A vida na fábrica da morte

Mais de 22 mil pessoas já visitaram o Museu do Holocausto do Porto, desde que abriu portas a 5 de abril. É o primeiro na Península Ibérica e foi erguido pela Comunidade Judaica do Porto <span class="creditofoto">rui duarte silva</span>

Mais de 22 mil pessoas já visitaram o Museu do Holocausto do Porto, desde que abriu portas a 5 de abril. É o primeiro na Península Ibérica e foi erguido pela Comunidade Judaica do Porto rui duarte silva

O Museu do Holocausto, inaugurado no Porto em abril, esmaga o público com a recriação fiel de uma casamata do campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau. Mostra-se a industrialização da morte montada pelo III Reich, sem deixar de se louvar a vida

TEXTO ANDRÉ MANUEL CORREIA

Doía muito, ainda dói”, confessa Nadia, nome aportuguesado adotado por esta mulher de 96 anos quando chegou ao Brasil, onde criou raízes e filhos, vivendo em paz até hoje em Salvador. Nem sempre assim foi. Nem sempre assim foi chamada. Chaja Nacha Lassman, nome polaco de batismo, nasceu a 20 de fevereiro de 1925 e tinha 14 anos quando acordou num pesadelo.

Corria o primeiro dia de setembro de 1939 e a Alemanha invadia a Polónia. Era o início do avanço nazi, movido pelo antissemitismo sistémico, rumo à solução final arquitetada pelo III Reich, quando a ideologia nacional-socialista convenceu o povo germânico de que uma minoria era a causa da maioria dos seus problemas. Os judeus eram acusados de tudo, desprezados por todos, com a máquina de propaganda orquestrada por Goebbels a propalar a narrativa de que uma maquiavélica elite israelita alavancava simultaneamente o capitalismo de Wall Street e o comunismo da União Soviética.

O plano para aniquilar um povo foi altamente organizado. Primeiro, tiraram-lhes os empregos. Mais tarde, concentraram-nos em guetos. Depois, deportaram-nos. Tudo isto até chegarem à solução final de Hitler, já preconizada em “Mein Kampf”.

“A gente não valia nada. Ninguém ia dar um centavo pela minha vida”, recorda Nadia, uma sobrevivente do Bloco 10. “Eu estive em Auschwitz, no bloco de experiências científicas. Achava que nunca iria ter filhos, de tanto que me mexeram, sei lá o que me fizeram”, desabafa, em português do Brasil, com a voz e as mãos trémulas. “A gente estava tão assustada, esfomeada, maltratada e sem banho que eu nem sei explicar como foi possível sobreviver. O ser humano não é capaz — nem eu, que passei por isso — de entender como ainda sou uma pessoa... digamos, normal”, relata Nadia. “Foi a coragem da mamã que me salvou. Se não fosse o apoio dela, os cuidados para me agasalhar, para me trazer alguma coisa de comer, não sei se teria sobrevivido”, admite.

“Quando terminou a guerra, nós estávamos trancados em barracas. Depois de horas e horas, a gente atreveu-se a abrir a porta. Aí vimos que não tinha mais ninguém”, lembra Nadia Lassman, que nunca mais voltou a reencontrar a “irmãzinha” e o pai, levado pela Gestapo quando orava com um grupo de judeus. “Depois da libertação voltei à minha cidade para ver quem sobrou. Fui procurar a minha família, mas não havia ninguém.”

O intenso testemunho de Nadia é mostrado, em vídeo, às mais de 22 mil pessoas que já visitaram o Museu do Holocausto do Porto desde que abriu portas, a 5 de abril, com entrada gratuita. É o primeiro na Península Ibérica, erguido pela Comunidade Judaica do Porto (CJP), fundada em 1923 e constituída hoje em dia por aproximadamente 500 membros, de 30 nacionalidades, que vivem na cidade.

O equipamento cultural é pequeno e extremamente discreto, situado na zona do Campo Alegre, afastado dos atrativos turísticos da Invicta e resguardado de atenções indesejadas. Onde antigamente “era um open space cheio de entulho”, à porta do número 790 daquela rua há agora um apelo, encriptado em hebraico: “Não Esquecer”, em tradução livre.

“Quase todos os museus do Holocausto destroem-nos com uma mensagem bastante negativa e pesada. É importante mostrar que há vida antes e depois da tragédia”, começa por explicar o curador Hugo Vaz, com uma quipá pousada na cabeça, durante uma visita guiada ao Expresso. “Não é um museu académico, não nos esmaga com informação. Pretende tão-somente que as pessoas entendam o que foi aquele período, de forma a que nunca se repita”, sustenta o museólogo de 33 anos, para quem o Museu do Holocausto pode contribuir para “fazer a ligação com as escolas”, desbloquear “mudanças nos pró­prios currículos letivos” e até mesmo educar quem educa. “Todos os anos damos formação a professores, e este ano vai ser feita no museu”, revela.

