António Araújo
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António Araújo
Johnny Ventura
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1940-2021 Juan de Dios Ventura Soriano era um cantor dominicano, reconhecido como o “Elvis Presley do merengue” e da salsa, antes de ter enveredado pela vida política no seu país
FOTO John Parra/WireImage/getty images
É o mínimo e pouco chamar-lhe “Elvis Presley do merengue”, epíteto que levou em vida mas que fica assaz aquém e de resto nem quadra ao contributo que lega, plasmado em mil partituras poderosas, prenhes de graça e duende, e em 105 produções discográficas principiadas em 1962, com “La Agarradera”, e terminadas 54 anos depois, numa obra sintomática e melancolicamente designada “Tronco Viejo”. Entre essas duas extremas, “Caballo Mayor”, outro dos seus cognomes, relinchou álbuns cujos títulos são, só por si, fulgurantes hinos à alegria cósmica: “El Bogaloo Está en Algo”, de 1965; “El Turun Tun Tun”, dois anos depois; “El Papelito Blanco”, El “Mamito” e “Vamos a Bailar Merembé”, todos de 68, um annus mirabilis na sua carreira, a um tempo artística e filosófica; “¿Tú Sabes a Que Yo Vine? Te Digo Ahorita” e “Salsa Pá Tu Lechón”, ambos de 1972; “El Pingüino”, corria 1973 e, um ano volvido, três discos de rajada, “Un Poquito para Atrás: Mamá Tingó”, “La Protesta de los Feos”, “¿Qué Pasa Papo? Ahí Es Que Tú lo Dañas”. Em 1976, “¡El Que Venga Atrás, Que Arree” e, depois de “Excitante”, de 1977, ou do imodesto “Yo Soy El Merengue”, em 1980, “Un Saludo Al Diputado: 14 Éxitos Vol. 2”, de 1982, assinala a sua entrada na vida política, onde perfez uma legislatura sem nunca ter perdido as convicções monárquicas que o fizeram expelir, em 2007, “El Rey del Merengue” e já antes, em 1996, “El Rey y la Reina del Merengue”, em parceria público-privada com Milly Quezada, nome artístico de Milagros Quezada Borbón, infortunada cantora a quem devemos clássicos de arrepiar a espinha como “Burbujas de amor”, “Antología de caricias”, “Yo tengo un negro”, “Mesita de noche”, “Tu amor es vital”, “Yo soy mujer y no soy una santa” (e, mais recentemente, “Gracías a Ti”, em homenagem aos profissionais de saúde da Covid-19).
Johnny Ventura esteve casado mais de 50 anos com Nelly Josefina Flores, uma santa com a qual procriou três dos seus oito filhos
Este fenómeno nasceu em 8 de Março de 1940 em Santo Domingo, República Dominicana, e em criança sonhava ser o maior arquitecto do país, sem se aperceber coitado das dificuldades económicas da família, as quais acabariam por conduzi-lo a um curso rápido de mecanografia, taquigrafia, contabilidade e arquivo no Instituto Comercial Ercina Chevalier (anos passados, já com consciência de classe, produziu o disco “El Hijo del Pueblo”, de 1975). Ora os rapazes do Instituto, como é próprio da idade, cantavam e declamavam poemas para catrapiscar as colegas moças e, descobrindo-lhe o talento, alguns amigos inscreveram-no à força, que ele era tímido, num concurso de talentos, onde arrasou. Depois, fez estudos de canto e de música, entrou na orquestra Su Majestad, de Rondón Votau, tendo actuado ao lado de Niní Cáffaro, o principal divulgador do merengue dominicano em todo o mundo, que é vasto. Em meados dos anos 60, mudou o nome de Juan de Dios Ventura Soriano para Johnny Ventura, seja por razões artísticas, seja para não ser confundido com Juan de Dios Ventura Simón, militar de extrema-esquerda envolvido no falhado Movimento de 14 de Julho de 1959 contra o ditador Rafael Trujillo, que governou o país com punho de aço e mão de ferro durante 31 anos. Por essa altura, a instâncias do empresário cubano