O POEMA ENSINA A CAIR

"NÃO COINCIDE O TEMPO COM A VIDA"

Gastão Cruz, poeta, crítico literário e encenador, defende que a poesia não tem de facilitar a vida dos leitores, mas sim "criar mundos novos"

TEXTO RAQUEL MARINHO VÍDEO JOANA BELEZA GRAFISMO VÍDEO JOÃO ROBERTO

"Não coincide o tempo com a vida
tão tarde o aprendemos"

Recebeu-me num escritório de pouca luz, uma mesa redonda com alguns livros e anotações, um sofá com uma pilha de jornais, estantes que além de livros guardam fotografias de poetas como Ruy Belo, e paredes onde estão emoldurados poemas manuscritos oferecidos, por exemplo, por Carlos de Oliveira.

Gastão Cruz, 73 anos, poeta, crítico literário e encenador, um dos nomes ligados à publicação coletiva Poesia 61, um marco na mudança de linguagem da poesia portuguesa da década de sessenta, na qual também participaram Casimiro de Brito, Fiama Hasse Pais Brandão, Luiza Neto Jorge e Maria Teresa Horta.

Nasceu em Faro, em 1941. Foi lá que cresceu e estudou até se mudar para Lisboa para estudar Filologia Germânica na Faculdade de Letras. Entrou no ano lectivo de 1958, para inaugurar aquele edifício:"a faculdade de letras era no edifício Academia das Ciências e mudou-se para lá nesse ano."

Estudou ao lado de Fiama Hasse Pais Brandão e Luiza Neto Jorge entre outros que, como ele, viriam a marcar a poesia portuguesa da segunda metade do século XX. Estavam a começar a escrever e a criar e partilhavam essa descoberta uns com os outros: "a Luiza Neto Jorge escrevia contos, a Fiama escrevia teatro. São essas fases em que se está a tentar descobrir tudo, saber o que se passa e toda a gente está a tentar fazer qualquer coisa nova, há essa motivação para tentar criar alguma coisa diferente."

Dos tempos da faculdade recorda, por exemplo, as aulas de Teoria da Literatura com David Mourão-Ferreira. Um "excelente professor" que tinha "uma cultura poética muito vasta, e dizia muito bem poesia de cor." Teve 16 ou 17 valores nessa cadeira, "o que na altura era muito bom."

Na mesma faculdade de Letras, Gastão Cruz dirigiu um grupo de declamação de poesia onde se estrearam Luís Miguel Cintra e Jorge Silva Melo, "aliás, da faculdade de letras é que sai aquele grupo do Luís Miguel Cintra" que acabou por dar origem ao Teatro da Cornucópia: "organizávamos recitais de poesia na faculdade e apresentávamos também noutros locais, faculdades, algumas associações da margem sul, por exemplo. "

Esse grupo de declamação de poesia nasceu no âmbito do grupo de teatro da faculdade, onde Gastão Cruz chegou a experimentar "pontualmente e num pequeno papel" a interpretação. Não foi esse o caminho que o ligou ao teatro, mas acabou por encenar mais tarde autores como Strindberg e Tchekov no Teatro da Graça, de que foi um dos diretores e um dos fundadores.

Desses tempos recorda, por exemplo, a estreia da peça À Espera de Godot em Lisboa: "foi para aí em 58 ou 59 e foi um acontecimento. Era uma linguagem teatral completamente nova, uma coisa surpreendente." Foi um "escândalo" para o "público conservador da altura", mas foi também um sucesso de bilheteira: "lembro-me que aos sábados à tarde as pessoas faziam fila naquela Rua Nova da Trindade, a rua da cervejaria."

Embora tenha sido na faculdade que se ligou a vários poetas da sua geração, o contacto de Gastão Cruz com a poesia vem de trás. Em casa, leu "poetas como Camões ou Guerra Junqueiro" porque o pai gostava de poesia e chegava até a declamar: "lia tudo o que me vinha à mão e o meu pai teve alguma influência porque se interessava por poesia. Era poesia convencional mas isso não importa, o que importa é começar, seja por onde for." Na escola, conheceu outras vozes pela mão de alguns professores: "como era de germânicas, tive alemão. E houve um um professor que também era poeta e que até de uma forma talvez um pouco ousada e fora dos cânones convencionais da pedagogia das línguas, me deu a conhecer certos poetas alemães como Goethe, Rilke, Hoderllin." O que não lhe mostraram na escola porque não fazia parte dos programas escolares foi Fernando Pessoa mas Gastão Cruz acabou por o encontrar: "eu e um amigo fomos a uma biblioteca em Faro à procura dos poemas do Álvaro de Campos. Foi uma revelação."

