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“Nunca consegui nada sentado em casa ou debaixo de uma bananeira. Eu sou diferente”: o 1º dia de Ronaldo na Juve"

FOTO Juventus FC via Getty Images

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O primeiro dia de Ronaldo na Juve foi... previsível. Até na autoconfiança do craque

Texto Hugo Tavares da Silva

Vinte e um anos depois, Itália volta a viver um rebuliço emocional que promete encher estádios e as conversas por todo o lado. Naquele verão de 1997, Ronaldo Nazário, que marcara 47 golos em 49 jogos em ano de estreia no Barcelona, mudou-se para Milão para vestir a camisola do Inter. Os nerazzurri não ganhavam o campeonato desde 1989, por isso foram buscar o talento mais especial do futebol de então. O scudetto não chegaria (apenas a Taça UEFA em 1998), mas os bilhetes de época falaram por si: de 16 mil saltaram para 51 mil. O rapaz a quem acabariam por colar a alcunha “il fenomeno” custou perto de 30 milhões de euros.

Agora chegou o tempo de outro Ronaldo, um homem que se diz “diferente” porque outros com a idade dele, “com todo o respeito”, mudam-se para o Qatar ou China. “Foi uma decisão fácil, vendo o poderio que tem a Juventus”, começou por dizer na conferência de imprensa de apresentação no novo clube, esta segunda-feira. “Como disse muitas vezes, a Juventus é das melhores equipas do mundo. Já tinha dito a companheiros próximos que era um clube onde gostava de ter jogado. Desde miúdo. É o melhor clube italiano, está habituado a ganhar, com grandes jogadores e um grande treinador.”

Foto getty

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O jornal italiano Gazzetta dello Sport lançou há dias a pergunta “quem é o grande golpe da Serie A: Maradona-Nápoles (1984), Ronaldo-Inter (1997) ou Ronaldo-Juventus (2018)?”. O brasileiro (50,7%) ganhou com distância ao português (30,7%) e a Maradona (18,6%). Nestas coisas dos votos sabemos bem que a memória fresca e a cor do coração têm o seu peso, mas fica registada a tendência. Revelador da importância do que vivemos esta segunda-feira de tarde, em Turim, é a frase que colava essa sondagem: “A chegada de CR7 é apenas comparável às do Pibe de Oro e do Fenómeno”.

“Sou uma pessoa que gosta de pensar no presente, o presente é espetacular, eu desfruto de jogar futebol”, continuou Ronaldo na conferência de imprensa em Turim, admitindo ainda que o “gesto bonito” da ovação após o pontapé de bicicleta a Buffon foi especial. “Sempre gostei de desafios. Tem sido uma carreira de sonho, que não esperava ter feito. É mais um desafio, estou preparado, estarei muito preparado. As coisas vão correr bem. Estou bem, tranquilo e confiante.”

Cristiano Ronaldo será jogador da Juventus nas próximas quatro épocas: “Não vim para Turim passar férias”. Aos 33 anos custou mais de 100 milhões de euros e é ele quem faz os adeptos juventinos suspirarem pela orelhuda mais bonita do velho continente. A Champions escapa-lhes das mãos desde 1996. Os italianos, campeões há sete anos consecutivos, perderam as últimas cinco finais da prova. Cristiano, não fosse ele português, chegou para cantar outro fado.

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O capitão da seleção portuguesa tem queda para o fado alegre. Em Manchester foi campeão três vezes e conquistou uma Liga dos Campeões, que o empurrou para a primeira Bola de Ouro (2008), outro caso sério de amor. No Real Madrid, para onde se mudou em 2009, venceu apenas duas ligas espanholas, mas a grandeza chegou na Europa: levantou quatro canecos da Champions. Ou seja, o avançado goleia por 5-2 em Ligas dos Campeões ao novo clube.

José Mourinho acredita que estamos perante uma mudança no paradigma do futebol europeu. “O mundo vai ver a Serie A. Veem a Premier League porque é o melhor do mundo e a Liga Espanhola por causa de Messi. Agora, a Serie A transformou-se num dos mais importantes campeonatos do mundo. Parabéns à Juventus pelo golpe no mercado, que é de futebol, publicidade e marketing”, sentenciou o treinador português à rádio Tele Radio Stereo.

Enquanto morou no Santiago Bernabéu e bateu recordes dos tempos de Di Stéfano, a maior lenda do clube, Cristiano foi eleito outras quatro vezes melhor do mundo. A discreta Serie A, que está muito longe de viver o encanto dos anos 90, não contava com o melhor jogador do mundo desde Kaka (2007), o último craque a aventurar-se por aquelas andanças antes do duelo eterno Messi-Ronaldo.

Em 2009, Cristiano foi apresentado no estádio do Real Madrid perante mais de 80 mil adeptos. Naquela noite de julho, Florentino Pérez, empenhado a recriar outra equipa de “galácticos” depois de Zidane e companhia, abria a porta da eternidade. “Obrigado a todos pela vossa presença, bem-vindos ao Estádio Santiago Bernabéu. Chegou o momento. Hoje damos as boas-vindas à sua nova casa, hoje recebemos Cristiano Ronaldo.” O povo rugiu, mais parecia uma arena dos tempos do império romano.

Sorridente, o português ia batendo palmas lá no ar e ajeitava os calções. Estava esmagado por tamanha receção. Levantava os polegares para os seus novos admiradores. Enquanto caminhava naquele tapete verde, quem sabe para se sentir ainda mais em casa, escutava-se “Ronaldo, Ronaldo, Ronaldo”. Ele sorria. Estava feliz.

“Há muitos números 9 míticos, mas sem dúvida que Ronaldo vai marcar uma etapa histórico no Real Madrid”, arriscava uma jornalista de um canal espanhol. “Boa noite”, atirou. O estádio reagiu. “Jogar no Madrid era um sonho de menino. Não acredito que o estádio está cheio para me ver… (...) Agora vou contar até três e dizemos ‘hala Madrid’... Uno, dos, tres, hala Madrid!”. Foi arrepiante o eco daquele estádio. Em Turim, Ronaldo não viveu nada disso.

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Na manhã desta segunda-feira, quando chegou para os habituais exames médicos, teve um contacto comedido com os adeptos, com algumas fotografias e autógrafos, apenas após indicação do assessor da Juve. Também a apresentação de Cristiano foi discreta, enfiado numa sala com jornalistas, longe dos olhos de quem o vai adorar. Esta versão mais light parece dar razão a um taxista com quem o Expresso conversou há dias em Turim: “Aqui ele estará à vontade. Os jogadores gostam de Turim. Se fosse em Nápoles, nem podia andar na rua...”

Quem é que, afinal, chegou esta segunda-feira à Juventus? Cristiano responde: “Nunca consegui nada sentado em casa ou debaixo de uma bananeira. Estou confiante no meu futebol e nos meus companheiros da Juventus. Irei dar o meu melhor”.