PRESIDENCIAIS
O 1º candidato à esquerda odeia Sócrates, critica Costa e apoiou Seguro
FOTO MARCOS BORGA
A dez meses das presidenciais, surge o primeiro candidato oficial: o socialista Henrique Neto, antigo empresário de Leiria, crítico feroz de José Sócrates, apresenta a candidatura na quarta-feira e promete causar estragos à esquerda. A direção do PS não comenta
TEXTO CRISTINA FIGUEIREDO
António Costa não deu ouvidos aos que o vinham alertando para a possibilidade de, mais cedo que tarde, surgir um "franco-atirador" da área socialista com uma candidatura presidencial. E a "ameaça" concretizou-se: Henrique Neto, antigo empresário de Leiria, ex-deputado e ex-dirigente do PS, vai apresentar a sua candidatura na quarta-feira, às 16h00. Feroz crítico dos governos de José Sócrates e, por arrasto, de António Costa - de resto, apoiou António José Seguro nas primárias de setembro - o seu avanço tem, desde já, uma consequência previsível: com poucas hipóteses de vir a ser ele o candidato oficial do PS, vai contribuir para dividir o potencial eleitorado socialista. Augusto Santos Silva, o primeiro dirigente socialista a comentar, evidenciava isso mesmo no facebook: "Escusava o destino de me lembrar que continuo sem candidato presidencial, que corro o risco de brindar a direita com uma enorme dispersão de votos à esquerda e que, sempre que os responsáveis se resguardam, os bobos ocupam a cena", escreveu.
Em 2011, recorde-se, Fernando Nobre fez parecido: com o apoio (subliminar) de Mário Soares, o médico, fundador da AMI, apresentou a sua candidatura em fevereiro de 2010. Obteve 14% dos votos, quase 600 mil que, de outra forma, poderiam ter ido para Manuel Alegre, o candidato apoiado pelo PS.
Numa altura em que não faltam candidatos a candidatos à esquerda para as presidenciais de 2016, e sem nunca ter feito parte do rol, o antigo empresário de Leiria, 79 anos (que cumpre a 27 de abril), é o primeiro a assumir uma candidatura que promete trazer muitas dores de cabeça a António Costa. Henrique Neto é um assumidíssimo crítico de José Sócrates, a quem denunciou desde a primeira hora: "Sócrates está no topo da pirâmide dos que dão cabo disto", disse em 2010 numa entrevista ao Jornal de Negócios, justificando por que não gostava do então primeiro-ministro: "Não tenho nada contra José Sócrates. Se ele se limitasse a ser um vendedor de automóveis, ser-me ia indiferente. Mas ele é o Primeiro Ministro e está a dar cabo do meu País. Não é o único, mas é o mais importante de todos". Em 2011 chegou a pedir a sua demissão a tempo de o PS poder apresentar outro candidato a primeiro-ministro nas legislativas.
Em junho de 2014, no início da campanha interna para as eleições primárias, fez parte de um grupo de militantes que subscreveu um manifesto em defesa de António José Seguro - em resposta ao apoio de Jorge Sampaio, Manuel Alegre, Almeida Santos e Vera Jardim a António Costa. Lamentando que estas quatro personalidades tenham estado "quase sempre caladas" durante os anos da governação Sócrates, o texto lembrava que "nesse período (...) o interesse nacional andou a reboque dos interesses partidários do grupo no poder". "Fazer voltar ao poder político os mesmos que no PS conduziram Portugal para o desastre é um crime contra a nação portuguesa e um ultraje aos princípios e valores do Partido Socialista".
Em setembro, juntou-se novamente a várias personalidades no manifesto "Por uma democracia de qualidade". Assume-se preocupado com "a degeneração do nosso sistema político, que é um dos maiores problemas que o nosso país enfrenta": "Não haja dúvidas de que o sistema democrático português está podre".
Direção do PS não comenta
O convite para a apresentação da candidatura - que chegou esta noite às redações vindo de diversos remetentes, com o assunto "vai acontecer" - não desvenda quem é o candidato. Enuncia apenas que se trata de "um cidadão que, na sua vida profissional, se destacou pela sua competência e capacidade de concretização, tendo levado o nome de Portugal a níveis de referência mundiais" e que, "com provas dadas ao longo da sua vida, com um trajeto de posições políticas frontais e claras, há muito que defende a necessidade de introduzir profundas alterações no sistema político, de modo a fazer dele uma referência de cidadania lúcida, exigente e ativa". Um perfil que assenta em Henrique Neto, o nome avançado pelo Diário de Notícias. O próprio não desmente, para já apenas não comenta. Em janeiro, numa entrevista ao i, perguntado sobre se poderia ser candidato presidencial, respondera: "Em política nunca digo desta água não beberei". Mas acrescentava achar que era "inviável": "Para já, não há condições financeiras", justificava.
"Na próxima 4ª feira o País vai compreender que as próximas eleições presidenciais não estão condenadas a ser um simples complemento das legislativas, nem a Presidência da República está condenada a ser uma mera extensão da representação partidária, lê-se no texto. "E vai também descobrir que elas podem ser decisivas para reformar o seu sistema político, revitalizar o seu quadro de valores e concretizar as suas mais fundas expectativas, dando de novo aos Portugueses confiança e esperança no seu futuro".
Contactada pelo Expresso, a direção do PS não faz qualquer declaração à possível candidatura de Henrique Neto às presidenciais.





