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uma década de crise ECONOMIA MUNDIAL

Viragem Depois do colapso global de setembro de 2008, a China foi o país que mais reforçou a sua posição na economia e na finança mundiais. Os EUA aguentaram-se e passaram ao contra-ataque. A zona euro vai cair para terceiro lugar

E quem mais perdeu foi… a Europa

Textos Jorge Nascimento Rodrigues

A chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, não têm razões para sorrir. A União Europeia vai perder a sua segunda maior economia em março de 2019, e a China vai ultrapassar o PIB da zona euro no próximo ano FOTO GETTY IMAGES

A chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, não têm razões para sorrir. A União Europeia vai perder a sua segunda maior economia em março de 2019, e a China vai ultrapassar o PIB da zona euro no próximo ano FOTO GETTY IMAGES

Vivemos num mundo novo, dez anos depois do colapso do banco Lehman Brothers a 15 de setembro de 2008 e do crash de Wall Street na “segunda-feira negra” de 29 daquele mês. Há dez anos seria pura ficção ou uma catadupa de “notícias alternativas” reportar seis imagens simbólicas dos tempos atuais.

A CRISE DESTA DÉCADA ACELEROU DUAS GRANDES MUDANÇAS NA GEOGRAFIA DO PIB MUNDIAL: A SUBIDA IRRESISTÍVEL DA CHINA E O TRAMBOLHÃO NA POSIÇÃO DA UNIÃO EUROPEIA E DA ZONA EURO

Meio milhão de transeuntes por dia dá de frente com o anúncio do “China Daily”, o diário do Partido Comunista da China em inglês, no número um de Times Square, a torre de Nova Iorque famosa pela festa de ano novo. Um líder comunista é venerado como campeão da globalização capitalista no Fórum Económico Mundial de Davos. A Casa Branca em Washington é descrita pelo jornalista veterano Bob Woodward, um dos que revelaram o escândalo Watergate no tempo do Presidente Nixon, como “cidade de malucos”. O atual inquilino da Sala Oval faz política externa, incluindo no plano geoeconómico, algumas vezes ao dia através de tweets incendiários. Itália, a terceira maior economia do euro, um dos pilares do projeto europeu desde 1957, mantém, numa gaveta entreaberta, a saída da moeda única e a ameaça de uma reestruturação da dívida externa, provocando uma dor de cabeça permanente à chanceler alemã, Angela Merkel, e ao presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker. A China vai ultrapassar a zona euro no próximo ano, se se confirmarem as previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Por trás desses ‘apanhados’ simbólicos, há a dureza dos números do produto interno bruto (PIB). Uma década volvida sobre o maior colapso financeiro desde os anos 30 do século passado, a dinâmica de divergência da zona euro com os Estados Unidos ampliou-se e a área da moeda única vai cair, no próximo ano, para terceiro lugar, depois da China, tendo em conta as previsões do FMI. Os EUA conseguiram estancar a queda no seu peso na economia mundial e ultrapassaram o PIB da própria União Europeia (UE) em 2017, até então o maior espaço económico do mundo.

China quer ser a maior economia em 2030

O PIB da China triplicou desde 2007. Mesmo com uma desaceleração para um crescimento anual de 5% a 6% até 2023, a economia chinesa vai engordar seis vezes desde 2007, em apenas 15 anos. Se o PIB for medido em paridade do poder de compra como insiste ultimamente o FMI, refletindo o real custo de vida, a China já é a primeira economia do mundo desde o ano passado.

No entanto, na estratégia pública de Pequim, a meta política de ultrapassar os EUA está apontada para 2030. Caso o consiga, o efeito simbólico será arrasador, tal como foi em 1913 a ultrapassagem do Reino Unido pelos EUA.

No mundo financeiro, a reviravolta foi brutal. A China contava com apenas um banco no clube dos dez maiores em 2000 e em 2010. Hoje, segundo a última atualização da revista “The Banker”, do grupo britânico do “Financial Times”, há uma paridade entre a China e os EUA nesse clube de topo (ver tabela). Mas o mesmo número de bancos não conta toda a verdade: os quatro bancos chineses dispõem de quatro vezes mais capital de qualidade (capaz de absorver choques financeiros) do que os quatro norte-americanos. De notar que este ano desapareceu daquele clube qualquer banco da zona euro.

