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Alojamento Faro, com aumentos de 25%, e Coimbra, com 21%, são as cidades mais inflacionadas a nível nacional

Preços dos quartos para estudantes em Lisboa aumentam 19%

As federações de estudantes de Lisboa e Porto antecipam um início de ano letivo muito difícil para os estudantes devido à falta de alojamentos <span class="creditofoto">FOTO getty images</span>

As federações de estudantes de Lisboa e Porto antecipam um início de ano letivo muito difícil para os estudantes devido à falta de alojamentos FOTO getty images

Elisabete Soares

Os preços dos quartos para estudantes estão, em média, 19% mais caros do que há um ano, na cidade de Lisboa, segundo os dados apurados pela plataforma imobiliária ibérica BQuarto.

A mesma fonte conclui ainda que no conjunto dos principais centros estudantis a nível nacional os aumentos de preços variam entre 12% a 15%.

Várias fontes do sector confirmam ao Expresso que estamos perante uma redução da oferta de quartos para estudantes universitários e um aumento generalizado dos valores das rendas praticados pelos proprietários e operadores privados, no arranque do novo ano letivo de 2023/24.

Esta situação é também confirmada pelas duas maiores federações académicas do país, Lisboa e Porto, que destacam que apesar das promessas das entidades públicas de que a situa­ção dramática que viveram muitos estudantes no início do último ano letivo, não voltaria a repetir-se, afinal pouco ou nada se fez, e a situação vai voltar a repetir-se. Isto porque algumas das residências públicas estão a realizar obras de remodelação e não vão abrir no início do ano letivo e as novas residências que foram anuncia­das vão disponibilizar pouca oferta, sendo que a maioria ainda está em construção, ou simplesmente ainda nem avançaram.

“Efetivamente, prevemos que em setembro não haja grande oferta de quartos” e “não vemos grandes alternativas para os estudantes”, destaca Catarina Ruivo, presidente da Federação Académica de Lisboa.

A mesma ideia é transmitida por Ana Gabriela Cabilhas, presidente da Federação Académica do Porto — que, tal como em Lisboa, representa as associações dos principais estabelecimentos de ensino superior. “O cenário não é bom”, acaba por confessar Ana Gabriela, destacando que “mais um ano e novamente corremos o risco de ter estudantes e não termos alojamento para eles”.

Aliás, para Ana Gabriela, “neste domínio, a execução do PRR (Programa de Recuperação e Resiliência) não merece nota positiva”, não apenas nas medidas para a construção de residências novas, mas também “na baixa cobertura na requalificação das existentes”.

Mas a sua preocupação estende-se também ao programa Mais Habitação, onde o segmento das residências de habitação “ficou à margem”, bem como no “programa de arrendamento acessível”.

Catarina Ruivo complementa que, “atualmente, a oferta da Universidade de Lisboa é de 1155 camas, divididas em 13 residências”, sendo que algumas residências estão com obras de remodelação “previstas terminarem apenas em outubro”.

No caso dos preços médios de arrendamento por mês, Lisboa assume a liderança com €438; Faro com €363; Porto €354; Aveiro €333 e Braga €313

“O objetivo é a construção de 1360 novas camas até 2027 (segundo o plano estratégico). Contudo, atualmente em construção está apenas o “edifício 1 — de um complexo de 910 camas — com uma oferta de 335 camas, que está praticamente pronta”. A restante oferta nova só será disponibilizada mais tarde.

De destacar que a primeira fase do Concurso Nacional de Acesso ao Ensino Superior público — que abriu no dia 24 de julho — terá 54.036 vagas destinadas ao concurso nacional e 697 vagas destinadas aos concursos de escolas locais, num número total de 54.733 vagas. Segundo os dados mais recentes, divulgados pela Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, em agosto do ano passado, o número de inscritos no ensino superior — público e privado — atingiu o maior valor de sempre, com 433.217 inscritos nas universidades e politécnicos.

Apesar de a maioria dos estudantes que concorreram ao ensino superior ainda não saber o local exato onde vão ser colocados — os resultados da primeira fase têm prevista a publicação no dia 27 de agosto — muitos estudantes tentam nesta altura reservar um quarto. E este facto leva a que a procura seja já muito significativa, visível nas dezenas de contactos relativos aos anúncios que os proprietários colocam nos sites de oferta de quartos.

