MÉDIO ORIENTE II
Barbárie no berço da civilização
A prova do crime apresentada pelos próprios: imagens divulgadas na internet mostram sicários do Daesh destruindo estátuas e outro património em Mossul, Nimrud e Hatra
Daesh destrói vestígios assírios e partas, património da humanidade
Foi na Mesopotâmia que nasceu a civilização, 5000 anos antes de Cristo, sucedendo-se sumérios, assírios, hititas e persas. Deles herdámos mais de 15 mil sítios arqueológicos no território a que hoje chamamos Iraque. Sugerindo um movimento no sentido inverso, ou seja, a regressão à barbárie (que já passara pela tortura ritual de prisioneiros e por limpezas étnico-religiosas) o islamo-gangsterismo promoveu três ataques sucessivos a vestígios arqueológicos classificados pela UNESCO. O Daesh (acrónimo árabe do Estado Islâmico) destruiu estátuas assírias no museu arqueológico de Mossul (26 de fevereiro), demoliu partes da antiga fortaleza assíria de Nimrud (5 de março) e vandalizou a cidade parta de Hatra (7 de março). E encenou tudo na internet.
“Nunca houve tanta destruição em tão pouco tempo e numa área tão vasta”, disse o antropólogo Hosham Dawod, antigo diretor do Instituto Francês para o Médio Oriente no Iraque ao diário “Le Monde”.
É uma atuação coerente com a dos talibãs no vale de Bamiyan (que dinamitaram imagens gigantes de Buda em 2001) ou a dos jiadistas do Mali na cidade de Tombuctu (que destruíram mesquitas sufis, túmulos de homens santos e manuscritos pré-islâmicos em junho de 2012).
No caso do Daesh o objetivo parece ser apagar quaisquer vestígios de civilizações anteriores ao Islão do séc. VII. Só na imaginação de George Orwell os regimes totalitários tinham ido tão longe na concretização do slogan de que “quem controlar o passado, controla o futuro”. Os nazis, à parte destruírem arte moderna considerada degenerada, limitaram-se a roubar e a esconder o melhor da pintura e da escultura dos países ocupados. Estaline obrigou o compositor Dmitri Shostahovich a sucessivas autocríticas mas nunca mandou demolir o Teatro Bolshoi.
Fanatismo à parte, a atuação do Daesh é de um cinismo total. Na verdade, e segundo Hosham Dawod, o tráfico de relíquias arqueológicas tem sido uma das grandes fontes de financiamento do grupo, a par do contrabando de petróleo, dos raptos e das extorsões.
Porque não intervieram os aviões americanos ou as tropas terrestres curdas ou iraquianas? Porventura a defesa do património histórico não será a primeira das suas prioridades mas, valha a verdade, têm preocupações mais prementes.
Tirando a reconquista de algum território do Curdistão iraquiano pelos peshmergas, nenhuma cidade importante do norte do Iraque foi retomada ao Daesh. Este continua a dominar a província oriental de Anbar que faz fronteira com as zonas da Síria onde ainda é forte.
Recentemente, o Daesh quase conquistou a cidade de Al-Baghdadi, a noroeste de Bagdade. A 12 de fevereiro apertou o cerco que durava desde setembro, combinou barragens de artilharia e ataques de infantaria com ataques à cintura defensiva com kamikazes, obrigando os defensores a recuar e a desproteger os civis, dos quais 200, incluindo prisioneiros, foram massacrados. A ofensiva só parou porque a base aérea iraquiana de Ain Assad (onde há aviões e “conselheiros militares” americanos) fica a 5 km e os helicópteros e jatos dos EUA deram cobertura ao contra-ataque governamental a 6 de março. Os jiadistas permanecem em Hit, imediatamente a sul.
Tem-se falado numa ofensiva terrestre sobre Mossul, segunda cidade iraquiana, mas a concentração dos 20 mil homens necessários está a ser mais lenta do que os americanos gostariam.
O ensaio geral desta ofensiva é o ataque a Tikrit, terra natal de Saddam Hussein, situada a um terço do caminho entre a capital e Mossul. O exército e as milícias xiitas já ocupam os subúrbios mas os jiadistas estão entrincheirados no antigo palácio do ditador e minaram os acessos. Receiam-se duas coisas: uma luta sangrenta e excessos das milícias xiitas, enquadradas pelo Irão, contra os civis sunitas.