Nas bolsas, a praça de Xangai consolidou o quarto lugar em capitalização, depois das duas de Nova Iorque e da de Tóquio (ver tabela). Em maio de 2015, chegou mesmo a ter uma capitalização bolsista superior à de Tóquio. A bolsa de Shenzhen, na região de Cantão, mais ligada às empresas tecnológicas, multiplicou por quase quatro vezes a sua capitalização, entre o final de 2007 e julho de 2018.

BRICS, de conceito a aliança política

No plano geoeconómico e geopolítico, a China tornou-se um protagonista em destaque nesta década. O que começou por ser um conceito extravagante de um analista da Goldman Sachs em 2001, que cunhou o acrónimo BRIC, tornou-se, desde junho de 2009, uma plataforma das quatro principais economias emergentes — Brasil, Rússia, Índia e China — para forçar a multipolaridade na cena mundial.

Neste novo clube, a China dispõe de um pulmão financeiro e de uma economia que vale duas vezes o somatório dos outros quatro parceiros. Os BRIC tornaram-se uma arma geopolítica e, dois anos depois da primeira cimeira, integraram a África do Sul, a segunda maior economia africana, passando a BRICS.

Pequim avançou, ainda, com uma inovação política na atual vaga de globalização, lançando a iniciativa “Uma faixa, uma rota”, em 2013, um ano depois do novo Presidente Xi Jinping ter declarado que a China tinha de abandonar uma política externa “discreta”.

O ‘cisne negro’ que baralhou o jogo

Mas nem tudo são rosas para Pequim na sua caminhada para ser o líder da terceira vaga de globalização. Um ‘cisne negro’ apareceu a baralhar o jogo. Um bilionário ganhou a Casa Branca nas eleições de novembro de 2016 e mudou a estratégia norte-americana, apostando no unilateralismo nas relações externas e na desintegração do edifício do sistema internacional herdado das décadas anteriores. Donald Trump, o novo inquilino da Casa Branca, optou inclusive por ir ao armário buscar a arma da guerra comercial usando-a como instrumento geopolítico. O seu alvo principal está a ser a China, mas, volta e meia, dispara para vários lados, incluindo a União Europeia.

Apesar da emergência dos BRICS e da dinâmica da China na própria área digital e militar, os EUA continuam a dispor, por ora, de quatro “privilégios”: um orçamento de defesa que permite manter a liderança militar na projeção externa, sendo quase quatro vezes superior ao da zona euro e estando mais de quatro vezes acima do chinês; as principais bolsas de ações e matérias-primas; o domínio da principal divisa mundial, o dólar; e a continuação da liderança na mais recente vaga de inovações radicais já deste século.

A crise desta década acelerou, por isso, duas grandes mudanças na atual vaga de globalização: a inequívoca trajetória ascendente da China e “uma reestruturação dos poderes na economia ocidental”, como nos sublinha Dan Steinbock, líder da consultora Difference Group e investigador em Singapura no Centro da União Europeia. Esta reestruturação a Ocidente, que já vinha de trás, beneficiou em primeiro lugar os EUA e tornou a UE a principal vítima da década. Um enfraquecimento que vai ser ainda maior com a decisão, inesperada, de um divórcio por parte do Reino Unido, que ainda não se sabe se acabará amigável ou sem acordo de todo.

antes

Comércio mundial pujante

Depois de um abrandamento brusco em 2001, devido à crise inicial da economia digital (então batizada de ‘nova economia’), a taxa anual de crescimento do comércio mundial regressou a 7% em média entre 2002 e 2008, uma dinâmica aproximada do recorde de 7,4% de 1992, após a desintegração da União Soviética e o início de uma nova vaga de globalização, até 2000

