Henrique Raposohenrique.raposo79@gmail.com

A tempo e a desmodo

Henrique Raposo

Façam lá o governinho de esquerda

Em 2016, o PS será adversário da Fonte Luminosa FOTO J. FERNANDES KIM

Em 2016, o PS será adversário da Fonte Luminosa FOTO J. FERNANDES KIM

No dia 10 de outubro, ainda pensava que existia vida decente no Largo do Rato. É por isso que escrevi isto no Expresso: “Se entrar numa frente esquerdista com PCP e BE, o PS cometerá suicídio, porque o eleitorado nunca lhe perdoará essa aliança e a consequente instabilidade. O meu lado cínico gostava muito que Costa cometesse este haraquiri que secaria para sempre a Fonte Luminosa, mas julgo que o meu lado patriótico é que tem razão: Costa aprovará o orçamento Passos-Portas e ficará à espera do momento certo para o golpe fatal”. Hoje é cada vez mais evidente que o meu lado patriótico estava a marinar em wishful thinking. Seja como for, a minha posição perante a tal Frente de Esquerda não mudou, tem oscilado entre a indignação e o cinismo. Se é verdade que denuncio a maior fraude em quarenta anos de democracia, também é verdade que me sinto tentado pelo outro lado do espelho: a fraude da esquerda pode dar à direita dez anos de poder. E, como tenho a certeza de que só a direita pode ser o motor da reforma do país (como em 1982 e 1989), tudo isto até poderá ter um final feliz.

Uma aliança de esquerda feita assim à bruta e à revelia do eleitorado e das regras consagradas na nossa democracia é um maná para o centro-direita. O PS está a desistir da designação “centro-esquerda”, apostando no frentismo dessa donzela perfeita, una e indivisível, a Esquerda. O desespero oportunista de Costa está a desviar a Fonte Luminosa para o centro-direita; ao procurar refúgio nas saias de PCP e Bloco, Costa transformou o centro-direita no novo centro político; neste momento, PSD e CDS são as únicas forças inequivocamente atlantistas e europeístas. É por este ângulo, aliás, que devemos ler o discurso violento de Cavaco, que substituiu Mário Soares no centro da resistência ao radicalismo. Estamos assim a caminhar para um cenário em que todo o centro político ficará à mercê da AD ou PàF. Até porque um governo Costa com apoio de PCP e Bloco trará consequências negativas ao país e dará sempre um espetáculo de instabilidade. PCP e Bloco não podem ser estáveis e responsáveis durante muito tempo, é contra a sua própria natureza. Portanto, um governo Costa poderá ser uma vacina importante. A pretensa superioridade moral das esquerdas não sobreviverá, e o PS perderá qualquer tipo de centralidade.

Corremos sérios riscos económicos, bem sei. Um governo de gestão PSD/CDS comportaria menos riscos económicos, mas também seria uma bomba política. Até se pode dizer que a fraude costista nos levou a um ponto em temos de escolher: ou salvamos a economia e as finanças, ou salvamos o que resta do regime? Neste sentido, a via cínica não é nada cínica, é até a única forma de segurar o regime. Porquê? As esquerdas resolveram humilhar a direita inteira após 4 de outubro; estão a lançar um clima de hostilidade social que divide literalmente a sociedade ao meio; a direita sente-se, e com razão, humilhada e o ressentimento está a crescer. Ora, um governo de gestão PSD/CDS durante seis meses aumentaria para lá do aceitável esse ressentimento. Passos, Portas e os respetivos partidos perderiam qualquer credibilidade junto do eleitorado. Seriam os bobos do regime. Moral da história? Se Costa quer governar, então que o faça com PCP ou Bloco. A direita deve ficar na oposição à espera das eleições de 2016, sem nunca aprovar medidas ou orçamentos de Costa. Há limites para a humilhação. Vemo-nos nas eleições de 2016. Nessa altura, até eu irei para a rua.