Outra revelação foram os poemas de António Ramos Rosa que, naquela altura do final da adolescência de Gastão Cruz, também vivia em Faro: "O Ramos Rosa e o Casimiro de Brito fundaram uma pequena revista, uns cadernos, chamados Cadernos do Meio-Dia. Paralelamente, existiu também "A Palavra", uma pequena coleção de poesia, da qual o primeiro número foi uma publicação do Ramos Rosa intitulada "O Grito Claro"." Foi por causa desta plaquete, "O Grito Claro", que Gastão Cruz se decidiu a procurar Ramos Rosa pessoalmente: "quando ele publicou procurei-o numa livraria onde ele costumava ir lá em Faro e pedi-lhe para me autografar o livro. E logo a seguir começámos a conviver mesmo. Quando eu já estava em Lisboa estabeleci contacto entre ele e alguns poetas que conheci aqui na faculdade."

Acompanha o que se vai fazendo na poesia portuguesa contemporânea mas quando abordo este tema começa por recordar a importância das gerações anteriores e lembrar que "no século XX existiram poetas extraordinários como o Camilo Pessanha, o Pessoa ou o Sá-Carneiro na primeira metade" que marcaram um tempo e uma linguagem e "quando se poderia temer que esta grande geração tivesse esgotado um pouco a poesia, a verdade é que isso não aconteceu porque na geração de 40, 50 surgem nomes como Jorge de Sena, Sophia, Eugénio, Carlos de Oliveira ou Cesariny, O´Neill e Ramos Rosa, e depois, nos anos sessenta, o Herberto, o Ruy Belo, a Fiama e a Luiza, os da minha geração, aos quais outros nomes poderão ser acrescentados, de António Franco Alexandre ou Luís Miguel Nava a Manuel Gusmão, Luís Quintais e outros." Insisto na opinião sobre a voz dos mais novos, dos poetas nascidos já depois da década de sessenta ou de setenta: "é evidente que as coisas têm de continuar e há poetas posteriores a estas gerações que dão continuidade a esse trabalho mas penso que hoje há talvez um menor interesse pela criação de uma linguagem nova. Penso que os poetas, alguns poetas, acham que uma poesia mais ligada ao quotidiano, às coisas anódinas tem mais razão de ser ou é aquilo que eles são capazes de fazer." Nesse sentido, considera que "ainda não surgiu uma geração comparável à geração dos meados do século XX" embora sublinhe a ideia importante de que "a poesia continua".

Poeta publicado desde a década de sessenta, vencedor de vários prémios literários, crítico e encenador, Gastão Cruz diz que a poesia não tem de facilitar a vida dos leitores porque "não pretende dar-lhes um discurso comum ou normal, justamente, afasta-se da norma, da convenção, porque é uma forma de criar mundos novos, e as pessoas muitas vezes não estão preparadas para aceitar isso." Considera que os leitores não devem pedir à poesia aquilo que ela não pode dar-lhes porque, precisamente, "a poesia não pode ser repetição daquilo que já é conhecido, tem de ser um caminho, criar o seu próprio mundo, ou representar o mundo através da densidade da linguagem."

Não fosse poeta, usa um poema de Carlos de Oliveira que diz de cor, para resumir a ideia:

"Rudes e breves as palavras pesam
mais do que lajes ou a vida, tanto,
que levantar a torre do meu canto
é recriar o mundo pedra a pedra"

A poesia serve para quê?

Como toda a arte, para nos reconciliar com o mundo.

Deve saber vários versos de cor. Qual o primeiro que lhe vem à cabeça?

Há inúmeras possibilidades. Por exemplo: “Água significa ave” (Fiama Hasse Pais Brandão)

Se não fosse poeta português (ou de outro país) seria de que nacionalidade?

Não consigo pensar nesses termos: pertencemos a um lugar e somente a ele.

Um bom poema é...

Não há “bons poemas”, apenas “poemas”. O poema só existe se conseguir “recriar o mundo pedra a pedra”, como diz Carlos de Oliveira.

O que o comove?

Na poesia? A capacidade de transportar para a fala as emoções com que contemplámos o mundo: as mesmas e outras simultaneamente.

Que poema enviaria ao primeiro-ministro português?

Jamais enviaria um poema a alguém incapaz de o sentir e entender.

Por sua vontade, o que ficaria escrito no seu epitáfio?

Poderia ser o poema “Algum dia”, do meu livro O Pianista:

Algum dia o teu corpo como um copo
na paisagem da mesa ficará
deitado na toalha
Chegará
alguém para levar o que estiver
a mais Ele estará