As vozes de uma orquestra
Fotografias Pedro Pina
Quando uma orquestra faz 60 anos, quanto tempo viveu? Quantas vidas por ela passaram? A Orquestra Gulbenkian chegou a essa idade e celebrou-o em digressão
TEXTO LUCIANA LEIDERFARB EM VIENA, MUNIQUE E COLÓNIA
Não há forma de o Musikverein perder a solenidade. Mesmo vazio, continua a impor respeito. É nada menos que a Meca musical vienense, aberta em 1870, quando a cidade era o centro artístico europeu. Na altura, o alemão Johannes Brahms vivia lá há meia dúzia de anos. Nesta sala estreou várias obras, entre as quais a 3ª Sinfonia, que a crítica qualificou de “quase perfeita”. Quantas vezes a terão ouvido estas paredes? Hoje, uma nova orquestra a soma-se a esse longo inventário. A Orquestra Gulbenkian (OG) toca aqui pela primeira vez na sua história, no virar dos seus 60 anos. Em idade cósmica, isso equivale a apenas um segundo. Em idade humana, ao início da velhice. Mas o que é o tempo para uma orquestra?
O passado constrói o presente. Em 1962, em Viena celebrava-se o 150º aniversário da Sociedade dos Amigos da Música, para a qual o Musikverein foi erigido. Acontecia a crise dos mísseis de Cuba, o Brasil vencia o Mundial, morria Marilyn Monroe, a Argélia conquistava a independência. Em Portugal, panfletos da marcha pelos direitos das mulheres circulavam clandestinamente e os universitários rebelavam-se contra o regime salazarista. No Teatro D. Maria II, a 22 de outubro, realizava-se um concerto alusivo a Debussy por uma desconhecida Orquestra de Câmara Gulbenkian, formada por 13 músicos — sete violinos, duas violas, dois violoncelos e um cravo. O maestro era Lamberto Baldi e no programa de sala lia-se: “Para todos.”
Nesse ano nascia Maia Kouznetsova, na localidade russa de Sverdlovsk. Os pais enviaram-na para uma escola ‘especial’ de música e daí para o Conservatório de Moscovo. Naquele tempo e geografia, tocar um instrumento era coisa séria e a viola nunca foi um passatempo. Por isso, não admira que Maia acabasse na Orquestra Filarmónica daquela capital, onde esteve até o regime soviético colapsar e os “anos difíceis” de 1990 começarem. “Houve uma enorme crise financeira, ninguém queria ouvir falar de música”, conta ela, evocando como decidiu vir para Portugal com o marido contrabaixista e o filho, então criança. Seis meses depois concorreu para um lugar na Orquestra Gulbenkian e ficou, já lá vão 25 anos, durante os quais o filho cresceu e Portugal gerou várias fornadas de “músicos talentosos”.
Uma orquestra em digressão é um mar de gente que se desloca em ondas cronometradas ao segundo
Uma orquestra em digressão é um mar de gente que se desloca em ondas cronometradas ao segundo. Para realizar o concerto de sexta-feira em Viena, 40 volumes contendo instrumentos deixaram Lisboa na quarta, em autocarros que, demorados pelo trânsito parisiense, só chegaram à capital austríaca a meia hora do ensaio. Alguns músicos perderam a ligação Madrid-Viena e tiveram de pernoitar em Espanha. Porém, à hora da chegada do maestro Lorenzo Viotti ao Musikverein, o grupo estava completo — e pronto. Viotti não precisou de ensaiar demasiado. Como titular entre 2018 e 2021, conhece bem a adaptabilidade deste grupo que a sala aplaudiu de pé, depois do Brahms, de uma peça de Peter Vasks e de um conjunto de peças portuguesas entoadas pelo Coro, incluindo um fado que, aqui e ali, emocionou a assistência.
