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TRUMP NO REINO UNIDO

“Deixa-te ficar por aí Theresa, para podermos assinar um acordo muito, muito robusto”. “Boa tentativa, Donald, mas sou uma mulher de palavra”

Uma segunda versão do “bebé Trump” apareceu esta terça-feira em Trafalgar Square, epicentro das manifestações contra o Presidente dos Estados Unidos <span class="creditofoto">Foto Alkis Konstantinidis/REUTERS</span>

Uma segunda versão do “bebé Trump” apareceu esta terça-feira em Trafalgar Square, epicentro das manifestações contra o Presidente dos Estados Unidos Foto Alkis Konstantinidis/REUTERS

Acordo comercial “fenomenal” entre os EUA e o Reino Unido? Talvez, mas é preciso calma. Conter o Irão? Sim, mas com jeitinho. Guerra comercial com a China? É melhor não. Brexit? Sim, mas isso é connosco. Foram estas, em suma, as respostas que o Presidente norte-americana teve no segundo dos três dias de visita oficial ao Reino Unido. Além, claro, de várias manifestações contra a sua presença e a sua “força negativa”

Texto Ana França

Donald Trump está no Reino Unido e depois de um dia de pompa - leiam-se fraques, laços de cetim, candelabros, copos de cristal, comida gourmet e muitas palavras amáveis do presidente para a rainha e vice-versa - voltou-se para o trabalho “duro”.

Na manhã desta quinta feira, o presidente dos Estados Unidos reuniu-se com alguns dos mais importantes empresários do Reino Unido para discutir as possibilidades de que as empresas norte-americanas aumentem o volume de negócios com o Reino Unido na eventualidade de um Brexit, ideia que Trump defende.

“Acho que teremos um acordo comercial muito substancial. Isso é algo que a Theresa quer fazer e que, na América, também é muito bem visto. Fique por perto. Vamos a isto!”, disse Trump à primeira-ministra britânica durante a conferência de imprensa conjunta. Mas May recusou, com elegância: “Sou uma mulher de palavra.” Tradução: a minha saída está marcada para dia 7 e assim se mantém.

As preocupações com o Brexit estiveram na ponta das língua dos jornalistas que dirigiram algumas perguntas a ambos no fim das declarações individuais, mas Trump sublinhou que os Estados Unidos “estão comprometidos com um acordo fenomenal” com o Reino Unido assim que o país saia da UE, descansando as poucas centenas de manifestantes pró-Trump que se espalharam à frente do Parlamento. Os manifestantes contra a visita do Presidente foram muitos mais, mas Trump garantiu ter visto o contrário: “milhares de pessoas na rua a festejar.” Isto não aconteceu, como os vários jornalistas da BBC e do “The Guardian” comprovaram com os vídeos que foram colocando nas redes sociais mostrando largas multidões de opositores às políticas de Trump.

Milhares de britânicos manifestaram-se esta terça-feira nas principais artérias de Londres contra as políticas do presidente dos Estados Unidos, nomeadamente no que à imigração diz respeito <span class="creditofoto">Foto ANDY RAIN/EPA</span>

Milhares de britânicos manifestaram-se esta terça-feira nas principais artérias de Londres contra as políticas do presidente dos Estados Unidos, nomeadamente no que à imigração diz respeito Foto ANDY RAIN/EPA

Questionado sobre que tipo de negócios “fenomenais” esperava realizar no futuro com o Reino Unido, Trump disse que “tudo está em cima da mesa”. Os alarmes soaram de imediato, porque há muito que os britânicos têm medo que os Estados Unidos sejam um elemento de pressão para a privatização do Serviço Nacional de Saúde (NHS, em inglês). Os putativos sucessores de May alinharam-se como na recruta em defesa do NHS, declarando no Twitter que este é um dossiê inegociável. Dominic Raab, Jeremy Hunt, Matt Hancock, todos repetiram versões do grito de guerra dos enfermeiros e médicos britânicos quando se manifestam nas ruas: “Mãos longe do nosso NHS”

Theresa May começou a sua declaração aos jornalistas a lembrar a amizade antiga entre os dois países, recordando os momentos heroicos da sua história bélica partilhada, mas não deixou de enumerar os temas espinhosos que separam os parceiros transatlânticos. “Hoje discutimos novamente a importância de os nossos dois países trabalharem juntos para abordar a atividade desestabilizadora do Irão na região e garantir que Teerão não consiga adquirir uma arma nuclear. Apesar de divergirmos sobre os meios para o conseguir - eu já disse antes que o Reino Unido continua a apoiar o acordo nuclear -, está claro que ambos queremos alcançar o mesmo objetivo”, disse May.

