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Bernardo Ferrão

Andamos nisto

Bernardo Ferrão

O lado Miss Universo de Catarina Martins

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A líder do Bloco de Esquerda teve sorte quando em fevereiro escolheu arrancar as jornadas parlamentares numa viagem de comboio entre Torres Vedras e as Caldas da Rainha. Sorte porque conseguir um comboio na linha do Oeste não é tarefa fácil. Aliás, é cada vez mais penoso. O que ali se passa é apenas um exemplo da situação dramática na CP, a empresa está sem comboios e à beira do colapso. O mal é que o descalabro nos serviços públicos não se resume ao transporte ferroviário. Está a alastrar-se. A “situação de emergência” no Hospital São José denunciada pelos médicos que pediram um “plano de catástrofe” e todos os outros casos que têm surgido nos hospitais do SNS revelam um desinvestimento preocupante.

Os alertas vieram da UTAO e do FMI. O investimento cresceu menos de um terço do previsto para 2018. As feridas estão à vista. E não há cura no horizonte. Até porque sabemos que as previsões apontam para uma desaceleração económica e os fatores externos não se avizinham de feição. Bem sei que a gestão orçamental e as escolhas do Governo não são da lavra das esquerdas, mas é impossível que BE e PCP lavem as mãos. O Estado da Nação também é da sua responsabilidade.

Por isso, em dia de balanço, e depois de há uma semana ter escrito sobre o PCP, decidi concentrar este artigo em Catarina Martins. De que nos valeu a sua passagem pela linha do Oeste? Não terá o mesmo valor da fotografia de António Filipe na sala de espera de um hospital privado? As esquerdas falam muito da defesa do Estado Social e dos serviços públicos, mas na prática têm contribuído para a degradação desse mesmo Estado. Ao escolherem travar batalhas em nome de um status quo e sempre em benefício dos funcionários públicos, não estão a ignorar o resto dos portugueses? As 35 horas e os danos nos hospitais do Estado são um bom exemplo de como as conquistas do BE e PCP servem muitos mais os seus objetivos eleitorais do que ao país.

Concentro-me em Catarina Martins porque foi ela que, ao Expresso, garantiu que, nos “dois anos que faltavam”, o seu combate seria pela “recuperação dos serviços públicos”. E que se esse investimento não acontecesse seria “defraudada uma enorme expectativa do país”. A fraude está à vista. António Costa deve responder pela ilusão do fim da austeridade e de que tudo o que dizia ser possível. Afinal não é, afinal há um IP3 e tantos outros investimentos que faltam sobretudo agora que se sabe que será preciso reanimar a economia. Mas o discurso de Catarina não pode passar em branco. As escolhas que foram feitas, ou as que nunca foram prioridade, também têm a sua assinatura. O BE não só apoia o Governo como é claro na vontade de subir ao poder com o mesmo PS que critica.

Não há quem não queira melhor saúde, melhor educação ou uma dívida pública sustentável, mas uma coisa é o que se diz outra é a realidade. O discurso de Catarina Martins tem de ser avaliado sem esquecer a influência que teve no estado a que o Estado chegou. Não custa nada falar em melhores serviços públicos ou prometer melhor Estado. Mas cuidado com a retórica, estilo miss Universo, quando pede pela paz no mundo ou se angustia com a Amazónia. No concurso das belas utopias, o Bloco não devia ignorar que aquilo que deseja em público e não cumpre pode virar-se contra si.