TERRORISMO

Jihad: as 5 maiores pistas da investigação

ALARME O Grupo de jiadistas portugueses é muito próximo de Jihadi John, o decapitador britânico FOTO D.R.

ALARME O Grupo de jiadistas portugueses é muito próximo de Jihadi John, o decapitador britânico FOTO D.R.

No último ano, o Expresso escreveu dezenas de artigos sobre o grupo de jiadistas portugueses. São poucos mas considerados “muito influentes” pelas secretas europeias. Amanhã é publicado um livro sobre o tema.

TEXTO HUGO FRANCO e RAQUEL MOLEIRO com JOSÉ PEDRO TAVARES e PEDRO SANTOS GUERREIRO

As secretas europeias sabem que neste momento estão nas fileiras do autodenominado Estado Islâmico quase duas dezenas de guerrilheiros de origem portuguesa, número confirmado há muito pelo Expresso. Os mais influentes deste grupo viviam em Londres até há pouco tempo antes de partirem para a Síria, outros são filhos de emigrantes de França e do Luxemburgo. Pelo menos seis terão morrido em combate. Um ano depois do início da investigação do Expresso sobre o assunto, revelamos as 5 maiores pistas que obtivemos. Esta terça-feira é lançado um livro sobre os bastidores deste trabalho, intitulado ‘Os jiadistas portugueses’.

PISTA 1: O ESTRANHO NOME ÁRABE

Abu Zakaria Al Andalus. Este estranho nome árabe foi-nos referido por uma fonte das secretas europeias dias depois de o Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) ter sido publicado, no final de março de 2014 e quando ainda sabíamos muito pouco sobre o fenómeno. O RASI indicava pela primeira vez a presença de portugueses em palcos da Jihad. Al Andalus era na verdade Edgar Rodrigues da Costa, um português de 32 anos que se tinha alistado no exército radical que combate as tropas sírias. O seu irmão mais novo, Celso, tinha-se juntado a ele no grupo de mujahideen estrangeiros. Rapidamente percebemos que Edgar liderava um pequeno grupo de portugueses que tinha saído da Linha de Sintra e emigrado para Londres poucos anos antes para estudar e trabalhar. Na capital britânica converteram-se ao Islão, radicalizaram-se e de recrutados passaram rapidamente a recrutadores de muçulmanos para a Guerra Santa. A célula de Leyton, o nome do bairro da zona Este de Londres onde viviam, está ainda hoje na mira das autoridades britânicas.

PISTA 2: CASAMENTO NA SÍRIA

O casamento na Síria de Ângela Barreto, uma jovem de 19 anos, filha de um casal de portugueses divorciados, fez-nos perceber que o recrutamento de jovens ocidentais para a Jihad estava a acontecer mesmo à nossa porta. O Expresso falou em agosto do ano passado com o pai da rapariga poucas horas depois da a sua ex-mulher, que vivia na Holanda com a filha, lhe contar da fuga de Ângela, dia 9 desse mês, e do casamento com o guerrilheiro Fábio Poças, no dia seguinte. A Internet confirmava-lhe o que lhe parecia “inacreditável, irreal”. Três meses antes, o Expresso tinha-a descoberto nas redes sociais e falou com a portuguesa por telefone. “Os jihadistas estão na Síria e no Iraque para que o regime não mate todo um povo. A Jihad é uma coisa boa, não é má como dizem na televisão”, justificou. Revelou ainda que gostaria também ela de ir para Síria — “tenho lá uns dez, quinze amigos, e também amigas holandesas.” No verão, já em solo sírio, revelou num cibercafé: “Alhamdoulilah, cheguei em segurança ao Sham [grande Síria]. Irmãs, não hesitem. Sinto-me tão bem, como se tivesse sempre vivido aqui, sinto-me em casa. Insha’Allah, Alá”.

PISTA 3: MATAR E MORRER NO CALIFADO

Em setembro, o lusodescendente Mikael Batista, de 23 anos, contou ao Expresso que o que mais gostava de fazer na Síria era de “treinar e matar”. Pela primeira vez, um jiadista contou a um órgão de comunicação social português como era o seu dia-a-dia nas fileiras do Daesh. Mikael, que viajou com o amigo Mickael dos Santos, também filho de emigrantes portugueses de Paris, revelou que a família sabe onde ele está e o que está a fazer. E que os deixou tristes com a sua opção. “Eles choram” quando lhes liga para o telemóvel, quando lhes explica que precisa de lutar contra “as injustiças sobre os muçulmanos”. No início deste ano, Batista foi dado como morto pela propaganda do Estado Islâmico, vítima dos ataques aéreos da coligação ocidental liderada pelos EUA em Kobane, perto da fronteira com a Turquia. Não terá sido o primeiro português a morrer no Califado. Em maio, José Parente cometeu um ataque suicida no Iraque e cinco meses depois, Sandro Monteiro morreu também em Kobane, alvo da aviação anti-jiadista. Um quarto homem foi dado como morto, já depois de Mikael Batista. Nos últimos dias, mais duas mortes foram anunciadas nas redes sociais do Estado Islâmico. As autoridades portugueses creem tratar-se de pai e filho, com nacionalidade portuguesa e argelina.

