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VASCO PULIDO VALENTE

“TRUMP É A AFIRMAÇÃO BRUTAL DA IDENTIDADE AMERICANA”

Afastado do comentário político há mais de um ano, Vasco Pulido Valente mostra-se especialmente preocupado com o que vê no estrangeiro. Em Portugal, passada a fase das grandes questões de regime, “agora é o recreio”

textos Luís M. Faria fotografias Tiago miranda

Durante décadas, Vasco Pulido Valente teve colunas em jornais como Expresso, “O Independente”, “Diário de Notícias”, “Público” e “Observador”. Os leitores habituaram-se à regularidade da sua prosa culta, não raro ácida, que lhes traduzia a realidade num patamar alto de inteligência, mesmo quando não concordavam. Há pouco mais de um ano, parou de escrever por motivos de saúde. Retido em casa, uma fatia não insignificante dos seus dias é dedicada à TV. Entre assuntos sérios e trivialidades, muitas coisas lhe chamam a atenção. Reparou, por exemplo, na lucidez algo insólita (pelo contexto, não por si mesma) do selecionador nacional Fernando Santos em relação à sua equipa. Também acompanhou a saga de Bruno de Carvalho, sobre o qual facilmente o imaginamos a escrever um artigo com uma opinião surpreendente mas certeira — fruto não de um desejo de originalidade, como alguns poderão pensar, mas da vontade de compreender melhor.

O mês passado saiu um novo livro dele: “No Fundo da Gaveta” (ed. Dom Quixote), uma obra histórica composta por dois fragmentos escritos no final dos anos 80 e há muito esquecidos. É sobre duas fases do período liberal. Um dos fragmentos, em particular, refere-se a uma altura em que os Governos portugueses se depararam com a necessidade de atender às aspirações económicas de uma classe média emergente. Aproveitando o pretexto, perguntámos-lhe como vê o facto de tantas notícias nos nossos telejornais se referirem a protestos e exigências de classes profissionais: professores, enfermeiros, polícias, juízes, investigadores e uma infinidade de outros. Se o facto de essas notícias existirem não surpreende, o espaço que ocupam na agenda noticiosa portuguesa, comparando com a de outros países, é uma certa anormalidade.

“As notícias são feitas por uma parte da classe média”, responde. “A anormalidade tem a ver com a anormalidade do papel do Estado em Portugal, que é bastante maior do que noutras sociedades. E os noticiários são muito enviesados. Sobretudo, são enviesados à esquerda. Refletem a visão que a esquerda portuguesa de classe média tem do mundo. Na escolha das notícias do estrangeiro, das que se dão sobre a sociedade portuguesa, dos comentários que se fazem.”

Pedimos exemplos concretos, mas ele resiste. A nível internacional, acha enviesada a cobertura de temas como Trump ou os refugiados, por exemplo? “Não é a questão de se falar do Trump, é a maneira como se fala. Os refugiados também são um bom exemplo. Quando se menciona o problema que põem à Europa, diz-se que todos eles têm o direito de serem recolhidos, e, em princípio, de serem aceites. Porque a Europa precisa de refugiados, devido às taxas de natalidade baixas, e os protestos contra a entrada deles são maus. Os problemas das sociedades de acolhimento parece que se resumem ao facto de a Itália e a Grécia terem um excesso de refugiados. A Hungria, a Polónia, a República Checa, mais os bávaros, em suma, todos os que não querem refugiados, são manifestações do mal. Ninguém considera a perspetiva deles. Essas sociedades de acolhimento são nações recentes, com uma história difícil e conflituosa. As suas fronteiras só são estáveis desde o fim da II Guerra, e ainda por cima houve 70 anos de ditadura soviética, que não deixava ninguém manifestar-se nem permitia às questões nacionais emergir.”

 Livro “No Fundo da Gaveta” (ed. Dom Quixote), uma obra histórica composta por dois fragmentos escritos no final dos anos 80 e há muito esquecidos, é o novo livro de Pulido Valente

Livro “No Fundo da Gaveta” (ed. Dom Quixote), uma obra histórica composta por dois fragmentos escritos no final dos anos 80 e há muito esquecidos, é o novo livro de Pulido Valente

Se no centro da Europa as coisas são complicadas, mesmo em países do sul há problemas. A crise na Catalunha é um exemplo óbvio, mas a Itália também tem uma nacionalidade recente. “As partes de Itália não se fundiram. Continuam a ser entidades independentes. O Sul não fala bem italiano, e a aprendizagem do italiano é uma forma de promoção social. O Norte, pela sua parte, acha-se diferente e superior e tem um ressentimento por os seus impostos servirem para suprir o subdesenvolvimento do Sul. Não se pode tratar a Itália como se trata França ou Portugal, que são os países mais antigos da Europa.”

