, o segundo prefere contorná-la. Narod defende a generalização da abordagem médica, Akbari não esconde a crença na personalização. Mas, para lá das diferenças visíveis, está uma crença comum que os une e identifica: a opção por um rastreio universal, um mapeamento amplo dos portadores das mutações genéticas e a aposta na prevenção para evitar o surgimento de novos casos de cancro.

O outro Steven

Mas há um outro Steven, que não se dá a conhecer. Um Narod que coleciona arte, especialmente pintura, fotografia e ícones, que estuda História, principalmente bizantina e a Igreja cristã primitiva; que se interessa pela Física como ela era vista no início do século XX. Que está a ler sobre o grupo de intelectuais que a partir de Viena mudoum a forma do mundo pensar, e que divide as horas livres com a leitura da biografia de Paulo Dirac, físico britânico que previu a existência da antimatéria.

Steven narod à conversa com o Expresso em Toronto

Steven narod à conversa com o Expresso em Toronto

Um Steve que gosta de ver jogos de baseball e não tem paciência para o futebol porque num jogo consegue antecipar os resultados através da aplicação de modelos matemáticos e no outro tem de torcer por um golo nem que seja no último segundo.

Um professor que se diverte a debater com os alunos e um pai que se deleita a conviver com os três filhos e que recentemente voou em direção à Carolina do Sul para tirar uns dias de férias. Porque este Steven adora viajar e descobriu com prazer os interesses de Lisboa e do Porto. Um dos quais um garrafa de Grahams 2000 vintage Port. Mas, com prazeres sem fronteiras, não se importa que no cálice esteja um Pedro Ximenez 1946 sherry.

Um homem que não se deu a mostrar pessoalmente, que aguardou o envio de uma série de perguntas por email, já o Expresso regressara a Portugal, e cujas respostas chegaram já vencidos todos os prazos para as tornarem utilizáveis no artigo que neste sábado é publicado na edição da Revista.

Um cientista que usou as palavras e da distância para esclarecer as únicas perguntas a que nunca se esperou realmente que respondesse, mas às quais não se negou. Acredita em Deus?

“Acredito que a complexidade do organismo humano como um todo impede a possibilidade de evolução e requer uma inteligência superior. A evolução pode ajudar a descrever e explicar a criação das espécies, mas não as origens da vida. É impossível chegar ao nível de complexidade através de uma maneira gradual, deve ser inerente ao design.”

Com a resposta tardia, Steven prejudicou um artigo na Revista. Mas há alturas em que vale a pena esperar. E só não respondeu a uma pergunta: a idade.

Nota: este trabalho foi concretizado com o apoio de uma das cinco bolsas criadas pelo Sindicato de Jornalistas e pela farmacêutica Roche para incentivar a elaboração de trabalhos jornalísticos na área da Saúde, atribuída em 2018 a Christiana Martins