Para deslocar 140 músicos entre Viena e Munique são precisos dois grandes autocarros. O concerto decorrerá na Isarphilarmonie — a sala que abriu em 2021 para acolher a Filarmónica de Munique durante o restauro da sua sede. Há muito que esta cidade faz parte dos itinerários da OG e dos seus (agora) 55 efetivos. A mais antiga de todos, a violinista Alexandra Mendes, com 41 anos de casa, está quase a reformar-se. Entrou em 1981, aos 19 anos, acabada de chegar da Suíça, onde fora bolseira na Academia Internacional Yehudi Menuhin. Nesse ano, a orquestra tinha 40 elementos e tocava sobretudo repertório clássico. Alexandra estava lá quando, em 1988 e por mais de uma década, o maestro chinês Muhai Tang comandou a incursão em novos territórios musicais, ou quando o norte-americano Lawrence Foster, titular entre 2002 e 2013, a “levou ao seu máximo potencial”.
Hoje é menos comum iniciar tão cedo a vida profissional. Mas é o que aconteceu a Telmo Costa, que aos 19 anos vencia o concurso para o lugar de 1º clarinete. Millennial nascido em Santa Maria da Feira, começou a estudar o instrumento aos sete anos, seguindo os passos do pai, trompetista amador. Aos 22 ainda é o mais novo do grupo, o que não o atrapalha. “É um orgulho enorme. Não sinto que os mais velhos marquem essa diferença”, diz enquanto aguarda pelo concerto em Munique. Os bastidores espelham as suas palavras: ‘os mais velhos’ convivem com toda uma geração de novos profissionais, alguns vindos de fora, outros formados em Portugal.
“Há uma grande renovação neste momento, pessoas a entrar e a sair”, confirma Varoujan Bartikian. Ele é o músico mais velho em funções e, aos 62 aos, já ultrapassou em dois a idade da reforma dos elementos da OG. “Isto não é um trabalho, mas um serviço à música”, gosta de frisar, não fosse a música a “paixão” da vida dele. Este violoncelista arménio, natural de Yerevan, estabeleceu-se em Lisboa, junto com outros quatro conterrâneos, em 1989, após serem selecionados em audições promovidas pela Fundação na capital arménia. Veio casado e com um filho de três anos, hoje um médico de 34 — menos um do que o pai à chegada a Portugal. Nunca, diz Varoujan, se sentiu um estrangeiro.
Curioso é o modo como a história dos seus antepassados se cruza com a do próprio Calouste Gulbenkian. Tal como magnata do petróleo que esteve na origem da instituição lisboeta, os avós de Varoujan pertenciam à comunidade arménia da Turquia. O avô graduara-se em jornalismo em Oxford antes de regressar a Ismir, e nada o fazia prever que tivesse de fugir para sobreviver ao pogrom turco de 1915, no qual morreram 1,5 milhões de arménios. “Já não havia navios para os Estados Unidos, por isso o meu avô embarcou para Atenas”, conta o violoncelista. Ali nasceram os pais que, sem se conhecerem, seriam repatriados no mesmo barco em 1946. Primeiro músico da família, pouco hesita se lhe perguntarmos qual o momento mais duro que viveu na Orquestra Gulbenkian: “A morte do meu pai.” E o mais comovente? “Ter tocado como solista o ‘Dom Quixote’ de Richard Strauss.” Adorava poder repeti-lo antes de se reformar.
Uma orquestra é um ser com muitas mãos. E muitas nacionalidades. Os concursos são internacionais e, na Gulbenkian, desde os anos 1990 que se fazem ‘provas cegas’, em que os candidatos tocam sem serem vistos pelo júri. Antonia Chandler concorreu em 2021 e é uma das mais recentes ‘aquisições’ do agrupamento. Veio de Londres em finais desse ano para integrar o naipe das trompas. Após um ano de trial — período de experiência — tornou-se, em outubro, membro efetivo da orquestra. Mas a história desta trompista de 28 anos que toca desde os 11, nascida em Seattle, nos Estados Unidos, estudante em Yale e que fez parte da Orquestra Sinfónica da Cidade de Birmingham, tem laços que a ligam a Portugal muito antes de nascer. A mãe, Andrea Chandler, foi violoncelista da OG entre 1983 e 1988. Em Lisboa conheceu o pai de Antonia, um militar norte-americano que aqui se encontrava a trabalhar. Recuando ainda mais, os avós e bisavós também aqui residiram, convertendo-a na quarta geração a refazer o percurso.
