Para ler o Semanário e o Diário

Disponível na capa da revista E
Se ainda não tem acesso

para assinantes

Em Destaque

Expresso

Classificados

Siga-nos

Refugiados em Lesbos

Destroços na orla marítima que contam histórias das travessias

A instalação de estandartes no átrio do Espaço Amoreiras suporta retratos de cidadãos europeus e políticos pintados sobre cobertores de emergência: “A exposição é sobre ambiguidade e poder, por isso coloquei estes retratos pintados ao estilo do poster do Obama, de 2008.” Em baixo, na vitrina: Um colete salva-vidas falso, encontrado em Lesbos a 5 de março de 2016, que não flutua

A instalação de estandartes no átrio do Espaço Amoreiras suporta retratos de cidadãos europeus e políticos pintados sobre cobertores de emergência: “A exposição é sobre ambiguidade e poder, por isso coloquei estes retratos pintados ao estilo do poster do Obama, de 2008.” Em baixo, na vitrina: Um colete salva-vidas falso, encontrado em Lesbos a 5 de março de 2016, que não flutua

O mar leva, o mar devolve. Sempre assim foi e sempre assim será. No extenso areal da costa de Lesbos, ilha grega encostada à Turquia, amontoam-se os restos dos barcos que atravessam o mar Egeu apinhados de refugiados sírios, afegãos, iraquianos, paquistaneses, congoleses, entre tantos outros. Uma exposição em Lisboa recorda-nos que este problema diz respeito a todos os europeus

Texto Cristina Pombo Fotos Alberto Frias

Chegam às dezenas, carregam pouco mais do que a roupa que trazem vestida. Lesbos é a primeira terra conhecida que pisam em solo europeu, um território que dista precisamente 3041,19 km de Lisboa em linha reta. Neste lugar vivem, na sua maioria, descendentes de segunda e terceira geração de gregos que outrora habitaram a costa turca, de onde foram expulsos após a guerra greco-turca de 1919-1922. Nove décadas depois, a história repete-se, mas com outros protagonistas.

A Lesbos chegaram, desde o início do ano até 17 de outubro, 25 barcos com 1188 pessoas a bordo, entre elas 472 crianças, segundo a ONG Médicos Sem Fronteiras. Os menores são os mais vulneráveis. “Chegam assustados”, relata ao “Expresso” Pedro Pires, artista plástico de 41 anos, que em março de 2016 rumou a Lesbos para integrar uma equipa de voluntários e fazer pesquisas artísticas que resultaram na exposição “3041,19 km Lisboa-Lesbos”, patente até 2 de novembro no Espaço Amoreiras, em Lisboa.

Durante os 13 dias de voluntariado nas praias de Lesbos, ajudou quem vinha de terras turcas, em embarcações que transportavam sobretudo famílias. São destas e de tantas outras os despojos que ajudam a contar a história das arriscadas travessias por mar para a Europa. Pedro deixou na ilha tudo o que levara consigo de Lisboa e, no regresso, enfiou na mala os restos através dos quais propõe uma reflexão sobre esta crise.

À esq. câmara de ar de pneu de automóvel usada como boia: “À falta de melhor opção, este é o equipamento salva-vidas que muitos refugiados têm durante a viagem”. À dta., colete de criança encontrado no cemitério de coletes salva-vidas junto à vila de Naipi

À esq. câmara de ar de pneu de automóvel usada como boia: “À falta de melhor opção, este é o equipamento salva-vidas que muitos refugiados têm durante a viagem”. À dta., colete de criança encontrado no cemitério de coletes salva-vidas junto à vila de Naipi

O artista, que já viveu na Grécia, foi autorizado a acompanhar os voluntários da organização não-governamental grega ERCI. À noite participava nos salvamentos, e durante o dia palmilhava as praias a pé para recolher o que sobra dos embarcadiços e fica por limpar no areal. “As autoridades de Lesbos não asseguram a limpeza das praias. Corre na ilha que não há vontade política para resolver estes assuntos, porque isso demonstraria que a Grécia está a conseguir controlar o problema.”

A paisagem metamorfoseou-se graças aos inúmeros destroços de embarcações e coletes salva-vidas que jazem amontoados no areal, meses a fio, e depressa os habitantes de Lesbos começaram a perceber que podiam aproveitar cordas, ou a borracha e as luzes dos barcos, para fazer pequenas reparações em casa ou improvisar um oleado para cobrir o carro.

