I.A.

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Ana Rita Guerra

Era um táxi sem condutor, s.f.f.

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A edição inaugural da conferência sobre mobilidade autónoma e com inteligência artificial em Los Angeles, Ride AI, foi também a primeira em que os participantes puderam deslocar-se ao local do evento num táxi sem condutor. O serviço Waymo One está disponível na cidade desde novembro, uma expansão na Califórnia depois de São Francisco e Silicon Valley. Aquilo que marcas como a Tesla prometem para dentro de um par de anos já existe em funcionamento pleno: um carro que nos vem buscar à porta e leva para o destino sem ninguém a conduzir.

A experiência é confortável. Os ecrãs dentro do carro mostram o que ele vê: os carros à frente e atrás, os obstáculos, os semáforos. Indica quanto tempo vai demorar e permite escolher a música de fundo. Há uma sensação de segurança que é dada por todos estes elementos, algo que o gestor de produto da Waymo, Vishay Nihalani, disse, na Ride AI, ser algo que tem sido muito trabalhado pela empresa.

“Os humanos distraem-se, olham para o telemóvel quando não devem. Nós queríamos desenhar uma experiência em que não há distrações nem dúvidas sobre quem está no controlo”, explicou. Quem viaja num Waymo rapidamente perde receios, e é essa confiança que será essencial para tornar isto num serviço para as massas.

O exemplo que vem da China é interessante para perceber o que acontece quando a escala é maciça. Numa sessão sobre o grande mercado asiático, a engenheira Sophia Tung — que se dedica a partilhar conteúdos sobre veículos autónomos — falou sobre a gradual aceitação dos robotáxis na China e motivos para o sucesso.

“O que ressoa junto dos consumidores é a mensagem das empresas de que os carros oferecidos são sempre previsíveis, limpos e seguros”, contou. Ao contrário de uma aplicação de boleias, em que nunca se sabe que tipo de carro ou de condutor vai calhar, aqui é tudo previamente estabelecido. “Para as mulheres, que não querem entrar num carro com qualquer pessoa, é a oportunidade de irem sozinhas”, continuou. “Podem ter uma viagem muito confortável e obter massagens.”

<span class="creditofoto">FOTO Smith Collection/Gado/Getty Images</span>

FOTO Smith Collection/Gado/Getty Images

Este é um dos extras que a sexta geração dos carros Apollo Go — subsidiária da Baidu — oferece. O viajante pode selecionar entre três tipos de massagem e os assentos reclinam até 120°, permitindo tirar uma sesta durante a boleia. Com controlos de voz, podem ajustar a temperatura e aceder a funcionalidades desenhadas para pessoas com problemas visuais.

“As pessoas estão a aceitar melhor. Já não é louco ou assustador”, frisou Tung. “É o conforto, a mensagem e o produto, que não pode parecer que é uma experiência científica.”

Mas há uma grande diferença na forma como o Governo chinês está a fomentar a tecnologia autónoma e as abordagens nos Estados Unidos e na Europa, com diferentes tipos de regulação e certificação. A China está a abraçar os carros autónomos mais rapidamente, os EUA estão a fazê-lo apenas de forma limitada e a Europa tem um enquadramento difícil. Não só por causa da quantidade monstruosa de dados que estes sistemas têm de recolher, mas também pela divergência de regras de trânsito locais e até regras sobre seguros. O formato das ruas europeias é outro obstáculo, com muitas vias estreitas e por vezes labirínticas. Estive dentro de um Waymo enquanto fazia uma inversão de marcha prodigiosa numa colina de São Francisco, mas não sei se conseguiria fazer a mesma coisa tão facilmente numa rua do Bairro Alto ou da Mouraria.

É aqui também que entram os avanços da IA generativa, permitindo simular cenários complexos para treinar os veículos de uma forma que nem os testes na estrada conseguem. Daryn Nakhuda, diretor de software da Waabi (para camiões autónomos) chamou-lhe “realismo de simulação”. E Gill Pratt, CEO do Toyota Research Institute, apontou que a IA generativa e os grandes modelos de linguagem (LLM) estão a encurtar a distância para realizar a visão de carros autónomos que falhou na última década. O motivo é curioso: “Os humanos conseguem prever o que os outros condutores, peões e ciclistas vão fazer. Temos empatia, a tecnologia não”, explicou. “Agora, na era dos LLM, estamos muito mais perto.”