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uma década de crise crescimento

KENNETH ROGOFF Professor de Economia e Políticas Públicas na Universidade de Harvard, em Boston, nos EUA

“A longo prazo é altamente provável que um país saia do euro”

Jorge Nascimento Rodrigues

FOTO PETER PEREIRA/4SEE

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As políticas “erráticas e destrutivas” de Trump são o atual risco número um, diz sem papas na língua o académico de Harvard que ficou célebre por alertar que há uma linha vermelha para a dívida pública antes do eclodir da crise das dívidas na zona euro e que a economia mundial, volta e meia, não escapa a uma grande crise. Tem um recorde no xadrez inscrito no “Guinness” quando tinha 16 anos e foi economista-chefe do Fundo Monetário Internacional entre 2001 e 2003. Nesta entrevista ao Expresso, realizada por correio eletrónico, o economista de 65 anos avisa que Portugal continua em risco, apesar do ciclo virtuoso que está a viver, e não descarta a possibilidade de saídas do euro, pois o consenso político que hoje segura a moeda única pode entrar em colapso.

A economia mundial pode voltar a ter uma recessão em virtude da convergência recente de tantos riscos?

Há uma probabilidade — digamos de cerca de 15% — de uma recessão global convencional nos próximos 12 meses. Mas isso tem mais a ver com a dinâmica normal do ciclo económico do que com a degeneração da política norte-americana.

Mas essa degeneração não tem consequências no próprio ciclo económico?

Para as maiores economias, como os Estados Unidos, a Alemanha e a China, os riscos reais estão associados ao assalto do Presidente Trump à ordem económica global, em virtude do enfraquecimento pérfido dos principais entendimentos e instituições que sustentaram a enorme subida do padrão de vida da maioria dos países desde a Segunda Guerra Mundial. As economias mais pequenas, com produção especializada, profundamente enraizada nas cadeias globais de fornecimento, sofrerão muito mais — particularmente as da Ásia que dependem da exportação para os EUA.

E que riscos correm as próprias instituições dos EUA?

Uma preocupação minha bem real é que Trump comece a culpar a Reserva Federal (Fed) por problemas que as suas políticas causem, e tente encontrar uma maneira de minar a independência do banco central. Note que a Fed não tem a independência constitucional do Banco Central Europeu (BCE). Ela foi criada por um ato do Congresso e é mais vulnerável à intromissão do que a maioria das pessoas imagina. Há limites para o quanto o Presidente pode fazer sozinho sem a ajuda do Congresso, mas no ambiente político rude de hoje, eu não descartaria nada.

Como elenca os riscos mundiais?

Refiro quatro riscos principais. Primeiro, as políticas cada vez mais erráticas, destrutivas e imprevisíveis dos EUA — hoje o alvo é o comércio, amanhã talvez a Fed, e sabe-se lá o que vem a seguir. Segundo, uma pausa na máquina de crescimento da China. Talvez porque os decisores políticos chineses acabarão por ser ‘apanhados’ pela dependência excessiva do endividamento em que apostaram. Talvez devido à guerra comercial de Trump. Talvez por uma desaceleração ‘normal’ do ciclo económico após tantos anos de rápido crescimento. Terceiro: um aumento repentino das taxas de juro reais globais de longo prazo. O que pode ser gerado por uma reavaliação em alta das perspetivas de crescimento de longo prazo dos EUA, ou por um prémio de risco mais elevado devido à incerteza política, ou por uma desaceleração no crescimento nos países com excesso de poupança na Ásia.


No atual mundo de taxas de juro tão baixas, a Europa pode ‘desenrascar-se’”

Que consequências poderia ter esse disparo nas taxas de juro?

Taxas de juros reais de longo prazo mais altas causariam estragos em países altamente endividados. Essa situação é uma vulnerabilidade para países como Itália e Japão, mas essa subida seria especialmente catastrófica para mercados emergentes como Turquia, Argentina e Brasil, que provavelmente teriam de enfrentar problemas de incumprimento de dívida, mesmo no quadro de um cenário global benigno.

E qual é o quarto grande risco?

Deriva dos problemas que a nova era trouxe, como a guerra cibernética, que poderá desencadear um pânico financeiro global maciço.

Então, o maior risco é o próprio Presidente Trump, com os seus tweets...

Os tweets não importam, mas as ações sim. Trump parece determinado a testar os limites do seu poder. Por exemplo, ele reivindica autoridade para avançar com uma guerra comercial baseado em risco para a “segurança nacional”, mostrando que pretende usar formas criativas de ampliar o seu poder. Para ser justo, Obama, que eu considero um grande Presidente, também o fez, especialmente no final de seu mandato.