Ángel Guinea, criou a sua própria orquestra, à frente da qual se tornou o maior cantor de merengue da República Dominicana, reconhecido oficialmente pelo Congresso do país como “Merengueiro do Século” e convidado para actuar na cerimónia inaugural do presidente Jimmy Carter, em 1974. Além de uma carreira musical multipremiada – 28 discos de oiro, dois de platina, um Grammy Latino em 2004, um Grammy de Excelência pela sua trajectória, em 2006, averbamento no International Latin Music Hall of Fame –, Johnny Ventura teve uma fértil carreira política como deputado, alcaide e embaixador, à qual não foi alheia a popularidade tremenda de que gozava por todo o Caribe, onde era venerado com um sem-fim de títulos honoríficos: “Pai do Merengue Moderno”, “A Alegria do País”, “O Merengueiro do Século”, “A Lenda Viva do Merengue”, “A Indústria Nacional da Alegria”, “O Cavalo Maior”, “O Senhor do Merengue” ou “O Filho do Povo é Este Johnny Ventura”. Ainda que não exista notícia de licenciatura jurídica, foi advogado de profissão durante 43 anos e doutorado summa cum laude pela Universidade da Terceira Idade. Em 2008, causou sensação ao romper com uma militância de décadas no Partido Revolucionário Dominicano (que, apesar do nome, é social-democrata e de centro) para apoiar a reeleição de Leonel Fernández, do Partido da Libertação Dominicana, para um terceiro e último mandato presidencial caracterizado por acusações de assassinatos políticos e grossa cumplicidade com o narcotráfico (quer o Partido Revolucionário Dominicano, quer o Partido da Libertação Dominicana, quer o mais recente Partido Revolucionário Moderno são todos de centro-esquerda e inimigos do neoliberalismo). A cambalhota do barítono só não lhe quebrou as costas porque a música que cantava, feita de salsa & merengue, é venerada no país como uma religião, ademais inscrita no património da Unesco, se bem que nos seus alvores, em meados do século XIX, quando destronou a tumba, originária de Bonaire e de Curaçau, o merengue haja sido vituperado como “lascivo”, o que bem se compreende (há uma acesa controvérsia sobre se o nome “merengue”, sobretudo na Venezuela, é originário do bolo francês “meringue” ou antes dos termos africanos “muserengue” ou “tamtam mouringue”, alegando a tese africanista que em castelhano os merengues não se chamam merengues, mas suspiros). Quanto a ele, Johnny e Ventura, esteve casado mais de 50 anos com Nelly Josefina Flores, uma santa com a qual procriou três dos seus oito filhos (estamos a citar a Wikipédia), sem que haja notícia da filiação dos restantes, pese acções judiciais inconclusivas in illo tempore intentadas contra o ADN do cantor, o qual, sendo romântico, não era parvo.
Às três horas e doze minutos da tarde de 28 de Julho de 2021, na Clínica Unión Médica da cidade de Santiago de Los Caballeros, uma lenda viva passou a morta. A causa? Enfarte no seu miocárdio, gasto em 81 anos de pulsações. Com elas, arrebatou e fez bater milhares de músculos cardíacos pelos arquipélagos do Caribe fora, na América do Sul e Latina e mesmo nos EUA do Norte. Actuou em toda a parte, em Aruba e em Saint-Thomas, em Vieques, na francesa Martiniqués, e até em Tórtola, a maior das Virgens britânicas, que por certo não ficaram as mesmas após a passagem deste ciclone sob forma humana, ou vice-versa. Isto sim, um Ventura à altura.
António Araújo escreve de acordo com a antiga ortografia
Esta coluna tem uma versão podcast em expresso.pt
1940-2021. Juan de Dios Ventura Soriano era um cantor dominicano, reconhecido como o “Elvis Presley do merengue” e da salsa, antes de ter enveredado pela vida política no seu país