Opinião
Amanhã
Henrique Monteirohmonteiro@expresso.impresa.pt

Chamem-me o que quiserem

Henrique Monteiro

Le Pen, Ciudadanos, Podemos e outros fenómenos

Quem ouvisse, visse ou lesse a maioria da Comunicação Social esta manhã retinha duas impressões possíveis. A primeira é que não tinham havido eleições relevantes neste fim de semana na Europa; a segunda, é que o Podemos, de Pablo Iglésias, tinha conseguido um resultado histórico.

Nas tradicionais setinhas a subir e a descer do 'Público' (falo nele por ser o primeiro jornal que leio), Iglesias é o que mais sobe e Marine Le Pen, embora não descendo nem subindo, fica atrás de Maria José Costeira, a nova presidente da Associação Sindical dos Juízes, e de Marco Silva, treinador do Sporting. Ora, salvo melhor opinião, Marine Le Pen foi, para meu pesar e, seguramente, de muita gente pela Europa fora, a grande vencedora deste domingo nas eleições departamentais francesas. Já o Podemos (e já agora o Ciudadanos) tendo bons resultados não abanaram a tradicional estrutura de voto na Andaluzia - PSOE em primeiro, PP em segundo.

No mesmo jornal, João Carlos Espada, professor de Ciência Política, um liberal tradicional e geralmente considerado conservador, analisa com lucidez a entrevista que a revista E, do Expresso, fez este sábado à líder do Front National. E diz algo que não deixa margem para dúvidas para quem leu a dita entrevista: para Le Pen, as eleições não decidem quem tem legitimidade, porque o seu critério de "legitimidade reside na concordância ou não com as suas próprias opiniões". Como adianta o próprio Espada, esta é a característica da velha esquerda e da velha direita autoritárias da década de 1930. "Reaparece hoje na linguagem do Syriza, na Grécia e da Frente Nacional, em França". É bem verdade.

Num lugar político oposto e no mesmo jornal, Rui Tavares, um historiador e dirigente do partido Livre, afirma de modo claro: "Quando Jean-Marie Le Pen passou à segunda volta das eleições presidenciais em 2002, o choque na França republicana foi profundo (...) Passada uma década e pouco, a França fica aliviada, não porque os fascistas ficaram em segundo, mas porque Marine Le Pen não ficou em primeiro". Ora aqui está um belo retrato.

Em França, o partido do poder, o PSF, ficou em terceiro lugar, a seis pontos de Le Pen, que por sua vez ficou a quatro escassos pontos da UMP de Sarkozy, o vencedor desta primeira volta. Pode ser que Marine não eleja ninguém à segunda volta, caso o PSF vote em massa na UMP e vice-versa para impedir a vitória da extrema-direita. Mas, ainda que assim seja, o sistema partidário em França tem um outsider que não tem um programa muito diferente de outros partidos que querem destruir a Europa. Aliás, como a prever estes bons resultados, ontem reunira-se na Rússia uma série de movimento e partidos de extrema-direita e nacionalistas avessos à ideia europeia.

O Podemos com 15% dos votos na Andaluzia (e o menino querido, parece, dos media portugueses) falhou a o seu objetivo - ser necessário a uma solução governativa. A líder do PSOE andaluza já recusou uma aliança com o partido de Iglesias. Sendo que vai governar em minoria, acordos pontuais com o PP ou com os Ciudadanos também lhe dão maioria. E aqui há que ressaltar que os Ciudadanos (lista conservadora com origem na Catalunha) ficou apenas 5% abaixo dos 14,8% do Podemos. (o PSOE alcançou 35,5 e o PP - que foi o principal derrotado - 27%).

Nesse caso, por que razão a Comunicação Social dá mais destaque ao Podemos? Porque - afirma-se - não se previa tantos votos naquele partido, que nem organizado estava na Andaluzia (o Ciudadanos também não e a Andaluzia sempre foi uma das regiões mais à esquerda de Espanha, sempre governada pelos socialistas desde 1982). E por que razão Le Pen não é considerada uma vencedora? Porque não venceu!

Este tipo de critérios - sem estar em causa o aspeto pernicioso do partido de Le Pen - tem feito mais pelo descrédito da política tal como ela hoje é apresentada e, o que mais me preocupa, pelo jornalismo, do que muitos discursos populistas. A realidade, não é a que as sondagens ou a Comunicação Social esperam, nem pode ser com ela comparada. A realidade é o que é. Le Pen teve a melhor votação de sempre, arrumou o PSF nos 20 por cento e ficou com 26, a poucos (3,7%) da reunião de três partidos - a UMP, de Sarkozy com os centristas do Modem, de Bayrou, e da UDI, de Yves Jégo.

É, de certa forma, aterrador. Mas é uma vitória. Há que ser honesto.


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Amanhã

ESPETÁCULO

PIANO DE GRIGORI SOKOLOV

No Ciclo Piano EDP, Grigori Sokolov regressa à Casa da Música, no Porto, com um novo programa, constituído por grandes obras-primas de Bach e Beethoven. O pianista russo foi o vencedor mais jovem de sempre do Concurso Tchaikovski. Poderá escutar as suas melodias às 21h00 na sala Suggla, por 22 euros, ou, se preferir com jantar incluído, por 37 euros.

TELEVISÃO

"MAIS FORTE DO QUE AS ARMAS"

No decorrer da Semana Cultural da Ucrânia, o Auditório do Liceu Camões irá passar pela primeira vez em Portugal o documentário “Mais Forte do que as Armas”. O filme descreve os acontecimentos que abalaram o país desde os primeiros dias da revolução de Kiev até à atual guerra no leste da Ucrânia. A apresentação da película será acompanhada pelo realizador, Yuriy Gruzinov, às 18h30.

100 ANOS DE ORPHEU

DOIS SELOS E UM BLOCO FILATÉLICO PARA TODOS OS VANGUARDISTAS

Este ano comemora-se o centenário da revista “Orpheu”, produto de um grupo de vanguardistas que pretendia revolucionar as artes e as letras do seu tempo. Numa iniciativa dedicada ao acontecimento, os CTT procederam a uma emissão de dois selos e um bloco filatélico, numa tiragem de 300 mil exemplares dos primeiros e 40 mil do segundo. A apresentação dos selos será seguida de uma visita guiada à exposição Os Caminhos de Orpheu, por Richard Zenith.

EXPOSIÇÕES

ILUSTRAÇÕES DO ATIVIDÁRIO DO TEATRO

O Dia Mundial do Teatro é celebrado a 27 de março, mas o Teatro Municipal Maria Matos começa a sua comemoração alguns dias mais cedo, com vários espetáculos e exposições, como é o caso das Ilustrações do Atividário do Teatro, que estarão disponíveis a partir desta terça-feira até ao dia 28 de março. A exposição, em tons de amarelo e preto, encherá as paredes do Maria Matos com ilustrações de André Letria e textos de Ricardo Henriques. Estará disponível a partir das 15h nos dias úteis e a partir das 14h ao sábado. A entrada é livre.