ARQUIVO MITROKHIN

A simpática viúva inglesa que era do KGB

MOSCOVO O edifício que serviu de sede ao KGB FOTO REUTERS

MOSCOVO O edifício que serviu de sede ao KGB FOTO REUTERS

A propósito da investigação do Expresso sobre os ficheiros portugueses do KGB, cuja segunda parte publicamos no próximo sábado, vale a pena olhar para casos relacionados com o Arquivo Mitrokhin que deram que falar lá fora. Como a história de Melita Norwood, a simpática viúva inglesa que era do KGB

TEXTO LUÍS M. FARIA

Uma história grande pode ter muitos rostos. Falando do Arquivo Mitrokhin, a história dos segredos do KGB que um ex-funcionário dessa agência contou ao mundo, um dos rostos mais simpáticos é o de uma cidadã britânica chamada Melita Norwood. Quando o seu passado secreto veio à luz em 1999, ela tinha 87 anos. Vivia em Bexleyheath, um subúrbio de Londres, e encontrava-se viúva há mais de uma década. Entre 1937 e os anos 70, trabalhara numa associação onde se fazia investigação científica sobre metais não-férreos, entre eles urânio. A associação deu uma colaboração importante ao projeto Manhattan - o qual levou à criação da bomba atómica original pelos Estados Unidos - no período vital entre os final dos anos 30 e a primeira metade dos anos 40. Norwood era lá funcionária, antes de se tornar assistente pessoal do chefe.

MELITA NORWOOD A 'avózinha vermelha' FOTO REUTERS

MELITA NORWOOD A 'avózinha vermelha' FOTO REUTERS

Nunca tinha escondido as suas convicções políticas. Filha de uma britânica e de um letão, fora criada naquilo que hoje em dia descreveríamos como um ambiente de esquerda. As suas ideias foram reforçadas nos anos 30, durante a Grande Depressão, quando testemunhou o que a irresponsabilidade do capitalismo podia fazer às pessoas. Ver pessoas na rua a pedir para comer tê-la-á convencido de vez a dar a sua contribuição para a revolução comunista mundial. Aderiu ao Partido, e em 1935 foi recomendada ao NKVD, antecessor do KGB. A relação durou décadas, e quando Norwood se 'reformou' atribuiram-lhe uma pensão de 20 libras mensais, a par com a Ordem da Bandeira Vermelha, a condecoração mais alta do KGB.

O aspeto material não lhe interessava. "Fiz o que fiz não para ganhar dinheiro mas para ajudar a evitar a derrota de um sistema que, com grande custo, deu às pessoas comuns comida e transportes que elas podiam pagar, uma boa educação e um sistema de saúde", explicou à BBC em 1999. Havia que manter a Rússia a par da Grã-Bretanha, da América e da Alemanha, acrescentou, mas "em geral, não concordo que se espie contra o nosso próprio país". O seu falecido marido conhecia as suas atividades e não concordava, mas nunca a denunciou. A sua filha, essa, ignorava tudo.

MITROKHIN O antigo arquivista do KGB que em 1992 fugiu para o Reino Unido FOTO DR

MITROKHIN O antigo arquivista do KGB que em 1992 fugiu para o Reino Unido FOTO DR

Norwood nessa altura era uma avô tipicamente inglesa, que lidava estoicamente com as maleitas da idade, fazia marmelada, cuidava do seu jardim e falava cordialmente aos vizinhos. Eles sabiam que era comunista, até pelo seu hábito de lhes enfiar o jornal do Partido nas caixas de correio (ela comprava 32 exemplares de cada edição. Era a sua única excentricidade notória). Nos meses seguintes, transpirou que os serviços secretos britânicos estavam de olho nela logo em 1949, e nos anos 60 chegara a ser considerada a possibilidade de a acusar. Mas concluíra-se que as desvantagens superariam as desvantagens, em especial pela necessidade de revelar métodos confidenciais. Ninguém a incomodou.

A sua licença para aceder a documentos a partir de um certo nível fora cancelada há muito tempo. Ainda assim, parece que o KGB via naquela a quem chamava agente Hola o seu ativo mais precioso no Reino Unido, bem acima dos membros do famoso 'gangue de Cambridge', que acabariam por fugir para a URSS. Segundo algumas estimativas, as informações fornecidas por Norwood teriam permitido aos soviéticos construir a bomba atómica dois anos mais cedo; houve quem falasse em cinco. Mas ela recusou mostrar arrependimento. Se a quisessem prender, que prendessem. O ministro da Justiça, Jack Straw, disse que a procuradoria se tinha manifestado contra essa possibilidade, e Norwood foi deixada em paz, vivendo os seus últimos seis anos na modesta calma do seu bairro.

Um caso que deu polémica em vários países

Melita Norwood foi um caso bastante particular, por motivos óbvios. Outros agentes denunciados por Vassili Mitrokhin não tiveram a mesma sorte que ela. Quando esse ex-arquivista do KGB passou para o Ocidente em 1992, trouxe consigo uma enorme quantidade de informações, e muitas delas vinham associadas a nomes concretos. Houve antigos agentes que foram presos e condenados a penas longas pelas suas atividades passados. E houve embaraço político em diversos países. Na Índia, por exemplo, ficou-se a saber que pelo menos dez jornais (e uma agência noticiosa) recebiam dinheiro soviético. Nem a primeira-ministro Indira Gandhi escapa incólume. Malas de dinheiro seriam enviadas para casa dela, segundo alega Christopher Andrews na sua obra "O Arquivo Mitrokhin II", de 2005.

Andrews, que é o historiador oficial do MI5, tinha já publicado em 1999 "O Arquivo Mitrokhin" (em inglês "The Sword and The Shield"), a primeira obra elaborada a partir dos materiais fornecidos por Mitrokhin. Esse volume focava-se sobretudo nos países ocidentais, enquanto o segundo se ocupou do Terceiro Mundo, o terreno para o qual a Guerra Fria se deslocara a partir dos anos 50 e 60. Tanto um como o outro levaram a centenas de manchetes, e a comissões de investigação. Em Itália, o então primeiro ministro estabeleceu uma em 2002. Encerraria anos depois sem que ninguém fosse acusado, embora circulassem histórias sobre diversos políticos proeminentes, entre eles Romano Prodi.

A história mais sensacional de todas talvez seja a do próprio Mitrokhin, o homem que durante vinte anos, a partir de 1972, copiou meticulosamente documentos do KGB em papelinhos que levava nos seus sapatos e escondia no jardim da sua dacha. A sua motivação, disse mais tarde, foi documentar as ações de um regime cuja maldade ele tinha percebido com o tempo. Ciente de que seria morto caso o apanhassem, ele tomou precauções. Mas só o fim da URSS lhe permitiu abandonar a Rússia.

Aproveitando o fato de ainda ser fácil passar a fronteira para um país báltico que se tornara independente, viajou para lá em 1992. Foi à embaixada dos EUA e falou do material que possuía, mas não o levaram a sério. Dirigiu-se então à embaixada britânica, onde a atitude foi totalmente diferente, pois o funcionário conseguiu ver quem ali estava. Quando lhe ofereceram um chá, percebeu que a sua vida tinha mudado.