Em Colónia, o violoncelista Martin Henneken pôde reencontrar os pais, vindos de uma terra próxima da fronteira com a Holanda. Já no concerto de Viena tinha recebido a visita da irmã mais nova, a residir na cidade. Martin também ali se formou e viveu, chegando a tocar dois anos na famosa Orquestra Filarmónica. O Musikverein era um dos seus espaços quotidianos até, em 2010, ingressar na Gulbenkian. Numa década, alguns rostos mudaram, o que vai alterando o som, a personalidade da orquestra enquanto instrumento coletivo: “Não se deve subestimar o impacto individual num coletivo tão grande. Numa orquestra estamos sempre a reagir aos outros.”
Que o digam Alla Javoronkova e Ana Beatriz Manzanilla, russa e venezuelana, e colegas de estante nos primeiros violinos há 15 anos. Partilhar-se a estante não é coisa pouca, é “algo assim como um casamento”, brinca Ana Beatriz, enquanto Alla confirma ser necessário “conhecimento mútuo e companheirismo”. Ambas presenciam as inseguranças da outra, os ‘dias maus’ — também as alegrias, os concertos bem-sucedidos, a vertigem de algumas partituras. Como muitas vezes acontece nas orquestras, parecem vir de mundos opostos que a música uniu. Mas não só. Une-as o facto de serem democratas, naturais de países que “hoje não o são”.
Chegada em 1991 de Moscovo, onde se formou e foi recrutada pela OG, Alla é uma das três instrumentistas russas da orquestra e a única que participou no concerto de apoio à Ucrânia em março deste ano. “Toquei o hino ucraniano, porque sinto uma tristeza enorme com esta guerra”, explica. Reage, porém, contra a onda de cancelamento de artistas e desportistas russos que se alastra pelo mundo fora. “Vemos jovens banidos de competições só pelo facto de serem russos. Eles não deveriam sofrer pelas ações de um ditador.”
Ana Beatriz aterrou em Portugal com o marido, violetista, em 1996. Vinham de Cracóvia e integraram a Orquestra do Norte antes de ela se fixar na da Gulbenkian. Nessa altura, os naipes estavam a alargar-se para responderem aos propósitos artísticos de Muhai Tang e depois de Lawrence Foster, que ela identifica como representando “um antes e um depois”. A orquestra “fez digressões internacionais, duplicou as gravações, tocou com os melhores pianistas do planeta”. Para esta violinista formada pelo método El Sistema, em que a Venezuela foi pioneira, “é muito fácil o trabalho numa orquestra cair numa rotina e a energia tem de ser usada para, diariamente, reencontrar a chama pela qual nos tornámos músicos”.
Nesta digressão, a OG despediu-se do suíço Lorenzo Viotti, que transitou para a Netherlands Philharmonic. Dias depois, ficou-se a saber que o próximo regente será o finlandês Hannu Lintu. Porque, 60 anos depois do primeiro dia, é preciso manter a chama acesa. Leonor Braga Santos irá reformar-se em 2023. Será o final de uma carreira totalmente dedicada à orquestra, para onde entrou em 1988, ano em que regressava dos estudos em Colónia e em que o pai, o compositor Joly Braga Santos, grande sinfonista que Portugal de vez em quando esquece, morria a 18 de julho. Trinta e quatro anos passados no naipe das violas, está a pensar no que fará. “É uma incógnita. Voluntariado, viajar... Ou improvisar.” Não é algo a que um músico guiado por horários rígidos e estudo intensivo esteja habituado. Mas, para tudo, há sempre uma primeira vez.
O Expresso viajou a convite da Fundação Gulbenkian