PISTA 4: PRÓXIMOS DE JIHADI JOHN

Um tweet colocado no último verão por um outro português, Nero Saraiva, veio revelar o que mais se temia: havia portugueses próximos do grupo que produzia, realizava e promovia os vídeos das decapitações. A 10 de julho este guerrilheiro escrevia em inglês na sua conta do Twitter: “Mensagem para a América. O Estado Islâmico está a fazer um novo filme. Obrigado pelos atores”. Trinta e nove dias depois era divulgado no YouTube ‘o filme’: o vídeo da execução do jornalista James Foley intitulado ‘Mensagem para a América’. O ‘ator’ (a vítima) era dos EUA e o título da execução repetia a mensagem de Patrício: “A Message to America”. As autoridades inglesas acreditam que o português, de ascendência angolana, soube antecipadamente da decapitação e que terá ligações estreitas ao carrasco britânico, entretanto identificado como sendo Mohammed Emwazi. “Esta mensagem revela muita coisa. O português teria já conhecimento de que os reféns norte-americanos iriam ser executados, bem como o género de vídeos que seriam realizados em breve”, revelou ao Expresso uma fonte próxima do MI5.

PISTA 5: A ROTA ENTRE LONDRES E LISBOA

No final de janeiro, o Expresso descobriu entre o fim de 2012 e meados de 2014, cerca de dez jiadistas britânicos viajaram entre Lisboa e Istambul para se alistarem nas fações pró-Al-Qaeda, antecessoras do Estado Islâmico (EI), que lutavam então contra o regime de Bashar al-Assad. Durante esse período, conseguiram fugir à vigilância dos serviços de segurança do Reino Unido.Quem os recrutou foi o grupo de cinco portugueses emigrado em Leyton: Celso e Edgar Costa, Fábio Poças, Nero Saraiva e Sandro Monteiro. Antes de, também eles, partirem para a Jihad via Lisboa. Eram estes portugueses quem geria o recrutamento, transporte, alojamento, alimentação e financiamento desta rota terrorista para a Síria. Primeiro, nos arredores de Londres, angariavam os candidatos a mujahidines nos meios islâmicos que frequentavam, de preferência convertidos como eles e seguidores da versão mais radical do Islão. Depois, partiam para Lisboa onde recebiam os futuros jiadistas em trânsito.

“Iam buscá-los, um a um, ao aeroporto e levavam-nos para as casas de retaguarda. Andavam sempre com eles e, dias ou semanas depois, levavam-nos à Portela para apanharem o voo direto para a Turquia. Só abandonavam o aeroporto quando o avião levantava voo”, revela uma fonte dos serviços de informação europeus.

Os Jiadistas portugueses

A investigação do Expresso sobre os portugueses que se juntaram ao Estado Islâmico, na Síria e no Iraque, vai ser publicada em livro, à venda a partir da próxima quarta-feira, dia 24 de março. São cerca de vinte jiadistas atestam as autoridades, rapazes e raparigas comuns, os vizinhos do lado, iguais na multidão, nas escolas onde estudaram, nos bairros residenciais onde cresceram. Os seus apelidos surgem replicados em milhares de famílias portuguesas. São os Costa, os Saraiva, Barreto, Batista, Santos, Monteiro, Parente.

Gostavam de futebol de onze, de desporto, metade do Sporting metade do Benfica, de hip-hop de subúrbio, de dançar na rua, de andar na moda, de beber cerveja, de discotecas, de sair, de namorar sem pensar que era para a vida. Nenhum vivia numa família abastada, mas também não eram pobres. Em Portugal, França, Holanda e Luxemburgo cresceram como cresce a classe média, em apartamentos dos arredores das grandes cidades, sem terem tudo mas sem lhes faltar nada de mais. Um dia mudaram. Do contacto com o Islão na adolescência à conversão não passou mais de um ano. São muçulmanos express, ou iConvertidos, recrutados em modo rápido e doutrinados através da Internet. O primeiro Corão que leem obtêm-no por download, os versículos mais importantes conhecem-nos através dos posts partilhados no Facebook e Twitter. A sua primeira mesquita é no quarto lá de casa de olhos presos no computador.

Durante um ano, os jornalistas Hugo Franco e Raquel Moleiro andaram à sua procura, a dar rosto e identidade aos números ocos que o governo português nunca confirmou com exatidão. Foi possível traçar o perfil de onze jiadistas, nove homens e uma mulher. Entrevistaram quatro e conversaram regularmente, ao longo de meses, com dois, através das redes sociais e também por Skype. Em relação aos restantes, foram as famílias, os amigos e os post e tweets e fotografias na Internet que falaram por eles. Celso, Edgar, Nero, Fábio e Sandro são os amigos da Linha de Sintra que se juntaram nos arredores de Londres; Mickaël dos Santos, Mikael Batista, José Parente e Dylan Omar compõem o grupo que saiu dos arredores de Paris; Steve Duarte partiu do Luxemburgo e Ângela Barreto, a noiva da Jihad que fugiu da Holanda para casar com Abdurahman al Andalus.

Mesmo depois de fechado o livro, continuaram a partir novos candidatos a mártires, principalmente dos arredores de Paris onde o recrutamento é particularmente agressivo e é grande a comunidade portuguesa emigrante grande. Esta é uma história em curso.