Para mostrar a diferença, faz uma pergunta: “O que é que o nacionalismo português pode reivindicar? Não a língua, porque toda a gente fala português. Não o Estado, que existe desde o século XII. Reivindicações de fronteiras, há aquela célebre aldeia do Alentejo, Olivença. Queremos conquistar Badajoz? Não faz sentido. O nacionalismo português não tem reivindicações. É um dado com que toda a gente nasce. As opiniões que os portugueses têm sobre o nacionalismo dos outros deviam ser graduadas por esta situação. Mas não são.”

Uma educação de elite

Depois de ter vivido muitos anos ao lado do Colombo, Vasco Correia Guedes (os nomes que constam do seu B.I.) regressou à casa onde cresceu. É um apartamento no primeiro andar de um prédio em frente a um jardim na Avenida de Paris, a via tranquila que liga a Almirante Reis à Praça de Londres. A sala onde nos recebe está hoje diferente do que era então, até por faltar uma parede a meio — um erro que ele lamenta mas não foi a tempo de evitar. Por trás da cadeira onde se senta há uma parede inteiramente ocupada por um móvel com livros, a maioria dos quais parecem ser obras de História em inglês. Do outro lado vê-se um móvel mais pequeno cheio de volumes da Pléiade, a coleção de clássicos em língua francesa. Inglaterra e França foram dois polos originais da sua formação cultural. A segunda era então a referência geral em Portugal, mas ele também sempre teve uma ligação forte à primeira.

Cigarro após cigarro após cigarro, a conversa vai fluindo, e de vez em quando surgem memórias. Nos anos 50, quando o futuro historiador e jornalista era criança, os pais recebiam ali clandestinos a quem auxiliavam. A mãe levava ao médico os filhos destas pessoas que acolhiam em casa. Filha de Francisco Pulido Valente, um médico importante da época, tinha entrada direta nos hospitais sem que lhe fizessem perguntas. O pai, engenheiro químico e diretor numa empresa internacional, usava as suas contas para lhes fazer transferências financeiras. Duas figuras de quem se recorda de ver lá em casa nos tempos de criança são os líderes comunistas Octávio Pato e Cândida Ventura. Havia outras, incluindo algumas que não passavam do hall de entrada, para não serem vistas por mais gente do que o estritamente necessário.

Com os pais que tinha, a influência intelectual decisiva do avô materno — uma figura da I República — e o próprio ambiente sociocultural da altura, era natural o jovem sair de esquerda. E ele assim foi e se manteve até quase à década de 80, embora nunca pertencesse ao Partido Comunista. Os pais tinham deixado o partido por causa dos processos de tipo estalinista a que a Hungria sujeitou vários líderes comunistas acusados de titismo, em 1949 [a posição de independência em relação a Moscovo assumida por Josip Broz Tito, o líder da Jugoslávia, era a heresia do momento no bloco soviético]. Ele ficou, portanto, vacinado contra a tentação comunista mesmo antes das revoltas na Hungria (1956) e na Checoslováquia (1968), que afastariam muita gente da fé. Os pais, embora se tivessem tornado anticomunistas, continuaram a receber lá em casa gente do partido que conheciam.

Educado em várias escolas públicas e privadas, acabou por se licenciar em Filosofia. A sua afinidade era com o positivismo lógico e não com os filósofos franceses da época (Sartre e companhia), embora lhes apreciasse a obra literária. O rigor de pensamento servi-lo-ia bem no jornalismo, onde se estreou cedo. Uma passagem pelo “Diário de Lisboa”, terminada após os eventos que Artur Portela descreve no romance “O Código de Hamurabi”, foi seguida pela entrada na revista onde começou a ser notado.

Fundada em 1963 por um grupo de católicos progressistas, “O Tempo e o Modo” também acolhia republicanos laicos (Mário Soares era um deles), bem como membros do Movimento de Ação Revolucionária, estudantes que tinham vivido a crise universitária do ano anterior. Entre estes, encontrava-se aquele que já então assinava Vasco Pulido Valente. Além de publicar textos, ele tornou-se um elemento-chave na edição da revista, onde conheceu futuras figuras importantes da vida política e cultural portuguesa.

