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Segurança

Azeredo sabia que Judiciária Militar agiu contra as regras da PGR e assume que não fez nada

Ex-ministro demitiu-se a 12 de outubro do ano passado, na sequência das notícias sobre o polémico memorando que foi entregue no Ministério da Defesa pelo major Vasco Brazão, inspetor da PJM, e coronel Luís Vieira, então diretor daquela polícia. Foi ouvido esta terça-feira no parlamento <span class="creditofoto">Foto Miguel A. Lopes/Lusa</span>

Ex-ministro demitiu-se a 12 de outubro do ano passado, na sequência das notícias sobre o polémico memorando que foi entregue no Ministério da Defesa pelo major Vasco Brazão, inspetor da PJM, e coronel Luís Vieira, então diretor daquela polícia. Foi ouvido esta terça-feira no parlamento Foto Miguel A. Lopes/Lusa

Ex-ministro da Defesa garantiu no parlamento só ter lido o memorando da PJM já após a sua demissão do Governo e que não informou António Costa sobre o conteúdo daquele documento

Texto Hugo Franco e Rui Gustavo

O ex-ministro da Defesa Azeredo Lopes esteve na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) esta terça-feira à tarde a responder aos deputados sobre o caso do roubo e posterior descoberta das armas de Tancos. Apesar de garantir que desconhecia a operação paralela da Polícia Judiciária Militar para achar o arsenal de guerra, admitiu que esta polícia agiu à margem das orientações estabelecidas pela então Procuradora-Geral da República Joana Marques Vidal, que tinha passado o caso à PJ e DCIAP, colocando a Judiciária Militar de parte.

“A PJM não seguiu as regras”, frisou Azeredo Lopes no Parlamento. O ex-ministro revela ter sentido “descontentamento” por parte dos investigadores da PJM por terem sido afastados da investigação por Joana Marques Vidal.

Sobre o memorando recebido pelo seu chefe de gabinete, o general Martins Pereira, no Ministério da Defesa, já depois da descoberta do material de guerra na Chamusca, Azeredo Lopes explica: “O que me foi transmitido pelo meu chefe de gabinete é que havia um informador que não podia ser identificado e que era preciso que alguém estivesse na margem sul para receber a informação sobre o paradeiro do material”. E acrescenta: “O senhor general disse-me o que era essencial do documento. Antes da minha demissão. Foi num telefonema, ou dois. Havia um informador, que também era informador da PJ, que não queria ser identificado e tinha de haver um modus operandi específico para que ele dissesse onde estava o material”.

Questionado sobre se tinha tido acesso ao documento escrito pela PJM, o ex-ministro é categórico: “Não tenho memória de ver o documento [o memorando]. Só o vi depois da minha demissão e fiquei confortado. Porque o meu chefe de gabinete me transmitiu o que era essencial que eu conhecesse”. Ou seja, Martins Pereira não lhe transmitiu “todo o documento”, nem tudo o que lá estava escrito, assegura.

Sobre esse informador, admite que teve “conhecimento” mas que não deu “conta ao primeiro-ministro da existência de um informador”. Salienta também que António Costa não teve conhecimento do memorando da PJM sobre a recuperação do armamento. Até porque no dia seguinte a ter conhecimento da informação participou num Conselho de Ministros especial por causa dos incêndios florestais que assolavam o país na altura.

E relata os tempos conturbados no auge do processo. “Fui acusado de mentir, de ter conhecimento do acordo com os ladrões e a partir desse momento percebo que chega, estava a prejudicar a função. Pedi ao primeiro-ministro se me podia receber e definimos o momento da nossa saída. Nessa altura deu-me a conhecer o documento que tinha recusado ver. Depois fui com aquela calma escrever a minha carta de demissão.”

Azeredo Lopes, que chamou ao memorando da PJM “documento apócrifo”, avança também que o chefe de gabinete não lhe transmitiu em direto o teor da conversa que teve com os dois interlocutores da PJM no Ministério da Defesa. “Em momento posterior, no decurso do dia ou no dia seguinte, o general [Martins Pereira] transmitiu a existência de um informador que não podia ser identificado.” Terá sido pedido ao seu chefe de gabinete que fotografasse o memorando e depois o destruísse. “Ainda bem que fotografou.”

Demissão de Azeredo Lopes

O ministro demitiu-se a 12 de outubro do ano passado, na sequência das notícias sobre o polémico memorando que foi entregue no Ministério da Defesa pelo major Vasco Brazão, inspetor da PJM, e pelo coronel Luís Vieira, então diretor daquela polícia. O documento, uma folha A4 sem timbre ou assinatura, referia uma encenação montada pela Judiciária Militar em torno da recuperação das armas roubadas em Tancos.

Azeredo Lopes reagiu, negando “categoricamente” ter tido conhecimento de qualquer “encobrimento” no caso da recuperação do material militar furtado nos paióis em Tancos. Mas as suspeitas de que poderia ter conhecimento da operação de encobrimento da PJM acabaram por levar à sua demissão, a 12 de outubro do ano passado.

Uma semana antes da saída de Azeredo, o seu chefe de gabinete, Martins Pereira, tinha confirmado à Lusa que recebeu Brazão e Vieira no Ministério da Defesa, referindo não lhe ter sido possível “descortinar qualquer facto que indiciasse qualquer irregularidade ou indicação de encobrimento de eventuais culpados do furto de Tancos”. Nessa declaração, Martins Pereira não fez referência a qualquer documento que lhe tivesse sido entregue pelos dois responsáveis da PJM.

Contudo, na semana seguinte anunciou que fez chegar ao Ministério Público a “documentação verdadeira” que recebeu por parte dos elementos da PJM.