CULTURAS

HAMLET, 22 ANOS

Guilherme Gomes (à esq.) é o ator principiante que Luís Miguel Cintra escolheu para o papel de Hamlet, e Isac Graça é Horácio Luís Santos

Guilherme Gomes (à esq.) é o ator principiante que Luís Miguel Cintra escolheu para o papel de Hamlet, e Isac Graça é Horácio Luís Santos

Manda a tradição que Hamlet seja por norma um ator a caminho da consagração. Mas Luís Miguel Cintra gosta de contrariar e escolhe um ator principiante

texto Cristina Margato

Dia 14 de maio de 2015. Passam alguns minutos das 15 horas. Um nível abaixo do palco, na sala de ensaio da Cornucópia, Luís Madureira faz um círculo com os atores e coloca-se no seu centro. Inspiram. Expiram. Dos sopros e respirações passam aos sons: “Aiaiaiaiaiaiai, papapapapapa, mamamamama, nhnhnhnhnh...” E é produzindo esses sons que ativam os músculos. Ao lado, em cima da mesa, repousam, por abrir, várias cópias de “Hamlet”, de Shakesperare, aguardando que as vozes que agora aquecem as leiam, de seguida.

À volta não há janelas. Armários forram as paredes, e, por cima deles, todos os pequenos espaços estão aferrolhados com caixas de figurinos. Cerca de meia hora depois, os atores juntam-se na mesa retangular colocada numa das extremidades da sala. A aula termina, depois de o grupo ter explorado várias possibilidades vocais e umas tantas canções. Já na mesa, uma cadeira vazia, ao centro, parece dividir o grupo. Para quem olha de fora, é óbvio que de um dos lados se juntam os atores mais velhos e do outro os mais novos. Rodrigo Francisco, no papel de assistente de encenação, dá início aos trabalhos. “Já sabem a primeira parte de cor?”, questiona. O grupo de atores mais jovem responde com o próprio texto: “Quem está aí?” Do outro lado da mesa, os mais velhos seguem atentos, em silêncio, a conversa entre as sentinelas, à volta do castelo de Elsinore. Esse grupo será convocado, ainda nessa tarde, quando for preciso ensaiar a representação do encontro do jovem príncipe com os velhos comediantes.

“O Guilherme é um ator notável, um tipo que está fora de todas as convenções do que é um jovem ator”, diz Cintra

Luís Miguel Cintra chega pouco tempo depois. Sem alarido, ocupa a cadeira ao centro, para de seguida anunciar que em breve todos conhecerão a dramaturgia que está a finalizar. Entre cortes, ajustes e liberdades que tomou sobre a tradução de Sophia de Mello Breyner encontra-se a criação de uma cena de Hamlet, logo de início, que coloca o príncipe da Dinamarca dentro do túmulo do pai, para dali o fazer erguer e coroar o seu cadáver, gritando: “Viva el Rei!”

Guilherme Gomes, Hamlet, repete o texto ainda sem a preocupação de encontrar o subtexto. Habituado que está a dizer poesia desde a adolescência, não se assusta com a quantidade de palavras que Hamlet tem para dizer. A voz é melódica, elegante e poética, como a tradução que Sophia de Mello Breyner foi fazendo de “Hamlet” ao longo da sua vida. Mas mesmo quando Guilherme se impõe num tom ligeiramente mais forte e firme, nele não há sinais de querer esconder a natureza dos seus apenas 22 anos. O timbre não se veste, a voz não se engrossa. Hamlet, ali, ainda que numa fase inicial do trabalho, já é um ser que vacila, entre o legado que o pai lhe deixa, a vingança que este lhe exige e a dificuldade de repor a verdade.

Ao renunciar à tradição de eleger um ator a caminho da consagração e ao escolher para Hamlet um ator tão jovem, que ainda faz rodear de outros jovens, Luís Miguel Cintra não só desafia o uso teatral como acentua a imaturidade de Hamlet. Num ato deliberado, o fundador da Cornucópia prefere perspetivar um confronto de gerações, e nele faz representar jovens inexperientes, que os adultos obrigam, “à luz de uma ideologia postiça, a comportarem-se de uma determinada maneira, encurralados entre a missão que acham que têm e a realidade que encontram”. Até porque o problema da peça é concreto e tem a ver, como diz Luís Miguel Cintra, com o facto “de o papel do protagonista ser desproporcionalmente enorme em relação aos outros”. E é essa a razão pela qual a personagem de Hamlet reclama um ator forte e experiente, em quem o encenador possa confiar. Sem problemas de escolher o risco e a vertigem, Luís Miguel Cintra renuncia a essa herança e não opta, como diz, em jeito de clara provocação, por “um ator que se reja pelas leis do mercado”. Ainda que, como reconheça, acabe, ironicamente, por apresentar esse mesmo jovem principiante ao ‘mercado’, palavra que não usa inocentemente. Por seu lado, e para Guilherme Gomes, o peso que Hamlet lhe poderia trazer acaba por se diluir na vontade que o encenador tem de ir ao encontro dos atores, procurando, como diz o próprio Guilherme, “a honestidade do trabalho que estamos a fazer”. Porque se o segredo de uma boa direção de atores, como confessa Cintra, está em nunca pedir a um ator algo que ele não possa fazer, também está na sua escolha: “O Guilherme é um ator notável, um tipo que está fora de todas as convenções do que é um jovem ator, um tipo estranho e diferente, que não se rege pelas regras normais na relação com outras pessoas e para quem a linguagem poética não tem qualquer espécie de problema.” O texto de Sophia, por seu lado, não dispensa essa habilidade poética. Luís Miguel Cintra realça que este “Hamlet” é de alguém que “tem ouvido para a palavra dita” e que quer ir ao encontro do desejo de fazer a peça mais conhecida de todas da maneira a que as pessoas a conheçam e percebam, porque muitas já viram “Hamlet”, mas poucas, no entender do encenador, a conhecem verdadeiramente, mesmo quando julgam conhecer. “A tradução é muito boa e nela não se sente a habitual dificuldade perante um texto formalizado. As cenas decorrem maravilhosamente.” A dada altura, Hamlet diz: “Palavras, palavras, palavras”, e é palavra a palavra que Cintra e Guilherme constroem a personagem. A experiência, que reúne a Cornucópia e a Companhia de Teatro de Almada, não demora uma hora nem duas. Mas quatro! Ainda que Luís Miguel Cintra tenha a clara noção de que já entrámos naquele tempo em que só se fazem versões abreviadas dos clássicos e que o repertório em que insistiu toda a vida tende a acabar. Aproveita por isso uma hipótese rara, num Festival de Almada onde diz ter encontrado um público que “não vem para censurar ou criticar, como acontece em tantos outros sítios de Lisboa, mas com vontade de gostar”. Se, no primeiro encontro, a disposição do elenco na mesa parece corresponder à ideia de confronto de gerações com que Luís Miguel Cintra parte para a encenação deste texto, noutra visita, realizada algumas semanas depois, nas vésperas de os atores se instalarem no palco, já não há sinais de qualquer tipo de divisão. Ao longo da mesa, os mais velhos intercalam-se com os mais novos. A palavra, por mais poética que seja, já atravessa a carne. Porque Luís Miguel Cintra, garante o jovem Guilherme, não é dono de uma ideia fixa, mas “de uma vontade de perceber para onde caminham os atores”.

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