Foi como representante da revista que visitou pela primeira vez os Estados Unidos, aos 24 anos. A oportunidade de percorrer o país durante dois meses, conhecendo editores de revistas de referência, é algo que recorda com prazer. Ao longo dos anos continuaria a ir lá. De uma das vezes esteve no Dakota Building, em Nova Iorque, um endereço lendário de milionários e celebridades, onde se sentou num hall à espera de ver passar Lauren Bacall (acabaram por lhe dizer que a atriz usava outra porta). De outra vez, viveu num gueto de latinos em Washington.

“A revista que se vendia na tabacaria da esquina era a ‘Hola!’”, recorda. “Viam-se pilhas dela. Fiquei admiradíssimo e perguntei-me o que é os latinos de Washington tinham a ver com as aventuras da Isabel Preysler e os desgostos do duque de Cádis. Era por causa da língua. Eles só ouviam estações de rádio em espanhol — havia várias em Washington.”

“Nas lojas falava-se espanhol, e as pessoas que falavam inglês eram mal recebidas. Então o inglês europeu... Mas quando descobriam que se tratava de um latino, era diferente. Ao princípio percebi que havia uma rigidez contra mim. Eles começavam a perguntar de onde é que eu era. Quando dizia que era português, concluíam que era brasileiro e ficava tudo em família. Até eles apurarem que eu era brasileiro, havia uma reação põe-te-para-lá.”

Mesmo que Trump vá, o programa fica

O seu percurso posterior incluiu um doutoramento em Oxford (entre 1968 e 1972) com uma tese sobre a República; o ensino em várias instituições de ensino superior; e ainda algumas experiências de participação direta na vida política. Para não referir a sua extraordinária carreira de colunista, sem paralelo em Portugal. Mas nesta conversa ele prefere falar daquilo que identifica como a sua preocupação fundamental hoje em dia: o nacionalismo.

Ainda os Estados Unidos: “O nacionalismo americano estava ligado aos WASP [brancos anglo-saxões protestantes, acrónimo em inglês]. Quando alguém pensa num americano, não pensa num latino que lê poetas argentinos ou romancistas da Colômbia. Mas já há cidades do sul, e estados do sul, em que a população latina está quase a tornar-se maioritária. Daqui a trinta anos, por volta de 2050, os brancos estarão em minoria na América. E eles têm consciência disso. Pode-se aceitar, e é o multiculturalismo, ou resistir.”

“Se os Estados Unidos estivessem a ser ameaçados pela Rússia na Europa, estavam-se nas tintas para o maluquinho da Coreia do Norte. Ou o ignoravam ou deitavam lá uma bomba. O problema deles deixou de ser a Europa”

“Trump é a política da resistência, da afirmação brutal da identidade americana tradicional e popular. Além das macacadas que faz em público e dos tweets e de todas aquelas mentiras — sobretudo as mentiras, porque ele é um mitómano — há coisas por trás dele que são genuínas. Os males que traz não são superficiais, e mesmo que se vá embora, o programa fica. Ele representa o primeiro sinal trágico do grande problema da identidade americana, que os americanos sentem estar em causa. Toda a gente diz que é racista e xenófobo. Ele não é xenófobo em relação à população negra da América, porque essa, obviamente, já lá está. Em relação aos negros, talvez se dispusesse a disfarçar o seu racismo. Eles fazem parte da cultura americana. A reação tem a ver com os latinos. São pessoas que falam outra língua — uma língua universal, a segunda mais falada no Ocidente, com uma antiga tradição literária que não é só a do castelhano mas a da própria América Latina. É uma cultura bastante diferente que passa a estar presente na América. A aversão dirige-se em especial à população mexicana. Também é racista, mas se fosse só isso não teria tanto peso. É sobretudo xenófobo.”

A UE está a desagregar-se?

Como às vezes acontece nas colunas que assina, a linguagem assume um tom catastrofista — a expressão ‘tremendista’, associada a uma corrente literária dos anos 40, tem sido usada a propósito dele. “Eu não gosto de nacionalistas. Não gosto mesmo nada de nacionalistas. Mas isso não significa que não tenha olhos para ver. Há nacionalismos a emergir por toda a parte, e ainda vão aparecer mais. Alguns surgiram por causa da divisão de esferas de influência na Europa após o colapso do império soviético. A questão é que a UE só se pôde criar e manter por causa da hegemonia americana na Europa, que garantia a sua defesa, mas o nacionalismo americano é isolacionista.”