China valia apenas 25% dos EUA

Ao fim de 15 anos de reformas económicas sistemáticas, a China chegou a 6% do PIB mundial em 2007, aproximando-se do peso do Japão, o ‘tigre asiático’ que desde 1992 entrou numa crise estrutural prolongada. Apesar do salto, o PIB chinês valia apenas 25% do norte-americano e menos de um terço do da zona euro

Fluxos financeiros mundiais em alta

Os fluxos financeiros internacionais, abrangendo o investimento direto estrangeiro, os títulos de dívida, as ações e os empréstimos, atingiram 
uma taxa anual de crescimento de 11% entre 2000 e 2010, um pico na dinâmica desde a década de 1990. Em 2007 atingiram 13 biliões de dólares (€9,5 biliões ao câmbio da altura)

e depois

Desaceleração nas trocas mundiais

Na sequência da recessão de 2009, o comércio mundial afundou-se 10,5% no ano seguinte. Com a recuperação económica, as trocas comerciais cresceram em média 5% ao ano entre 2011 e 2017. As previsões do FMI apontam para uma taxa anual ainda mais baixa nos próximos cinco anos, de 4,3%

Peso da China mais do que duplicou

Nesta década de crise, o peso da China na economia mundial passou de 6% para 15%. Esse aumento fez-se à custa de uma descida de 6 pontos percentuais do peso da zona euro, o principal perdedor, de 2 pontos do peso do Japão e de 1 ponto do dos EUA. A China vale agora 62% do PIB dos EUA

Guerra comercial como arma geopolítica

Uma escalada na aplicação das taxas aduaneiras levará a um recuo ainda maior no peso do comércio internacional no PIB mundial. O comércio representava 25% em 2008 e já caiu para 21,5% em 2017

Fluxos financeiros em menos de metade

Os movimentos financeiros internacionais caíram em 2009 para um mínimo de 2 biliões de dólares (€1,4 biliões ao câmbio da altura). Subiram até 6 biliões de dólares (€5,3 biliões ao câmbio da altura) no ano passado, menos de metade do pico de 2007

Roteiro de seis séculos de globalização

A crise iniciada em 2008 foi o primeiro grande abalo da atual vaga de globalização iniciada após a extinção da URSS

A crise financeira de setembro de 2008 e a grande recessão que se seguiu em 2009 é uma das oito grandes crises globais do capitalismo moderno e o primeiro grande abalo sistémico da terceira vaga de globalização. O primeiro uso do adjetivo global apareceu em 1892 nas páginas da revista norte-americana “Harper’s Magazine” e em 1944 o termo globalização entrou no dicionário Webster de língua inglesa. O especialista da Universidade de Harvard em marketing Theodore Levitt popularizou o termo num artigo em 1983. A palavra inglesa acabaria por destronar nos anos 1990 o conceito de mundialização lançado pelo economista francês François Perroux em 1964. Muito antes de se tornar uma buzzword do mundo dos negócios, a globalização já era um processo histórico evolutivo que remonta ao século XV e aos portugueses. A sua história pode ser dividida em três vagas, que foram originadas não por um acontecimento, mas por uma convergência de eventos, por vezes independentes.

1ª vaga de globalização dos séculos XV a XIX

Esta primeira vaga é marcada pelo pioneirismo de Portugal no que ficou conhecido como ‘Descobertas’, um processo de projeção externa de 1415, com a conquista de Ceuta em Marrocos, até ao estabelecimento de feitorias em Nagasáqui e Macau em 1541 e 1557 respetivamente. Portugal gerou o primeiro império global em rede da história que se estendia do Atlântico ao Extremo Oriente e permitiu à economia europeia superar o que os historiadores económicos designaram por crise da “fome do ouro”. Malyn Newitt , professor emérito no King’s College de Londres, considera que Portugal foi “o primeiro estado de dimensão mundial” e o cientista social norte-americano Leo Huberman atribui aos portugueses o papel de “criadores do comércio verdadeiramente internacional”.

