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Relativamente sério
Michel Houellebecq (Reunião, 1956) é um dos mais importantes escritores franceses da atualidade, autor de romances como “A Possibilidade de Uma Ilha” e “Submissão” Michele Tantussi/Getty Images
Nestes ensaios, Michel Houellebecq verbaliza a posição de um conservador intelectual a expor um dispositivo coerente — e polémico — de ideias
TEXTO LUÍS M. FARIA
Ao encontrar algumas peças desta coleção pela primeira vez, um leitor desprevenido poderá suspeitar que talvez o autor não seja para levar inteiramente a sério. Um título como “Donald Trump é Um Bom Presidente”, vindo de alguém que não se chama Vladimir Putin nem é político republicano, líder evangélico ou redneck do Alabama, sugere, à partida, vontade de captar as atenções. No entanto, nem sempre as coisas são exatamente o que parecem. Em 2019, quando o ensaio em questão foi publicado na revista “Harper’s”, Trump não ia mal encaminhado para a reeleição. A economia, que é geralmente o fator principal nas presidenciais americanas, encontrava-se em alta; os EUA não se tinham metido em aventuras militares mal pensadas no estrangeiro; alguns abusos demasiado ostensivos da China no plano económico estavam finalmente a ser confrontados; e o nacionalismo isolacionista tinha ganho tração em vários outros países pelo mundo fora, a par com as posições anti “correção política” que, nalguns casos, já se traduziam em retrocessos democráticos e civilizacionais, mesmo em países europeus. O labrego milionário de Queens, visivelmente corrupto e ignorante como era, estava longe de se achar sozinho no mundo, e os democratas não pareciam capazes de encontrar uma alternativa à altura, divididos entre uma minoria progressista desfasada da sociedade e um centrismo que há muito não produzia ideias novas. Foi precisa uma pandemia e centenas de milhares de mortos para expor a dimensão da incompetência e do narcisismo criminoso do homem que Michel Houellebecq elogia por alguns dos motivos atrás referidos e cuja substituição se tornou um imperativo urgente que passou acima de qualquer outro.
Outras posições nada consensuais de Houellebecq ganharam força nos últimos anos. Ele é contra a moeda única e a União Europeia (viva o ‘Brexit’), contra o comércio livre internacional, contra o feminismo (a prossecução da igualdade nas empresas e no lar terá “reduzido a nada”, no espaço de uma geração, um “imenso trabalho do domesticação” dos instintos primitivos do homem que levara séculos a dar fruto), contra o ecumenismo religioso (na sua opinião, a Igreja Católica apenas deve tentar aproximar-se da Ortodoxa, que soube preservar os valores originais; jamais de outras, em particular do Islão) e contra a eutanásia. É a favor de entendimentos com Putin e da ficção cientifica, género que considera ter dado mais à literatura num único romance, talvez numa única novela, do que o nouveau roman por junto. Tudo isso aparece neste livro, em ensaios, memórias pessoais, entrevistas e outros textos publicados durante três décadas a partir dos anos 80. Segundo o autor explica no prefácio, 55 por cento do material já constava da primeira edição original de “Interventions”, e não haverá mais nenhuma. Como se ele estivesse farto de dar opiniões; quer dizer, de alguma forma, de tentar atuar sobre o mundo. A ideia (implícita) de que este é basicamente irreformável liga bem com a imagem hostil que o autor foi criando ao longo dos anos — já ouvi mais do que uma mulher descrevê-lo como repulsivo, e o seu aspeto físico é obviamente o lado menor da questão —, com polémicas sucessivas a acompanhar uma brilhante carreira literária que fez dele o romancista francês mais importante da sua geração.
Esta é uma boa introdução a uma mente sofisticada que nunca deixamos de achar interessante, mesmo quando discordamos dela
É verdade que Houellebecq abusa de qualificativos como estupidez, que normalmente dizem mais sobre quem os usa do que sobre o objeto a que se referem, independentemente da gratificação que dão a muitos leitores. Mas por trás do dispositivo retórico há um conjunto relativamente coerente de ideias, expresso com uma inteligência intensa e uma concisão não raro mortífera. Houellebecq, como outros autores, acredita que o Ocidente entrou em declínio. “No plano científico e técnico, o século XX pode ser equiparado ao século XIX. No plano do pensamento, pelo contrário, a derrocada foi tremenda, sobretudo depois de 1945, e o balanço desolador”, diz. Parte da responsabilidade cabe aos intelectuais: “A literatura não serve para nada. Se servisse para alguma coisa, a ralé esquerdista que monopolizou o debate intelectual ao longo do século XX nem sequer teria existido. (...) Marxistas, existencialistas, anarquistas e esquerdistas de todos os tipos puderam prosperar e infetar o mundo conhecido, exatamente como se Dostoiévski nunca tivesse escrito uma linha (de “Os Demónios”, o romance de 1872 sobre o terrorismo russo). Terão eles ao menos apresentado uma só ideia nova em relação aos seus predecessores do romance? Nada, nem uma. Este foi um século para esquecer, um século que não inventou nada. Ainda por cima, pomposo até dizer chega. E que gosta de colocar, com gravidade, as perguntas mais idiotas, do tipo: ‘Poderemos escrever poesia depois de Auschwitz?’”
Em suma, é a posição de um conservador temperamental, própria de alguém que já tem problemas suficientes na vida, como toda a gente, e quer acima de tudo que o deixem em paz — desde logo, a nível político e social. “A inovação cansa”, escreve Houellebecq. “Qualquer rotina, boa ou má, tem a vantagem de ser justamente rotineira, ou seja, de poder ser seguida com um esforço mínimo. A raiz essencial de qualquer forma de conservadorismo é a preguiça intelectual. Ora, a preguiça, porque leva à síntese e à procura dos traços comuns, além das diferenças superficiais, é intelectualmente uma virtude poderosa.” Citando uma frase de Goethe segundo a qual mais vale uma injustiça do que uma desordem, Houellebecq considera-a “só aparentemente cínica, se tivermos em conta o poderoso fermento de injustiças que qualquer desordem provoca”.
Pese o que alguns dos seus preconceitos têm de desagradável e o exagero manifesto de algumas das suas conclusões, o pensador Houellebecq acaba por ser quase simpático. Não surpreende realmente vê-lo a reconhecer a superioridade da bondade, enquanto virtude, sobre a inteligência e o talento. Ou a defender que, no limite, basta uma pessoa ainda ser capaz de sonhar (no sentido literal) para a sua vida ter valor, e portanto ter direito a ser vivida. Na sua diversidade de temas e formatos, “Intervenções” é uma boa introdução a uma mente sofisticada que nunca deixamos de achar interessante, mesmo quando discordamos dela. Aqui e ali, sentimos que o autor se deixa entusiasmar um pouco com a sua própria facilidade verbal. Mas até esses momentos merecem atenção, quanto mais não seja enquanto fragmentos de autobiografia intelectual.