Para descrever o modo como os Estados Unidos concebem hoje o seu papel no mundo, invoca uma distinção, feita pelo ex-secretário de Estado, Henry Kissinger, no livro “Diplomacia” (ed. Gradiva), entre aquilo a que chama a América realista e a América missionária. A partir de 1945 e durante décadas, as duas coincidiram; defender a democracia e o mercado livre contra o comunismo era ao mesmo tempo no interesse da América e um serviço prestado ao mundo. Após o fim da URSS e a derrocada do bloco soviético, essa necessidade acabou. Com ela chegou também ao fim a América missionária.

“Por isso é que as elites europeias detestam Donald Trump”, diz. “O nacionalismo que ele representa com o tempo há de retirar toda a proteção à Europa, que, neste momento, está desprotegida no sentido mais banal, mais material do termo. Não tem Forças Armadas. Não há nenhuma potência militar europeia capaz de inspirar o mínimo respeito à Rússia. O senhor Putin entra na Crimeia e na Ucrânia, e a seguir faz o campeonato do mundo de futebol e toda a gente vai lá prestar vassalagem, como fez o Presidente português.”

Descreve a União Europeia como “póstuma de si mesma”. Como assim? “A moeda única e outros avanços aconteceram quando ela já estava condenada e só queria viver como parcela do mundo ocidental. No momento em que isso começasse a perder sentido, as potências da Europa não podiam ficar como estavam. Só se houvesse um exército europeu. Mas não pode haver. Qual é a linguagem de comando?”

“A União Europeia está a desagregar-se”, conclui. Diz que se a Europa de facto existisse os refugiados não constituiriam problema. Em 500 milhões de pessoas, o que seria um ou dois milhões? Concorda com Trump em que atualmente não há razão para os contribuintes americanos assumirem os custos de defender a Europa. Na sua opinião, os países europeus deviam não só gastar em defesa os 2 por cento acordados com a NATO como ir muito para lá disso — e por iniciativa própria.

Também acha que não existe nenhuma incompatibilidade relevante entre os interesses russos e os americanos. “Se os Estados Unidos estivessem a ser ameaçados pela Rússia na Europa, estavam-se nas tintas para o maluquinho da Coreia do Norte. Ou o ignoravam ou deitavam lá uma bomba. O problema deles deixou de ser a Europa. Se fosse, Trump não se atrevia a misturar russos nos negócios dele, como já admitiu que fez.”

É só abrir o frigorífico...

Quanto à Rússia, acha que é uma potência conservadora. “Parece que não, mas são. Eles anexaram a Crimeia, mas na verdade a Crimeia sempre foi deles. Os russos é que a conquistaram, não os ucranianos. Ela foi dada à república socialista da Ucrânia por Khrushchev, porque ele tinha sido o líder do partido lá. Isso não teve importância enquanto tudo fazia parte da URSS, mas quando ela acabou, os russos acharam que lhes tinham tirado a Crimeia. E acharam bem.”

Diz que desde o século XIII a Rússia não invadiu ninguém. “Foi sempre invadida. Só estiveram tropas russas no Ocidente por arrasto. Vieram atrás do Napoleão, a pedido dos outros [enfatiza estas quatro palavras], da Áustria e da Inglaterra. E durante a primavera dos povos, em 1848, quando houve revoluções por toda a Europa, os russos intervieram diretamente na Hungria e mandaram tropas para Itália a pedido dos austríacos. No século XX, tornaram a vir por arrasto. Hitler primeiro, quis partilhar a Polónia com eles e depois invadiu-os.”

 Retrato Vasco Pulido Valente, fotografado há duas semanas, em sua casa na Avenida de Paris, em Lisboa

Retrato Vasco Pulido Valente, fotografado há duas semanas, em sua casa na Avenida de Paris, em Lisboa

“Os interesses clássicos da Rússia não são na Europa Ocidental, mas para leste e para sul: o porto de água quente e o Bósforo. Eles fizeram várias tentativas para liquidar a Turquia. Queriam comandar a saída para o Mediterrâneo e para o mundo. Isso hoje é menos importante, porque os transportes são melhores e eles têm mais relações com a Rússia oriental, com a franja Pacífica e os portos de água quente que existem lá — portos que são utilizáveis o ano inteiro. Mesmo assim, continua a ser mais fácil saírem pelo Mar Negro, pelos Estados do Cáucaso. E ninguém lhes disputa isso.”

