Jornadas Parlamentares do PS

Costa faz elogio da legislatura com recado a Marcelo e nega a Rio

<span class="creditofoto">Foto Lusa</span>

Foto Lusa

Nas últimas jornadas parlamentares do PS antes das eleições, o líder socialista recusou a “grande reforma da Segurança Social” reclamada pelo PSD e lembrou os tempos em que Marcelo lhe criticava o “otimismo irritante”. Ao contrário de César, não bateu na esquerda e apelou à humildade

Texto Filipe Santos Costa

O atual PS será insuspeito de desvios marxistas, mas os dois principais dirigentes do partido, António Costa e Carlos César, atualizaram e aplicaram a velha teoria marxista da divisão social do trabalho. César desanca nos parceiros de esquerda do PS, Costa atira farpas à direita; César abre caminho para acordos de fim de legislatura à direita, Costa deixa, pela omissão, pontes para eventuais novos acordos à esquerda.

Depois de dois dias em que o líder parlamentar do PS bateu forte e feio no BE em particular, e destratou em geral os parceiros da 'geringonça' - reconheceu a “ajuda”, mas avisou que, se dependesse dos parceiros, Portugal voltaria “ao colapso, à insustentabilidade e à desconfiança internacional e aos caminhos de penúria” -, Costa não perdeu tempo com as geometrias variáveis da maioria.

<span class="creditofoto">Foto Lusa</span>

Foto Lusa

O secretário-geral do PS limitou-se a concluir que “valeu a pena” trazer a esquerda para uma fórmula de Governo nova, constatando que houve estabilidade e que “foi possível cumprir todos os compromissos com os portugueses, com as instituições europeias e do PS com os parceiros parlamentares”.

Os ataques aos parceiros da 'geringonça' estavam cumpridos, e Costa dedicou-se a outros alvos. No balanço da legislatura que "valeu a pena", o líder socialista considerou que "olhando para trás até parece que tudo era fácil". Mas não - há quatro anos, lembrou, "muitos achavam que era impossível". Passos Coelho, recordou Costa sem o nomear, andava de iPad na mão a demonstrar que vinha aí o diabo.

E houve um tempo em que até Marcelo Rebelo de Sousa era descrente... "Não venham dizer que era fácil, alguns até achavam mesmo que era otimismo, e tão otimismo que era até irritante. Agora podemos deixar a irritação para os pessimistas", atirou Costa, numa farpa direta ao Presidente da República, que chegou a apontar o "otimismo irritante" do primeiro-ministro.

Reforma da Segurança Social já foi feita

Marcelo e Passos não foram os únicos protagonistas da direita presentes no discurso de 34 minutos de António Costa. Rui Rio também por lá passou, ainda que indiretamente. O líder da oposição tem acusado Costa de se limitar a "navegar à vista" e tem reclamado reformas estruturais, predispondo-se para as negociar com o PS. Mas esta terça-feira o secretário-geral socialista bateu com a porta na cara de Rio em reclamação a uma das principais reformas de fundo que este exige: a reforma da Segurança Social.

Se Silva Peneda, principal conselheiro de Rio nesta matéria, insistiu esta semana na urgência da reforma da Previdência, os sociais-democratas receberam a resposta de Costa: "A direita está sempre a dizer que é fundamental fazer a 'grande reforma da Segurança Social', como se a grande reforma da Segurança Social não tivesse sido feita por um Governo do PS em 2006 e 2007. Como sempre dissemos, aquilo que mais afetava a sustentabilidade da Segurança Social não era a necessidade nem de plafonar pensões nem de permitir 'opting out', nem fragilizar o sistema público da Segurança Social. O que é fundamental para dar sustentabilidade à Segurança Social é aumentar o emprego e melhorar os rendimentos."

“Dever democrático de sermos humildes”

Costa alega que, com as reposições de rendimentos, o aumento do emprego e o crescimento económico desta legislatura, "nestes quatro anos" o Governo PS aumentou "em 18 anos a sustentabilidade futura da Segurança Social". Foi o seu exemplo para contrariar a ideia de que o PS se limita a gerir o dia-a-dia.

"Resolvemos muitos problemas do imediato e estamos a corrigir grandes défices acumulados nos quatro anos da legislatura anterior, como por exemplo no Serviço Nacional de Saúde. Muito nos falta fazer e estamos a continuar a fazer. Mas não podemos deixar de sublinhar que não nos limitámos a gerir o presente, estivemos também a preparar futuro", assegurou o chefe do Governo.

Com o PS a cavalgar o balanço da legislatura - foram dois dias a olhar para o país cor-de-rosa, quase sem problemas na saúde, nos transportes públicos e outros serviços do Estado - Costa admitiu que é "claro que há muitos problemas do país". "Não temos em consciência de achar que vivemos num mar de rosas e é por sabermos que os problemas do país requerem uma visão de médio e de longo prazo que definimos uma agenda para a década."

É nessa agenda, apresentada há quatro anos, diz Costa, que estão as respostas para os problemas do país. "É necessário prosseguir as boas políticas para continuarmos a melhorar a escola pública, o SNS, os transportes públicos, a qualidade de vida dos portugueses, o seu rendimento e o crescimento da nossa economia."

Tal como César antes dele, Costa admitiu os problemas mas não perdeu muitos segundos com eles. Mas avisou: "temos o dever democrático de sermos humildes". E acrescentou: "Nunca ignorar que há muitos problemas que continuam a necessitar de nós". "A necessitar de nós", frise-se, numa demonstração prática do "dever democrático" de ser humilde.