Quanto ao Brexit, Trump disse que, se fosse ele, teria processado a UE. Mas “talvez ela seja melhor nisto do que eu”, disse de Theresa May. No passado tinha criticado fortemente a posição da primeira-ministra <span class="creditofoto">Foto Stefan Rousseau/ REUTERS</span>

Quanto ao Brexit, Trump disse que, se fosse ele, teria processado a UE. Mas “talvez ela seja melhor nisto do que eu”, disse de Theresa May. No passado tinha criticado fortemente a posição da primeira-ministra Foto Stefan Rousseau/ REUTERS

Logo a seguir referiu a China, sublinhando “o seu significado económico” e advertindo contra “ações que ameacem os interesses comuns e os valores partilhados” entre o Ocidente e o Oriente. Mais uma tomada de posição contrária à de Trump, que tem comprado guerras comerciais com a China quase a cada trimestre. Nem a questão ambiental ficou de fora - até porque, a julgar pelo resultado das europeias, há uma fatia considerável do eleitorado que deixou de considerar a preservação do planeta uma preocupação secundária.

“Reconhecendo que as nossas nações são mais seguras e mais prósperas quando trabalham juntas nos maiores desafios do nosso tempo, defini que os Acordos de Paris são a abordagem ideal para combater as mudanças climáticas, e por isso continuo a defendê-los”. A atual Administração norte-americana não está de acordo com as metas dos Acordos e não é alheia ao círculo próximo de Trump uma certa descrença na mera existência dessas mesmas mudanças.

Mas Trump também não desarmou, mantendo-se na linha do que costuma defender. Uma das maiores lutas do Presidente dos Estados Unidos é mesmo a divisão da fatura a pagar pela NATO, números que ele considera bastante desvantajosos para os Estados Unidos, exigindo constantemente que os orçamentos dos diversos países da Aliança passem a contemplar um investimento de pelo menos 2% do PIB na Defesa. Na conferência com May, Trump sublinhou esse número mas acrescentou uma frase mais dura: “Eles não têm hipótese. Têm de cumprir as suas obrigações”.

De facto, a União Europeia tem planos para desenvolver outras hipóteses, que permitam aos Estados-membros estarem menos dependentes dos Estados Unidos na questão da Defesa — e os homens de Trump não gostaram nada de saber disto.

Numa série de documentos a que o “El País” teve acesso no início desta semana, fica claro que os Estados Unidos não estão preparados para abdicar de uma fatia do mercado de armamento europeu. “Quando houver uma crise e as defesas europeias fracassarem, a população europeia não vai ficar muito contente ao saber que o armamento disponível na Europa é exclusivamente proveniente de dentro da própria Europa”, disse Michael Murphy, principal responsável pela Europa na administração norte-americana.

A primeira-ministra britânica está de saída do número 10 de Downing Street e o próximo nome a ocupar esta morada herda um cenário de boas relações diplomáticas <span class="creditofoto">Foto Carlos Barria/REUTERS</span>

A primeira-ministra britânica está de saída do número 10 de Downing Street e o próximo nome a ocupar esta morada herda um cenário de boas relações diplomáticas Foto Carlos Barria/REUTERS

Cordial com May, mostrando bastante respeito pelo seu esforço nos últimos dois anos de negociações sobre o Brexit, a verdade é que, nas próximas semanas, Trump terá um novo primeiro-ministro britânico com quem negociar. O que Trump tinha a dizer sobre o potencial sucessor de May tornou-se assim mais importante e foram dois nomes a receber o aval de Trump: Boris Johnson e Jeremy Hunt. Michael Gove, que deverá encontrar-se com Trump esta terça-feira, não recebeu o selo de aprovação - “Não o conheço muito bem”, referiu Trump. Quem também pediu uma audiência com o Presidente foi o líder da oposição trabalhista, Jeremy Corbyn, acusando-o de ser uma “força negativa”, expressão que usou também para Sadiq Khan, o ‘mayor’ de Londres que mantém uma espécie de duelo de esgrima no Twitter com Trump há mais de dois anos. “Força negativa” terá sido possivelmente o máximo de simpatia que as trocas de palavras entre os dois algum dia atingiram.