“Não há nenhum antagonismo entre a Rússia e os Estados Unidos”, insiste. “Nem sequer do ponto de vista cultural ou económico. Ainda terá de passar muito tempo até os russos concorrerem com a América. Os chineses fizeram isso rapidamente, mas a Rússia não pode, por razões difíceis de explicar. Porque é uma massa continental muito grande, semidesértica, semipolar. Por causa das línguas. Da própria cultura política e económica, da cultura cívica e religiosa...”

No Pacífico também não identifica querela nenhuma entre americanos e russos. (Há com a China, por causa das vias marítimas cuja abertura continua a ser garantida pelo poder americano, mas isso tem a ver com o interesse nacional dos EUA). E mesmo na Europa, significativamente, “os americanos não reagiram quando os russos submeteram a Geórgia e alguns pequenos Estados”. “Estão-se nas tintas. É evidente que os russos podem fazer umas coisas horríveis na Ucrânia, mas não saem disso. Não há interesses vitais russos nos estados bálticos ou na Polónia ou na Europa ocidental. Eles não querem mais terra. A Guerra Fria fez aquela fronteira, e ela vai ficar. Mesmo se a Europa oriental, se a Rússia tivesse lá algum interesse vital, não tinha retirado o exército vermelho.”

Não existe ao menos uma inquietação russa com a possibilidade de vir a ficar cercada por países que vê como potencialmente hostis? “Hoje em dia eles não têm o menor medo de estar cercados”, responde. No entanto, após a queda do anterior presidente ucraniano Víktor Yanukóvytch, a Rússia queria que a proibição de aderir à NATO ficasse consagrada na constituição ucraniana. Era apenas simbólico?

“Em grande parte, era. Mas não só. Há uma décalage entre o tempo real e o tempo cultural. Os russos mais velhos ainda acham que está ali uma fronteira e uma ameaça. Lembram-se de ter sido invadidos por ali. Os russos que nasceram depois de 1960, que tinham 18 ou 20 anos em 1989, não acham nada disso. Quando eu e os velhinhos da minha idade morrermos todos, a Rússia pode aceitar seja o que for da Ucrânia. Até que ela vá para a NATO. Mas nessa altura já não haverá NATO. Está-se a desfazer, porque a América já não quer. E uma das razões é por não estar interessada nessa história da Ucrânia.”

“Tenho dúvidas que o destino da Ucrânia seja com o Ocidente”, admite. “Se calhar é com a Rússia. Claro que os ucranianos querem viver como se vive na Bélgica. Tal como os portugueses querem viver como se vive na Alemanha. Ter o sistema de saúde da Suécia. E pagar os impostos da Bulgária. Isso queremos todos. Não há ninguém que não queira. É o problema dos países da periferia. As pessoas só querem o melhor do cardápio. Acham que é só abrir o frigorífico e está lá tudo.”

“Um exercício menor”, disseram-lhe

Ouvindo-o discutir a Rússia, vem à mente uma coluna sua de 1989 intitulada “Adeus, Gorbachev”. Escrita no momento em que começavam as manifestações anti-Moscovo nos futuros Estados independentes do Báltico, sugeria que esses factos anunciavam o fim político do então secretário-geral do PCUS, e talvez mais do que isso.

Quando não muito depois se deu uma sequência de eventos que reproduzia quase à letra as suas previsões, houve quem ficasse espantado. Como é que ele sabia? Perguntamos-lhe se aquela evolução era realmente inevitável, à luz dos seus conhecimentos na altura. Ele dá uma resposta inesperada: o que fez na coluna foi extrapolar a partir do que tinha acontecido em Portugal nos pós-guerra, quando Salazar, pela primeira vez, permitiu o aparecimento de listas da oposição.

“Convencido de que os portugueses lhe estavam muito agradecidos por ele ter conservado o país fora da guerra, consentiu que se fizesse a MUD, Movimento de União Democrática. Julgava que ia ganhar as eleições. Mas a reação dessa pequeníssima abertura foi avassaladora”, diz. “Porque as listas da MUD tiveram milhares de assinaturas em muito poucos dias, e ele ficou embasbacado. Como é que havia dezenas de milhares de cidadãos portugueses que iam assinar as listas da MUD?”