Nomes humanizam números

Estruturalmente, o museu “segue um modelo cronológico” e pode ser dividido em três partes. A primeira, em tons verdejantes, simboliza o quotidiano judaico antes do Holocausto, onde é possível ver retratos de famílias felizes. A segunda fase, pintada de negro e manchada pela morte, retrata o horror do genocídio de 6 milhões de pessoas. Por fim, a odisseia termina da mesma forma que começa, novamente verdejante e com paredes brancas, onde é exaltada a vida dos sobreviventes. “Os relatos na primeira pessoa estão a desaparecer. É expectável que dentro de 10 ou 20 anos não existam mais. É fundamental registá-los enquanto podemos, muito também porque o negacionismo está a crescer e crescerá ainda mais quando os sobreviventes já cá não estiverem”, frisa o curador.

Além de fotografias, a narrativa é conduzida por textos e mapas informativos, entrecortados por momentos mais imersivos com a projeção de vídeos, como o testemunho de Nadia ou um excerto do filme “A Luz de Judá”, produzido pela CJP, onde se pode assistir à jornada de trânsito dos judeus pela cidade durante a II Guerra Mundial. Está ainda exposta documentação inédita dos refugiados que chegavam, muitos com vistos passados por Aristides de Sousa Mendes, com destaque para cerca de 400 fichas individuais.

“Com o início da guerra, a comunidade judaica ganhou um novo propósito: albergar os refugiados. A maioria veio da Polónia. Isto aconteceu sobretudo em 1940, quando a França capitulou perante os nazis”, contextualiza o curador, acrescentando que “muitos dos casos felizes, daqueles que conseguiram fugir, passaram pelo Porto e pela sinagoga da cidade”, a maior da Península Ibérica e inaugurada em 1938, ano do grande progrom conhecido como Noite dos Cristais.

“Como se chegou até aqui?” Esta é a pergunta com que o curador Hugo Vaz confronta o público. E cita Edmund Burke: “Para que o mal triunfe, basta que os bons não façam nada”

“É fundamental dar nomes aos números”, advoga Hugo Vaz, quando o olhar é arrebatado para uma sala negra vazia, um memorial com as paredes quase pintadas de branco pelos mais de 32 mil nomes de vítimas que lá cabem. “Atualmente são conhecidos 4,5 milhões de nomes. Há um milhão e meio que não se conhece. Provavelmente, dizem respeito a muitos dos bebés assassinados antes ainda de os pais lhes terem dado um nome”, conta o responsável pelo museu.

“Como se chegou até aqui?” Esta é a pergunta com que o nosso guia confronta sempre o público. Sem esperar, Hugo responde com as palavras do filósofo irlandês Edmund Burke: “Para que o mal triunfe, basta que os bons não façam nada.” E o curador não tem dúvidas de que “houve colaboração de alguns, muitos sabiam e calaram-se, outros não saberiam porque não queriam”, até porque, nota, “cidadãos polacos contrabandeavam produtos para o interior dos campos de extermínio”, além de que “os comboios passavam apinhados de gente a pedir pão” e “eram muitos a chegar mas ninguém a sair”. Todavia, houve quem arriscasse a própria vida para salvar as de centenas ou milhares de inocentes. São reconhecidos entre os judeus como “justos” e há 27 mil em todo o mundo. Quatro são portugueses, e o Museu do Holocausto enaltece-os.

O início do fim

“Aqui temos o início do fim”, assinala Hugo Vaz. Entre objetos simbólicos, como duas Toras e uma Hanukiah cercadas por arame farpado, encontra-se a referência direta e pungente ao campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau, uma das seis “fábricas de morte” nazis, onde foram gaseadas 1,1 milhões de pessoas com Zyklon B.

Os visitantes são confrontados com a mesma visão que os prisioneiros tinham ao saírem dos vagões. “Arbeit Macht Frei [O Trabalho Liberta]”, lia-se no portão para o inferno, tal como se lê agora na Invicta. “Os campos de extermínio fizeram parte de uma segunda fase da solução final. Antes de os nazis conseguirem a industrialização da morte, os judeus — bem como outros grupos perseguidos — eram assassinados de outra forma. Metade morreu por fuzilamento”, atira Hugo Vaz. A necessidade de um “processo mais limpo” surgiu quando Himmler, comandante das SS, “assistia a um fuzilamento e uma pinga de sangue salpicou o seu fato branco”, narra Hugo Vaz. “Ele considerou aquilo mau e sujo, não para as vítimas, mas para quem executava”, clarifica.

Visitar o Museu do Holocausto é uma experiência sensorial, desconfortável à microescala, sobretudo ao entrar na recriação fiel de uma casamata de Auschwitz. “Os prisioneiros que chegavam ao campo formavam duas filas: os que estavam aptos para trabalhar e aqueles que não estavam. Estes últimos eram abatidos imediatamente, os outros seriam quando deixassem de ser produtivos”, sentencia o museólogo.

“O Exército Vermelho, depois da libertação de Auschwitz, obrigou a população local a visitar o campo para que vissem com os próprios olhos o que ali se passava”, observa Hugo Vaz. Por esse mesmo motivo, vá ao Museu do Holocausto e veja por si. Não esquecer é ser perto do longe que é o próximo. O presente é o entretanto do passado. “Historicamente, o Holocausto foi ontem, num país civilizado e no centro de uma Europa moderna. Nada nos garante que não volta a acontecer”, adverte o curador.