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Francisco Louçã

Era mesmo bom evitarmos uma situação belga

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Percebo que a questão mais delicada das eleições portuguesas seja evitar uma situação espanhola. Estou muito preocupado com esse risco. Nem digo uma situação catalã, embora me interrogue se é possível chegarmos a um equilíbrio asturiano ou até andaluz. Mas catalanices, isso não pode ser. Ora, mesmo com essa prevenção, Madrid está um inferno e também não queremos cá disso. O Ciudadanos não quer uma aliança com o Partido Popular, que quer com todos se for ele a mandar, o Vox não quer nem com um nem com outro, o PSOE quer com os dois primeiros mas não com o terceiro, ou pelo menos a sua abstenção, ou, sabe-se lá, uma aliança com o Podemos, que não pode entrar no governo mas teria um acordo assinado desde que seja nos termos definidos pela solução espanhola que deve ser igual à portuguesa.

Claro que há a possibilidade de uma variante alemã, mas a nacional, não a de cada estado, que as configurações locais são contraditórias e registam alianças de partidos da situação com alguns de oposição e vice versa. Uma solução alemã, então, nem pensem nisso. Uma solução holandesa ou finlandesa teria o seu interesse, assim todos os partidos, ou quase todos, no governo. Mas não vai dar, não corresponde aos bons costumes.

Fica a alternativa belga, que merece atenção e respeito: é não haver nenhum governo durante ano e meio, não consta que o país se tenha afundado, até está em primeiro lugar no ranking da FIFA e se não é isso que importa então não sei o que conta para a história

Há a hipótese italiana, partidos que se vão juntando e zangando como se jogassem mikado. É sofisticado, é elegante, surpreende, tem boas audiências, mas este feitio latino estraga sempre tudo.

Fica a alternativa belga, que merece atenção e respeito: é não haver nenhum governo durante ano e meio, não consta que o país se tenha afundado, até está em primeiro lugar no ranking da FIFA e se não é isso que importa então não sei o que conta para a História. Mas talvez seja de evitar, ainda pode haver algum problema financeiro e depois quem é que punha o dinheiro, diz-se que pode haver uma crise, que a Alemanha está assim e assado e é melhor pôr trancas à porta. Definitivamente, uma solução belga não pode ser. Estou até espantado por não ter ainda surgido um político sábio que tome a posição pela qual o povo desespera: nem pensar numa solução belga.

E já nem vos falo de uma solução norte-americana ou canadiana, ainda tínhamos de inventar mais uns partidos ou de reciclar o stock. Em qualquer caso, ao tomar estas hipóteses como bússola, assim se elevará o tom do debate político, que entre nós é sofisticado e gourmet, e passaremos a definir os rumos do mundo a partir desta ocidental praia lusitana.

Portanto, do que precisamos é de uma solução espanhola assim tipo portuguesa, como está bom de ver. Assumi-lo tornaria o debate eleitoral muito mais claro, não é verdade? Se não em Portugal, pelo menos em Espanha.