O objeto central desta exposição é o cobertor térmico ou de emergência, precisamente por ser a primeira coisa que os refugiados recebem mal pisam o areal, para se protegerem do frio, do calor ou da humidade. Usado temporariamente, é abandonado logo depois. “É o primeiro lixo que eles mandam fora e o primeiro objeto que a Europa lhes dá. É frágil, encontra-se por todo o lado na ilha e começa a ficar enterrado nas praias, de forma que acabará por fazer parte das camadas da terra em Lesbos.”

Uma gravata, uma camisa dobrada e uma luva feitas a partir de cobertores térmicos que foram usados por refugiados ao chegarem à ilha de Lesbos

Uma gravata, uma camisa dobrada e uma luva feitas a partir de cobertores térmicos que foram usados por refugiados ao chegarem à ilha de Lesbos

A cada barco que chega com 15, 30 ou 50 pessoas, um grupo de voluntários de várias ONG atira-se ao mar, e enquanto uns ajudam no salvamento, outros vão distribuindo cobertores térmicos, roupas, água e comida. Pedro descreve uma cena caricata que não lhe saiu da memória desde março do ano passado: dois polícias gregos chegavam sempre a meio dos salvamentos e ficavam a observar, enquanto uma carrinha estacionava para roubar partes do motor e voltava a arrancar, em breves minutos. “Isto exemplifica bem a desresponsabilização do Governo grego. Nunca vi ninguém que estivesse oficialmente a ajudar aquelas pessoas na praia.”

Segundo dados recentes do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), um total de 4607 pessoas chegaram às ilhas gregas durante o mês de setembro. Atualmente, há 13.456 refugiados nas ilhas gregas — quando os centros de acolhimento só têm capacidade para 6000 — e 32.158 na Grécia continental.

O PESADELO DE MORIA

Muitos dos locais agradecem esta crise de refugiados. Antes da chegada em massa destas pessoas Lesbos estava a morrer, sem oportunidades de negócio, contaram muitos dos habitantes para os quais um problema humanitário trouxe prosperidade económica. “Os restaurantes estavam cheios, as empresas de aluguer de automóveis também, tudo por causa dos muitos voluntários que ainda permanecem na ilha.”

Nesta ilha do mar Egeu parecem ser os refugiados os que mais têm a perder. Enganados pelos traficantes, que lhes vendem coletes falsos que não flutuam ou cobram quantias absurdas para os deixarem à sua sorte durante a travessia para território europeu, são por fim destinados a campos sem condições, de onde dificilmente conseguem sair.

A exposição encontra-se patente até 2 de novembro no Espaço Amoreiras

A exposição encontra-se patente até 2 de novembro no Espaço Amoreiras

Uma equipa da Aministia Internacional esteve em Lesbos, entre 17 e 19 de outubro, para pressionar as autoridades gregas a melhorarem as condições dos milhares de refugiados, muitos deles não autorizados a seguir viagem para o continente.

“As condições miseráveis que enfrentam não é coisa do passado, é uma realidade diária. Com o número de chegadas às ilhas gregas a aumentar, e o inverno a aproximar-se, homens, mulheres e crianças pernoitam em condições duras em campos sobrelotados”, afirmou na semana passada Giorgos Kosmopoulos, representante da Amnistia Internacional para as Migrações.

Refugiados e migrantes afegãos deixaram o campo de refugiados de Moria, este sábado, e com os filhos ao colo marcharam até à cidade de Mytilene em protesto contra a falta de condições e a violência no interior do campo. Exigem que os seus pedidos de asilo sejam tratados como os dos sírios.

Na sexta-feira, a situação no campo complicou-se devido a confrontos entre grupos étnicos, que obrigaram mulheres e crianças a dormirem ao relento no exterior do campo. A polícia queixa-se de não poder intervir pela força uma vez que ali se encontram perto de 1000 crianças com menos de 8 anos.

Trabalhadores do próprio campo disseram à agência de notícias de Atenas que as condições de higiene em Moria são extremamente más, e a água e o sistema de esgotos insuficientes para tanta gente. O campo onde funcionava uma antiga base militar — tem muros de três metros de altura e arame farpado, e o aspeto de uma prisão — foi concebido para receber 800 pessoas, mas tem atualmente mais de 5.400. Para tentar resolver a sobrelotação do espaço, voluntários e ONG improvisaram um segundo campo, com água potável e tendas de campanha, igualmente sem condições.

O Ministério grego planeia deslocar 1500 requerentes de asilo das ilhas para o continente, o mais tardar no início de novembro. Mas, entretanto, mais uns milhares estão prestes a chegar sem que nenhum plano tenha sido traçado para os receber.

* O autor tem no seu site (www.pedropires.pt/lesbos) um mapa interativo com geolocalização, sobre o qual estão assinalados os diferentes objetos por ele recolhidos em Lesbos.