INCÊNDIOS NA MADEIRA
“É extraordinário como uma vida inteira se pode resumir a quatro sacos de plástico do supermercado”
FOTO GREGÓRIO CUNHA / EPA
Dois dias de inferno no Funchal, três mortes, mais de mil deslocados, dezenas de casas ardidas. E a meio deste caos, o calor da solidariedade, as filas de carros para entregar roupa, água e comida a quem perdeu tudo
TEXTO MARTA CAIRES, NO FUNCHAL
Esqueletos de casas queimadas, garrafas de gás abandonadas nos passeios, gente de mangueira na mão sem tempo para falar e cães à deriva numa manhã de agosto no alto da Pena, o sítio onde o fogo matou três pessoas. Pela encosta há fumo, escarpas negras e mais histórias de medo, de fugas porta fora só com a roupa no corpo, o telemóvel e o cão ou o gato ao colo. A madrugada foi de terror aqui na Pena, na Choupana, na Achada, no centro histórico como já tinha sido a noite anterior em São Roque e Santo António, como têm sido os dias desde que o incêndio nas serras do Funchal ficou fora de controlo. 48 horas depois do fogo ter começado, as chamas continuam a rondar casas e há o perigo de passar para Santa Cruz, o segundo concelho mais populoso da Madeira.
À hora a que este texto está a ser escrito, alguns moradores das Eiras, no Caniço, em Santa Cruz, tiraram os filhos de casa e estão de mangueira na mão a molhar jardins, telhados, muros e vão continuar até ao limite a proteger os bens, as casas, os carros, tudo aquilo que consideram importante. Foi isso que fizeram os funchalenses nos últimos dois dias. Primeiro os das zonas altas, por onde as chamas espalharam o pânico na segunda-feira quando, em menos de uma hora, o incêndio se descontrolou. Arrastado pelo vento e pelo calor, que não se fazia sentir assim há 40 anos, as chamas queimaram casas e a nuvem de fumo obrigou à evacuação dos doentes do Hospital dos Marmeleiros.
A noite de vigia ao lume que ia moendo pelo mato e entre os pinheiros e eucaliptos ora ameaçava casas, ora parecia mais brando - não deu sossego a ninguém. Nas zonas altas, entre becos e caminhos apertados, entre o casario e os terrenos abandonados, quem pôde ficou de guarda de mangueira em punho e coração apertado. “Que o vento não mude, que não sopre mais uma daquelas rajadas, que o fogo fique daquele lado, que os bombeiros tenham maneira de apagar.” Eram as ideias que vinham à cabeça, que vieram à minha quando me vi também assim, de vigilância à casa do meu avô e sem saber bem o que dizer à tia velhinha que só a custo aceitou deixar as “suas coisas” e os cães.
FOTO DUARTE SÁ / REUTERS
O amanhecer iria mostrar que o que eu tinha visto era apenas uma amostra. O balanço ao primeiro dia de incêndios no Funchal apontava para várias casas destruídas, pessoas desalojadas, um autocarro da Horários do Funchal queimado, doentes transferidos, caminhos cortados e a via rápida encerrada. A noite tinha sido má e a mais quente de que havia registo na Madeira. O fogo, esse, continuava ativo em várias frentes, mas parecia ser possível controlar. A situação estava controlada, chegou a anunciar Miguel Albuquerque.
E durante duas horas, naquela acalmia estranha que costuma preceder o caos, o vento abrandou, era como se tudo estivesse à espera como as três ambulâncias à porta do Hospital Dr. João de Almada, a unidade de cuidados continuados. A retirada dos doentes só avançaria em último caso e, pelo sim pelo não, a mãe de um rapaz, doente em cadeiras de rodas, ficou, à cautela. Ser levado para uma escola, ficar no chão não seria o ideal, mas às seis da tarde o vento soprou forte e mudou de sentido. O fogo avançou depressa e evacuação também. Doentes acamados e de cadeiras de rodas foram metidos em ambulâncias, enquanto a sul do hospital surgiam inúmeros focos de incêndio. Às sete da tarde de terça-feira as chamas atingiam também a parte baixa da cidade.
Os moradores começaram então a fugir encosta abaixo, para junto do mar e na marginal, às nove da noite desta terça-feira, um enorme engarrafamento parou o trânsito. Pessoas a pé, com sacos na mão ou a puxar tróleis tentavam afastar-se do fogo e do fumo. Os dois maiores centros comerciais da baixa foram evacuados, a farmácia também - cujos funcionários tiveram tempo só de agarrar máscaras e soro, que depois foram distribuindo a quem passava por eles, alguns meio perdidos, sem saber muito bem o que fazer.
FOTO GREGÓRIO CUNHA / EPA
“É extraordinário como uma vida inteira se pode resumir a quatro sacos de plástico do supermercado”, desabafava Daniela, antiga jornalista da RDP que tinha saído de casa à pressa para ir acudir à irmã. A casa de família estava ameaçada pelas chamas e não houve tempo para mais, para trazer mais do que quatro sacos e um quadro, que devia ter muito significado para ambas. A noite prometia e cumpriu. As chamas atingiram o centro histórico do Funchal e destruíram casas e um centro comercial e obrigaram a retirar turistas de um hotel nas imediações. A situação era ainda pior na Choupana, onde o fogo levou parte do hotel Choupana Hills. Em emergência, os hóspedes foram reencaminhados para o Estádio dos Barreiros.
O amanhecer iria revelar-se mais dramático com a confirmação da morte de três pessoas e mais de mil deslocados e alojados no quartel do Regimento de Guarnição 3. A noite tinha sido ainda pior, ainda mais quente e já ninguém arriscava falar de situação controlada, nem sequer mais ou menos controlada. A boa notícia era a pequena descida da temperatura e menos vento. O fogo, esse, continuava a rondar casas, a consumir vegetação, a causar sobressalto e pânico.
E havia ainda outra boa notícia, mas à porta do quartel, onde, vindas como que do nada, dezenas de pessoas faziam fila para ir entregar comida, água, roupa, o que tinham e podia fazer bem a quem perdeu tudo. Gente de lágrimas nos olhos, emocionada, gente que tinha visto alguém, que tinha um amigo ou uma pessoa de família afetada, gente que só quis ajudar porque, como se diz muitas vezes na Madeira, “ninguém sabe para o que está”. A desgraça não escolhe e todos, do militar que confessava que a família tinha perdido duas casas no Monte ao jornalista que lutou para defender a casa, sabem mesmo que “ninguém sabe para o que está”.