Luísa (nome fictício da proprietária) conta ao Expresso que cerca de duas horas depois de colocar um anúncio de “um quarto individual, numa casa partilhada, localizada em Paranhos, no Porto, por um valor de 250 euros + despesas,” tinha mais de 100 respostas — sendo que a maioria eram de estudantes a pedir a reserva para setembro.

De acordo com os dados fornecidos ao Expresso pela plataforma BQuarto — site ibérico dedicado à colocação de anúncios de oferta e procura de quartos privados — os preços de arrendamento apresentam aumentos médios da ordem dos 12% a 25%, se compararmos o primeiro semestre de 2022, com 2023.

Assim, de acordo com António Costa, gestor do BQuarto, Faro, com 25%, Coimbra, com 21%, e Lisboa, com 19%, são as cidades onde os preços dos quartos têm apresentado maior crescimento. Segue-se o Porto e Aveiro, com 13%, e Braga com 12%.

No caso dos preços médios de arrendamento por mês, Lisboa assume a liderança com €438; Faro com €363; Porto €354; Aveiro €333; Braga €313 e, por fim, Coimbra com €282.

O sector queixa-se de que no Mais Habitação o segmento das residências “ficou à margem”, bem como no ‘arrendamento acessível’

Apesar de serem criticados porque os preços das rendas praticados são elevados, as residências privadas — a maioria de operadores internacionais — acabam por ajudar a resolver o problema da falta de alojamento para estudantes no país. Pedro Botelho Moniz — empresário que lidera a StudYou, único player nacional com presença neste mercado, adverte que “depois de muitas promessas públicas de que ia criar-se mais oferta de alojamento, continuam a ser os privados a resolver o problema”.

Com uma residência de 220 quartos individuais, em operação desde setembro de 2021, em Paranhos, Porto, a StudoYou vai iniciar a construção de um novo projeto em breve — localizado ao lado — com 320 quartos, e iniciou o licenciamento de um novo projeto na Alta de Lisboa.

Sobre os preços dos quartos na residência StudYou — gerida pelo CRM Students —, iniciam-se nos €459/mês, incluindo despesas, e são, na opinião de Pedro Moniz, os adequados tendo em conta a atual conjuntura económica.

Outro dos grandes operadores, com duas residências privadas de estudantes, com mais de 1200 camas — que faz com que seja o maior player na cidade do Porto —, a Liv Student confirmou que os “valores para o ano letivo 23/24 tiveram um incremento médio de cerca de 7%”.

Carla Mendes, responsável da Liv Student, destaca que “relativamente aos preços, nos estúdios começam nos €464/mês”. Já os quartos em apartamentos partilhados — duplos ou individuais —, “podem contar com preços a partir de €399/mês”. Acrescenta, “em termos de ocupação, atualmente estamos praticamente esgotados”.

Já a informação da Livensa Living refere que “tendo em conta os aumentos do IPC (Índice de Preços no Consumidor), dos custos de energia e de pessoal associados a cada uma das residências e ao serviço prestado, tivemos de ajustar os nossos preços em relação ao ano anterior”, destaca.

O operador tem um total de cinco residências no país: duas em Lisboa, no Marquês de Pombal, com 330 camas, e na Cidade Universitária, com 589 camas; duas no Porto, a Porto Campus, com 723 camas (a maior residência Livensa da Península Ibérica), e a Porto Boavista, com 382 camas, e a Coimbra Rio, com 446 camas, em Coimbra.

Sobre os preços nesta unidade de Coimbra, a “título de exemplo”, o operador refere que “variam consoante o tipo de quarto, a duração da estadia e o momento da reserva”. Assim, acrescenta que “uma cama num quarto duplo começou por custar €302/mês, no início da época de vendas relativa à época de 2022/23, para um contrato de um ano inteiro, enquanto um quarto single standard estava a €441/mês, com os preços no final da época a subirem até aos €935/mês para um quarto individual premium para uma estadia curta de menos de 3 meses”.

A cadeia Xior, com unidades no Porto, na Asprela e em Lisboa, no Lumiar, Benfica, Alameda, Alvalade, destaca que a atualização de preços vai dos 0% até aos 15%, de acordo com as tipologias e as diferentes localizações.