O ditador terá tido uma depressão nessa altura, segundo contam biógrafos. Fatores pessoais à parte, a ideia é que em ditaduras não se pode abrir uma linha de fratura, por mais pequena que seja. “Uma pequena abertura pode dar para meter uma alavanca”, sintetiza Pulido Valente.

Para quem acha que a História não dá lições, não está mal. De qualquer modo, e como ele também avisa, ninguém se pode lembrar de uma História que não estudou. O livro agora publicado foi o começo de uma tentativa de preencher essa lacuna em relação ao período liberal, que durante muito tempo foi pura e simplesmente omitido nos programas do liceu. Uma herança salazarista cujas consequências se estendem até hoje, a avaliar pelo desconhecimento quase total de boa parte dos portugueses na matéria.

Os dois fragmentos que constituem “No Fundo da Gaveta” foram apresentados no ICS em 1989 e destinavam-se a ser o germe de uma história narrativa desse período. A falta de reação por parte dos colegas impediu-o de dar continuidade ao esforço. “Achavam um exercício menor.” Sendo ele um autor que na altura já tinha um valor comercial visível, não houve uma editora recetiva? “O Círculo de Leitores. Mas não compensava a falta de um apoio académico. E isso foi unânime.” Faz questão de explicar que apoio aqui significa apenas uma reação dos colegas, qualquer que fosse — nem que fosse só perguntarem-lhe como é o que o esforço estava a andar. Não houve nada. Pouco depois, usa a expressão “sobrevivente da academia” para designar um historiador mais novo que aprecia.

“O nacionalismo português não tem reivindicações. É um dado com que toda a gente nasce. As opiniões que os portugueses têm sobre o nacionalismo dos outros deviam ser graduadas por esta situação. Mas não são”

Na ausência dessa obra que não chegou a ser escrita, ele recomenda a de Oliveira Martins (“Portugal Contemporâneo”), ressalvando: “É uma peça de uma polémica que ele tinha com o mundo dele. Não é uma história, por assim dizer, académica”. Quando à sua que ficou pelo caminho, diz que não chegou a ser um projeto ou sequer uma ambição — foi um desejo que não passou disso por falta de eco. “Os meus melhores amigos achavam que era uma coisa sem interesse. Porque não explicava quantos quilómetros de caminho de ferro e de estrada se tinham construído, e que quantidade de trigo se tinha produzido. Estavam interessados, quando muito, numa história social. Acabei por ceder ao que me diziam e escrevi o meu pior livro, ‘A Revolução Liberal’. Por fraqueza, aceitei aquele ambiente como tolerável. Foi a época em que convivi mais com os meus colegas do Instituto e trabalhei mais seguidamente, fisicamente, lá.”

Essa fase durou dois anos, o que considera ter sido bastante. Quando lhe pôs fim, escreveu “Glória”, um dos seus livros mais populares, sobre a tragédia de Vieira de Castro, um escritor e político do século XIX que assassinou a mulher. “Eu estava muito aliviado nessa altura”, conclui. “Foi um tempo bom e um empreendimento bom.”

Da esquerda à direita

Nenhum artigo sobre Pulido Valente ficaria completo sem falar da política portuguesa atual. Para quem o leu pouco ou não lhe conhece o currículo, convém assinalar as duas vezes em que se envolveu mais diretamente na vida política: uma, em 1979, quando foi secretário de Estado da Cultura de Francisco Sá Carneiro, e a outra, em 1985, quando colaborou na candidatura de Mário Soares à Presidência. Também houve uma passagem breve e infeliz pela Assembleia da República, já na década de 90. E, a outro nível, o trabalho com Eanes na RTP a seguir ao 25 de Abril, dois anos depois de ter regressado de Oxford.

O seu conhecimento sobre política é assim teórico e prático ao mesmo tempo, tendo um lado pessoal. Pode comentar os protagonistas atuais à luz dos anteriores, embora reconhecendo que as circunstâncias são muito diferentes (comparando com as grandes questões de regime que se puseram até 1982, diz, “isto agora é o recreio”). Tendo-se inscrito primeiro no PS, mudou para o PSD em 1979 quando percebeu que o PS estava a usar o Estado “para se sustentar e para através dele criar e manter uma pequena burguesia, que se acha revolucionária e que é, pura e simplesmente, a raiz do fascismo possível”. “O Estado que hoje existe, com os seus 400 mil funcionários, as suas infinitas empresas, a sua Reforma Agrária, o seu domínio da banca, do ensino, da comunicação social, não será nunca uma fonte de igualdade, (...) autoritário e explorador, prolonga e completa aquele que herdámos da tradição e de Salazar” (do prefácio à sua primeira recolha de crónicas, “O País das Maravilhas”, 1979).