O que é que podemos esperar desta agitação geopolítica?

A geopolítica, resultante do surgimento do populismo, está a criar uma enorme incerteza na economia global. Os problemas no Reino Unido, com o autodestrutivo voto no ‘Brexit’, são ainda piores do que nos EUA. Porém, no futuro imediato, os maiores riscos virão se os populistas tentarem minar a independência dos bancos centrais, como já vemos hoje na Turquia.


Os riscos reais estão associados ao assalto do Presidente Trump à ordem económica global”

A China vai conseguir atingir os objetivos que tem para o médio e longo prazo ou vai mergulhar numa crise?

Sou cético quanto ao facto de a China poder avançar em direção a uma economia mais descentralizada orientada para a procura interna — especialmente quando as políticas de Trump restringem o seu comércio —, ao mesmo tempo que o governo se torna cada vez mais centralizado.

Apesar dos riscos atuais, o crescimento não está limitado por uma estagnação secular?

Esse é o ponto de vista convencional, mas eu não partilho dele. É claro que o crescimento populacional global diminuiu drasticamente — e isso até é uma coisa boa —, mas a hipótese da estagnação secular mistura problemas genuínos de crescimento de longo prazo com efeitos duradouros, mas que são temporários, da recente crise financeira. Nos estudos que eu e Carmen Reinhart fizemos concluímos que são precisos oito a dez anos para se recuperar de uma profunda crise financeira sistémica.

Apesar da digitalização e da automação, o crescimento da produtividade não tem acelerado. Porquê?

Parte do problema está na recuperação da crise financeira ser longa e lenta. Mas apontaria, também, as políticas, particularmente nos EUA, que levaram a um crescimento maciço de monopólios e oligopólios. Esses gigantes, mais proeminentes no sector da tecnologia, usaram os enormes lucros que obtiveram e a influência política para esmagar concorrentes, deixando muito pouco oxigénio para novas ideias.

Os malefícios do capitalismo monopolista estão de volta?

Há toda uma nova área de investigação económica que aponta para o monopólio crescente como fonte de muitos dos problemas económicos e sociais mais arraigados de hoje — do baixo crescimento da produtividade à desigualdade. Neste último aspeto, os empregadores que desfrutam de uma situação de monopsónio [em que a empresa domina o mercado por ser o único comprador] podem intimidar os trabalhadores impondo baixos salários, e porque a concentração do poder empresarial torna muito rico um pequeno número de oligarcas no topo.


Portugal está absolutamente em risco, embora esperemos que continue num ciclo virtuoso”

As estimativas do Instituto Internacional de Finanças sobre a dívida mundial apontam para um crescimento excessivo do crédito, de novo. Isso é mau?

Se as taxas de juros reais globais de longo prazo permanecerem em níveis historicamente baixos, então o aumento nos níveis da dívida global até pode ser considerado como algo benigno. Mas tudo isso pode ir por água abaixo se as taxas reais subirem um ou dois pontos percentuais, regressando a níveis de há seis ou sete anos.

E que países são mais vulneráveis a essa mudança?

Há alguns que são tão vulneráveis que até estão a ter já problemas para enfrentar o aumento ainda suave das taxas de juro reais em virtude da subida modesta e gradual das taxas da Fed. Além da Argentina e da Turquia, há muitos outros emergentes vulneráveis, como a Indonésia e o Brasil.

Corremos o risco de uma nova crise da dívida na zona euro?

No atual mundo de taxas de juro tão baixas, a Europa pode continuar a ‘desenrascar-se’. Os alemães até podem reclamar, mas estão com custos muito baixos no seu endividamento. É claro que qualquer coisa que abale a embarcação — seja uma crise financeira na China, um aumento forte nas taxas de juro reais globais ou uma guerra cibernética — pode levar a que o consenso político que atualmente mantém o euro unido entre em colapso. A longo prazo, considero altamente provável que pelo menos um país atualmente no euro venha a sair. O ‘Brexit’ é a prova disso.

Portugal está fora do risco soberano?

Portugal está absolutamente em risco, embora esperemos que continue num ciclo virtuoso. Os investidores parecem muito mais preocupados com a Itália e a Grécia.

Estamos a beneficiar sobretudo das compras de dívida pelo BCE ou das políticas do Governo?

Ambas ajudaram, mas Portugal também beneficiou do ambiente de taxa de juro real muito baixo e da recuperação global do mercado financeiro.

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