Seguiram-se, sucessivamente, como potências mundiais dominantes, Espanha, com o auge na dinastia dos Habsburgos (que controlou Portugal no período de monarquia dual na dinastia dos Filipes), Holanda e Inglaterra. Estas duas últimas potências consolidaram a sua expansão global graças a uma revolução financeira de 1600 a 1694. A revolução industrial iniciada em Inglaterra nos primeiros anos do século XVIII consolidaria o papel hegemónico do país. A partir do Tratado de Paris de 1763, Inglaterra tornou-se a maior potência colonial, mas teve de reconhecer a independência dos Estados Unidos no Tratado de Versalhes em 1783, um novo país que viria a marcar a vaga seguinte.

O período final ficou marcado por uma primeira onda de pânico financeiro em 1825-26 e pelo crash da bolsa de Viena em 1873 que originaria a primeira grande depressão da história do capitalismo moderno que só terminaria 23 anos depois. No plano geopolítico, há uma tentativa final da França em roubar a liderança mundial a Inglaterra que terminaria com o Congresso de Viena em 1814-15 e com a derrota de Napoleão em 1815 na famosa batalha de Waterloo.

2ª vaga de globalização de 1885 a 1991

O economista inglês John Hobson, da London School of Economics, e o pediatra austríaco interessado por economia política Rudolf Hilferding batizaram o início desta segunda vaga como ‘imperialismo’ a que se juntou a emergência de um novo sistema político e económico designado por socialismo que viria a originar a divisão do mundo em dois blocos geopolíticos.

Os momentos fundadores desta nova época foram a conferência de Berlim em 1885, organizada pelo chanceler prussiano Otto von Bismark, e a segunda revolução russa de outubro de 1917 que levaria à criação da União Soviética (URSS). Em Berlim, Bismark decretou o fim da doutrina dos ‘direitos históricos’ das potências expansionistas da globalização anterior. Esta segunda vaga da globalização é marcada por duas guerras mundiais no espaço de três décadas, por um surto de pânico financeiro global em 1907 e uma Grande Depressão mundial (de 1929 a 1938), a segunda maior crise económica da história do capitalismo moderno, pela ascensão e queda do colonialismo moderno à escala global (incluindo a descolonização portuguesa em 1974 e 1975), e pelo que ficou conhecido por período de ouro dos “30 gloriosos anos” de crescimento económico entre 1946 a 1974.

Converge com uma segunda revolução industrial que se estende pelas décadas de 1870 a 1950, a que se associa uma poderosa revolução da produtividade iniciada por Frederick Taylor em 1881. Nas décadas finais emerge a primeira fase da revolução das tecnologias de informação e comunicação, de que os marcos mais simbólicos foram o microprocessador da Intel em 1971 e a invenção da World Wide Web em 1990.

As potências dominantes foram o Reino Unido até à 2ª Guerra Mundial e desde essa altura os Estados Unidos, que a partir de 1913 já haviam passado a ser a maior economia do mundo. A hegemonia britânica foi desafiada pela Alemanha dos Kaisers e de Hitler, e pelo imperialismo nipónico. As duas potências desafiadoras da primeira metade do século XX acabaram por ser definitivamente derrotadas pela aliança entre os britânicos e os norte-americanos. A hegemonia dos EUA foi, depois, desafiada no plano geopolítico pela União Soviética até à extinção oficial desta e pelo Japão no plano geoeconómico até à quebra da taxa de crescimento nipónico para menos de 1% em 1992. Entretanto, em 1957, em Roma, nasceu a Comunidade Económica Europeia que, em 1986, já abrangia 12 membros, sendo, então, o maior espaço económico do mundo, com um PIB superior em 25% ao dos EUA.

O período final desta vaga de globalização ficou marcado por 20 anos de crises geopolíticas e económicas globais. A crise do bipolarismo EUA/URSS inicia-se com a deslocação do Presidente norte-americano Nixon a Pequim em 1972. Os dois choques petrolíferos de 1973/74 e de 1979/80 gerados por crises geopolíticas no Médio Oriente provocaram abalos mundiais. A crise do maoísmo iniciada após a morte de Mao Tsé-Tung em 1976 levaria à revolução económica chinesa iniciada por Deng Xiaoping dois anos depois. A crise da União Soviética acelerada por Mikhail Gorbatchov conduziria à queda do Muro de Berlim em 1989 e à extinção oficial daquela federação em dezembro de 1991. O que marcou o fim da Guerra Fria, que durara mais de quatro décadas. Surge a crise japonesa que ainda não foi resolvida até aos dias de hoje. De ‘tigre asiático’ líder, o Japão torna-se o ‘doente’ crónico do mundo desenvolvido. Há registo de três crises económicas globais em 1975, 1982 e 1991.