Para ele, o crescimento excessivo do Estado compromete o valor da igualdade, entre outros efeitos perniciosos. Quanto disto são lições da História portuguesa — nomeadamente, as sucessivas bancarrotas do século XIX — quanto a influência do sistema inglês, não podemos dizer. Mas parece inegável a consistência da visão, mesmo com eventuais tropeços na aplicação à realidade imediata. Quarenta anos depois, ele continua a defender a redução do papel do Estado como condição para a evolução económica e social portuguesa.

Admirador de Passos Coelho pela coragem e persistência com que fez aquilo que na sua opinião era preciso, teve inicialmente uma visão muito negativa da presente solução governativa, a qual aliás batizou com uma famosa palavra (“geringonça”) já antes aplicada a outras situações. Hoje reconhece que Mário Centeno está a fazer um bom trabalho na redução do défice. Ao ponto de ter superado as suas expectativas? “Bom, não foi o Governo que superou as minhas expectativas”, responde. “Foi o crescimento da economia mundial, em particular da europeia, e os efeitos que isso teve em Portugal. Tenho 76 anos e já passei por fases de expansão. Sei que normalmente é curto e que a seguir, mesmo que não venha uma recessão, o crescimento abranda e pode mesmo estagnar.”

Quanto aos atuais desentendimentos entre o PS e os seus aliados à esquerda nas negociações para o Orçamento, acha que não vão abalar o Governo, pois o que está em causa não é suficientemente grave para isso. “Não é proporcional à retórica dos partidos, e ao eco que essa retórica tem nos media”, diz. De qualquer modo, embora a dívida portuguesa em relação ao PIB tenha baixado, a dívida absoluta permanece enorme e vai continuar a ser uma limitação durante muito tempo. “A dívida não tem quem a represente ou quem a representa não está cá”, sintetiza.

Sobre os acordos de descentralização entre o PS e o PSD, é cético: “O que Rui Rio e António Costa querem fazer não é uma descentralização, mas apenas uma devolução de um certo número de competências. Não as essenciais. Por exemplo, fica-se responsável pelas escolas mas não pelos professores. Isso é típico. E para quê? Para eles substituírem as redes de influência nacional que tinham. Como estas já não se mantêm através da vida partidária (a qual deixou de existir, sobretudo por causa das redes sociais, que dispensam as pessoas de se encontrarem fisicamente para discutir política), têm de ser mantidas à custa de dar empregos em massa.”

“Por isso é que eles os dois se entendem muito bem. Vão criar imensos empregos. Cada vez que o governo mudar, haverá uma camada de funcionários que serão promovidos ou nomeados para novos cargos. Aumentará inutilmente, e só por razões de política politiqueira, o aparelho do Estado, que já está profundamente desequilibrado.” Talvez a História só não dê lições porque raramente alguém as aprende.

Raio X de um país

Pedimos a Vasco Pulido Valente que comentasse atores e temas da vida política. Eis algumas das suas opiniões:

António Costa vs. Rui Rio

“Prefiro o António Costa. O Rui Rio é uma pessoa sem uma identidade política, sem uma identidade cultural. Não tem nenhuma visão para o país. E tem uma visão muito estreita do que é um partido político. Chegou ao PSD e fez três camadas administrativas para nomear um governo provisório. Há o governo governo, depois há os porta-vozes do governo, porque os membros do governo não sabem falar por si próprios, e depois ainda têm de ter um superintendente. António Costa é uma pessoa experimentada. Teve desde pequeno uma boa educação política. É uma pessoa segura e previsível. E é primeiro-ministro. É bom que o primeiro-ministro seja uma pessoa segura e previsível. O seu amo não é um superior político, mas o país. Visão não sei se tem, mas não transmite. Não é um dirigente carismático, é um diretor-geral em quem a gente pode confiar. São duas pessoas absolutamente vulgares. Mas o Rui Rio é a imagem da incompetência, do capricho, de alguém que muito claramente foi promovido acima das suas capacidades. Quando António Costa vai a despacho com o país, a gente sabe o que ele vai dizer.”

