Rui Tavares

A semana em que Chomsky não morreu

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Se somos formados pelo mundo em que nascemos, o mundo em que Noam Chomsky nasceu é bem diferente do de hoje. Chomsky nasceu e cresceu num ambiente duplamente minoritário, enquanto judeu e anarquista

Porque raramente começo um texto sem ter um prazo a rebentar-me em cima da cabeça, dificilmente alguma vez cometerei um erro de cronistas mais organizados do que eu: escrever obituários em vida, como esta semana aconteceu aos que acreditaram nas notícias da morte de Noam Chomsky e enviaram para as redações os textos que já tinham preparados, ou que viram as redações publicar os textos que lhes haviam encomendado para o caso de Chomsky um dia morrer (foi o que aconteceu à “New Statesman” e a Yanis Varoufakis, por exemplo). Mesmo sendo certo que toda a gente morre, não consigo escrever sem ter a certeza de que é mesmo preciso fazê-lo. Mas isso dá-me um excelente pretexto para escrever sobre um assunto mais alegre: não só Noam Chomsky está vivo como saiu bem-disposto do hospital da Beneficência Portuguesa em São Paulo. E, pensando bem, não há nada mais urgente do que a vida.

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FOTO Uli Deck/picture alliance/Getty Images

De pouquíssimos intelectuais públicos se pode dizer que estão em condições de comemorar em vida os 85 anos do seu primeiro artigo político. Mas é o caso de Chomsky: foi em 1939, tinha ele dez anos, que publicou um primeiro artigo político no jornal da sua escola, em Filadélfia, sobre a Guerra Civil de Espanha. A primeira frase dizia algo como “a Checoslováquia caiu, a Áustria caiu, e agora cai Barcelona”. A ordem dos fatores é historicamente correta: a anexação dos sudetas na Checoslováquia, e o “anschluss” da Áustria pela Alemanha nazi ocorreram ainda antes do fim da Guerra Civil Espanhola. No início de 1939 a impressão com que viviam os antifascistas era a de que as democracias liberais, fossem elas monárquicas como o Reino Unido ou republicanas como a França, estavam mais preocupadas em acomodar as exigências dos fascistas e dos nazis do que em defender a soberania dos povos que estes atacavam. E, mais tarde nesse ano, ao perceber-se que Hitler e Estaline se tinham entendido para dividir a Polónia entre si, a URSS poderia ser agregada à lista dos apaziguadores do nazi-fascismo. Só mais tarde, depois da ocupação da França e da invasão da própria URSS — centrada nos territórios ucranianos —, foi forjada a aliança que haveria de finalmente derrotar o nazi-fascismo. Para quem vivia naquele ano de 1939, a sensação era a de que os fascismos obtinham aquilo que queriam, e que o obtinham perante a complacência e a cumplicidade tanto das “democracias burguesas” como da “ditadura do proletariado”.

Se somos formados pelo mundo em que nascemos, o mundo em que Noam Chomsky nasceu é bem diferente do de hoje. Chomsky nasceu e cresceu num ambiente duplamente minoritário, enquanto judeu e anarquista. O seu pai foi um dos gramáticos que reinventou a língua hebraica para o uso moderno, e a família Chomsky participava nos meios sionistas de esquerda — uma das coisas que é preciso saber para entender a oposição de Chomsky ao Governo de Israel é que conhece bem Israel, lê hebraico e chegou a viver num kibutz. Mas um tio de Chomsky em Nova Iorque fazia parte dos meios anarquistas que tinham sido muito prevalecentes entre os imigrantes judaicos, e foi nessas discussões tidas na banca de jornais do tio que Chomsky se formou como socialista libertário, simultaneamente opositor ao marxismo autoritário e às oligarquias capitalistas.

É esse Chomsky de origens imigrantes e trabalhadoras que chega à academia de maneira relativamente fortuita — desde logo com apenas o primeiro capítulo da sua tese, que lhe valeu o doutoramento direto — e cuja importância na linguística moderna, na filosofia da linguagem e na ciência cognitiva não pode ser subestimada. E é esse académico de mérito que se envolve na luta contra a guerra do Vietname e se torna a celebridade que é hoje. E é esse Chomsky que não morreu esta semana. Um dos poucos intelectuais públicos globais e provavelmente o maior na transição do século XX para o XXI, de que este texto não é um obituário. Mas sem entender a sua formação enquanto jovem judeu e anarquista, angustiado com o avanço do fascismo e com a falta de solidariedade das chancelarias internacionais, é difícil entender como o resto do seu percurso foi acontecer.