3ª vaga da globalização desde 1992

A desintegração do bloco mundial socialista gerou uma aceleração do crescimento do comércio internacional e uma ampliação da globalização a todo o planeta. O crescimento anual do comércio internacional foi na ordem de 7,4% em média entre 1992 e 2000, uma aceleração em relação a 5,8% entre 1983 e 1991. E, depois de um abrandamento brutal do crescimento do comércio internacional em 2001, coincidindo com o rebentar da bolha das dot-com, a dinâmica anual foi de 7% em média entre 2002 e 2008.

Os pontapés de partida desta terceira vaga de globalização foram sobretudo duas dinâmicas inesperadas — uma vinda da China comunista e outra do mundo da tecnologia. A primeira é a aceleração da revolução económica chinesa, com a digressão de Deng Xiaoping em janeiro e fevereiro de 1992 a Wuchang, Shenzhen, Zhuhai e Xangai. De onde resultou uma estratégia de longo prazo que tornou aquela potência a segunda economia do mundo em 2011, se não considerarmos a União Europeia ou a zona euro como um todo, e o principal motor do comércio internacional desde 2014. Em paralelo, a massificação dos browsers para a Web permitiu a globalização digital e a alteração estrutural das cadeias globais de produção e de distribuição. A revolução digital provocou, também, uma revolução financeira sem par com os algoritmos a dominarem todos os mercados financeiros, o que gera mudanças dos índices e dos preços mais rápidas e brutais do que no passado.

Peter Drucker, o ‘pai’ da gestão, avançou, pouco antes de falecer, que o mundo está a sofrer neste período uma profunda transformação em direção a uma sociedade “pós-capitalista” com a emergência da economia do conhecimento e dos profissionais do saber. Alguns tecnólogos falam do despontar de uma quarta revolução industrial com a genómica e o conceito de “indústria 4.0”.

A fase inicial desta vaga de globalização continua a ser marcada pela hegemonia dos EUA, mas é abalada por uma grande crise financeira em 2007 e 2008 e por uma grande recessão em 2009, acompanhada por uma quebra de 10,5% no comércio internacional. No mês fatídico de setembro de 2008, o Presidente norte-americano George W. Bush ainda considerava o que se estava a passar como um evento local em Wall Street. Ainda que com muito menor dimensão, registaram-se crises globais nos mercados emergentes de 1994 a 1999 e o rebentar da bolha das dot-com em 2001. A economia mundial chegou a sofrer um abrandamento significativo do crescimento em 1998 e 2001, mas não se afundou numa recessão, como viria a acontecer em 2009.

A partir do choque de há dez anos desenvolveu-se uma série de crises geopolíticas, económicas e financeiras ao longo da década e muitos analistas apontam o risco de desglobalização com a desaceleração acentuada das trocas comerciais e dos fluxos financeiros mundiais.

No plano geopolítico, a China lidera, agora, um bloco defensor do multilateralismo que é conhecido pelo acrónimo em inglês BRICS (para Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), e os EUA, com a nova Administração Trump, desencadearam um contra-ataque, usando a guerra comercial como arma de política externa.

A economia e as finanças mundiais mergulharam numa vaga de crises sucessivas: um recuo das bolsas mundiais de 42% em 2008, com recaídas em 2011 e 2015; uma recessão mundial em 2009, com uma recaída da zona euro em 2012 e 2013; 24 crises bancárias desde 2007; seis crises de dívida soberana (Hong Kong e cinco periféricos do euro) e quatro crises cambiais (incluindo as duas mais recentes na Argentina e na Turquia). Nos últimos dez anos houve seis bolsas particularmente castigadas: Atenas, Bahrain, Sófia, Lagos, Istambul e Liubliana.

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