Falando aos jornalistas o chefe do Estado-Maior norte-americano, general Martin Dempey, admitiu para breve a tomada de Tikrit ainda que “isso não signifique uma viragem estratégica na guerra. Contudo “porá à prova a capacidade do Governo iraquiano em reconstruir e pacificar”. No norte os curdos estão a tentar afastar o Daesh de Kirkuk (atacada em janeiro), estando a frente ainda a 20 km do centro. Rui Cardoso
Cristãos assírios recrutam ocidentais
As perseguições do Daesh aos crentes de outras religiões levam-nos a criar milícias e a aceitar veteranos estrangeiros
“Estamos a pedir ajuda”, diz Brett, um americano, num filme posto a circular nas redes sociais, rodado no norte do Iraque. “Venham combater. Precisamos de armas e de gente com treino militar”, diz o jovem, à frente de um grupo de combatentes de camuflado, um dos quais mascarado. “Os nossos mártires têm coroas. A terra dos dois rios está inundada de sangue. Louvados sejam os nossos mártires”, lê-se na mesma página. “Que as famílias da nossa grande nação voltem à sua segunda casa, o Iraque. Temos um destino comum”.
Dir-se-ia um vídeo do Daesh mas é de uma das várias milícias cristãs surgidas recentemente no Iraque e na Síria na sequência das perseguições dos jiadistas aos crentes de outras confissões. Calcula-se que haja 30.000 cristãos assírios no norte da Síria (sobretudo na cidade de Hassaké). Seriam 200.000 no Iraque, muitos em Mossul mas a maioria fugiu quando o Daesh conquistou a cidade no verão de 2014.
“Bem-vindos veteranos da América, Austrália, Reino Unido, Europa e Canadá que se alistaram na Dwekh Nawsha”, lê-se no Facebook, entre fotos de homens armados em poses triunfantes, vídeos patrióticos e outra propaganda. Dwekh Nawsha (autossacrifício em aramaico, a língua de Cristo, idioma da minoria assíria cristã do norte da Síria e do Iraque) é uma milícia fundada em agosto de 2014, associada ao Partido Patriótico Assírio.
Tem implantação à volta de Mossul, na província de Ninive. Já terá mais de uma centena de homens em armas e recruta cada vez mais ocidentais. “Estou aqui para matar os do Daesh”, disse Louis Park, veterano americano, em entrevista à Rádio Europa Livre no mês passado. Segundo Park, os ocidentais são voluntários e pagam o seu armamento. “Le Figaro” entrevistou franceses a caminho da Dwekh Nawsha.
Uns são motivados pelas imagens chocantes dos massacres do Daesh. Outros, por convicção religiosa. E alguns pelo desejo de combater. O fluxo de combatentes ocidentais para milícias anti-Daesh, outrora residual, começa a ganhar peso. Segundo Peter Henderson, especialista em minorias étnicas que visitou as milícias cristãs no fim do ano passado, “não se deve menosprezar a Dwekh Nawsha, embora atue sob cobertura dos peshmergas curdos, porque é um grupo com grande margem de progressão”.
Há outras milícias cristãs, como as do Movimento Democrático Assírio, próximas do Governo de Bagdade, que controlam a cidade de Alqosh. Ou as do Partido Democrata Bet-Nahrain. Esta semana o seu líder, Romeo Hakkari, em declarações à agência noticiosa turca Anadolu, anunciou que o Governo do Curdistão estava a dar instrução militar em Telsukuf, nos arredores de Mossul, a mil milicianos seus.
Na guerra civil libanesa centenas de mercenários cristãos, sobretudo da extrema-direita, juntaram-se às falanges cristãs de Kataeb e na guerra na Bósnia houve cristãos a lutar ao lado dos croatas.
São diferentes dos jiadistas? Luís Tomé, professor de Relações Internacionais na Universidade Autónoma, disse ao Expresso que “há semelhanças nas motivações individuais: luta contra as injustiças, desejo de aventura e recompensa financeira. Também há semelhança no recrutamento via internet e nas rotas de chegada à Síria e ao Iraque (via Turquia). Contudo, os cristãos estrangeiros (40) são em número significativamente inferior ao dos ocidentais jiadistas (4000), não têm uma conceção político-religiosa considerada radical ou extremista, e não aderem a grupos considerados terroristas”.
A maior parte dos governos ocidentais, incluindo o português, já criminalizou a associação ao Daesh. “Os países ocidentais têm neste fenómeno dos combatentes estrangeiros cristãos um novo dilema para resolver, que pode facilmente acentuar cisões político-religiosas violentas nas nossas sociedades”, acrescenta Luís Tomé.José Pedro Tavares Correspondente em Ancara