Partido Comunista Português

“O Partido Comunista não depende das circunstâncias para ter mais ou menos eleitores. É o único partido português que pode dizer que é uma grande família. São grupos endogâmicos, casam uns com os outros, vão aos mesmos sítios. Isso garante uma certa estabilidade do eleitorado, embora a renovação de gerações, que acontece, não baste para aumentar os votos ou mesmo para os manter completamente. É uma sociedade fechada.”

O sistema político tem um problema de renovação?

“Há imensas pessoas novas nos partidos. Os líderes têm cinquenta e tal anos, há gente como a Catarina Martins, o Pedro Nuno Santos. As pessoas estão é sempre à espera de que apareça um novo Sá Carneiro ou um novo Mário Soares. Mas isso não pode acontecer, porque essas pessoas, e outras que eles arrastaram com elas, tiveram o tamanho e o estatuto que tiveram porque os problemas também eram grandes. As pessoas eram iguais à dimensão dos problemas que resolviam. Ou cresceram com eles. Calcule o que teria sido a democracia portuguesa se tivesse persistido a regra tácita de que só a esquerda é que podia governar. Qualquer direita que voltasse era revanchista, era salazarista, etc. Se não fosse o Sá Carneiro, não sei o que teria acontecido. Ele fez a Aliança Democrática, que governou o país em paz durante três anos e meio. Para já não falar do Soares. Sem ele, o PC tinha tomado o poder. Mesmo sem implantação nacional completa, tinha o número de militantes, de oportunistas e de militares suficientes para tomar o Estado Nacional. E depois reprimir. O Vasco Gonçalves já falava abertamente em campos de trabalho. O discurso de Almada, em que ele diz que a luta de classes é cada vez mais intensa à medida que se avança para o socialismo, foi o que o Estaline fez antes de começar a repressão. Aqui começava-se a dizer: uma só solução, fuzilar a reação. E o Cunhal diz: não, tenham calma, não é já. Se o PC não quisesse, não havia essa palavra de ordem. Aquilo foi lançado para o Cunhal dizer ‘ainda não’.“

Marcelo Rebelo de Sousa

“Não tenho nada contra a mascarada que ele anda aí a fazer. Mas sei que as pessoas não podem representar uma coisa sem se tornarem essa coisa. A certa altura já ninguém distingue o dançarino da dança. Nem os próprios. Vão dançando, dançando, dançando, até dançarem para fora do palco. O problema não são as selfies. É que muita gente já acha demais, e o Marcelo passa a ser uma entidade que não é para levar a sério. Ele pode vir a precisar de ser levado a sério, numa situação política ou socialmente complicada em que tenha de definir os limites do permissível para conservar a estabilidade do regime. Até pode ser que haja uma nuvem e ele passe por dez anos de presidência sem um embaraço. É improvável, mas pode acontecer.”

Maioria absoluta

“Acredito que o PS e o Bloco de Esquerda vão ter maioria absoluta nas próximas eleições. O Bloco representa uma fatia crescente da classe média, em especial aquelas pessoas cujas profissões, antes identificadas com um estatuto socioeconómico superior, estão sujeitas a uma proletarização generalizada. Com cada vez mais gente a frequentar os graus superiores de ensino e dezenas de milhares a licenciarem-se, a natureza precária de muitos trabalhos qualificados não pode senão aumentar a base eleitoral do partido que, mais do que qualquer outro, se identifica com essa questão. Além dos cálculos eleitorais, isso pode constituir um problema no PS também por fatores de natureza diversa. Há figuras lá dentro — Isabel Moreira é uma delas — que poderiam perfeitamente estar no Bloco, e uma parte tradicional do partido resiste a essa fação.”

Peso (relativo) da corrupção

“O nosso problema não é a corrupção. Foi, primeiro, um problema fiscal — que o Estado pudesse cobrar os impostos que entendia cobrar. Durante muito tempo, não se conseguiu fazer, nem no tempo de Salazar. Só se conseguiu agora, com a informatização. A maneira como se gasta esse dinheiro também é bem fiscalizada no Parlamento. Onde é que há corrupção? O Estado tem umas coisas mais ou menos híbridas que a permitem. E existe a pequena corrupção, por exemplo nas autarquias, que encontramos em todo o mundo. A corrupção do Sócrates foi grave, porque atingiu o sistema financeiro e a maior empresa portuguesa. Espatifou a PT e deixou espatifar o Espírito Santo. Enquanto Passos Coelho cortou relações e não permitiu que o Governo interviesse naquelas manobras. Sabia que estava tudo corrompido e ia cair.” L.M.F.

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