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Antes pelo contrário

Antes pelo contrário

Daniel Oliveira

Adultos de todo o mundo, cresçam!

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Volodimir Zelensky é um humorista e ator de 41 anos. Ser humorista e ator não o tornaria menos capacitado para a presidência da Ucrânia do que um advogado, um empresário ou um jornalista. Só que não se lhe conhece nenhuma atividade política ou profissional que o torne minimamente apto para o cargo. Nem sequer se lhe conhece qualquer intervenção cívica nos momentos mais conturbados da conturbada política ucraniana. E mais de 70% dos ucranianos votaram nele sem fazer a mais pálida ideia do que defende. Deu duas entrevistas durante a campanha. Uma foi estritamente pessoal, acompanhado da sua mulher, outra foi no canal onde trabalha e durou 15 minutos. Os seus comícios foram sessões de stand-up comedy e só foi a um debate, no Estádio Olímpico de Kiev, com claques.

Zelensky já era famoso, mas foi a sua última sitcom que o tornou num fenómeno político. Em “Servo do Povo”, representa o papel de Vassili Goloborodko, um professor impoluto que chega à presidência para combater a corrupção e até mata, em pleno Parlamento, uns quantos deputados, com a arma do seu guarda-costas. Não vi a série, mas promete. Volodimir Zelensky pode não ser um político experiente mas não é parvo e deu ao seu novo partido o mesmo nome da série. Venceu por larguíssima margem as últimas eleições ao oligarca e ainda Presidente Petro Poroshenko. E foi a personagem fictícia de Goloborodko que lhe deu a presidência real.

Zelensky já era famoso, mas foi a sua última sitcom que o tornou num fenómeno político. Em “Servo do Povo”, representa o papel de um professor impoluto que chega à presidência para combater a corrupção. Foi esta personagem fictícia que lhe deu a presidência real. A relação dos povos com a política infantilizou-se a ponto de deixarem de distinguir realidade e ficção

A Ucrânia não tem grande margem para falhar. Está intervencionada pelo FMI, tem uma guerra dentro de portas, um vizinho gigante e hostil, parte do seu território anexada, uma corrupção endémica e uma economia em crise económica profunda. Esta eleição, num momento tão difícil e tão importante para o país, é uma estrondosa exibição de falta de maturidade coletiva.

A estratégia de Zelensky foi a de pedir propostas para o seu programa nas redes (tem 3,3 milhões de seguidores no Instagram e o derrotado Presidente Poroshenko tem apenas 223 mil) e não apresentar nenhuma em público. Isso poderia comprometê-lo com posições políticas, desagradar a alguém e tirar-lhe votos. Limitou-se a prometer combater a corrupção, expediente de quem, na Ucrânia e em todo o mundo, não tem nada para dizer mas quer votos fáceis. Claro que, não se conhecendo as posições de Zelensky nem qualquer competência para governar, outro qualquer mandará por ele. Muitos desconfiam que será o seu patrão, o dono do canal privado 1+1, Igor Kolomoisky, que viu o seu PrivatBank nacionalizado e o quer recuperar.

Dos eleitores, quando tudo correr como evidentemente correrá, virá a justificação de que não havia escolha melhor. Tinham um corrupto e um palhaço pela frente. Mas a democracia não é um mercado onde consumimos o que nos é oferecido sem produzirmos nós próprios a oferta. Não somos agentes passivos da nossa própria História. Se a escolha era entre o corrupto que elegeram nas últimas eleições e o palhaço que elegeram nestas é porque a sociedade ucraniana não soube produzir melhor do que estas alternativas.

A relação dos povos com a política infantilizou-se. O padrão da eleição de idiotas incapazes, que ou divertem os eleitores ou “dizem as coisas como devem ser ditas”, é retrato de uma cidadania adolescente que se revolta sem assumir a responsabilidade de construir qualquer coisa com essa revolta. Ao ponto de um humorista e ator vencer umas eleições presidenciais porque as pessoas se sentem inspiradas pela personagem que ele representa numa série. A ponto de, como as crianças, deixarem de distinguir a realidade da ficção. Mas mesmo onde ainda o conseguem fazer parecem optar pela birra. O chamado voto de protesto não pune o “sistema”. O “sistema” que julgam punir safa-se bem quando a escolha do povo é inconsequente. Não são os ricos que pagam a fatura das crises, não são os poderosos que sofrem com o medo no meio do caos, não são os milionários as vítimas da ausência de Estado, não são os políticos que precisam da democracia. Não vale a pena rirem-se da partida que pregaram a si mesmos. A fatura de transformarem uma eleição numa anedota será paga por eles. E pelos seus filhos e netos.

Não se pode mudar de povo e de nada serve criticar as escolhas erradas que faz. Temos de ser capazes de compreender as origens da revolta. Mas também temos de parar de falar de “eles” e de “nós”. “Eles” que se revoltam e “nós” que temos o dever de perceber a sua revolta. Porque “nós”, os que agem com responsabilidade cívica, também sentimos a revolta quotidiana com a injustiça. E, ao contrário de quem elege imbecis ou palhaços, não desistimos. Não há razão para sermos condescendentes. O que temos de exigir aos nossos concidadãos, em cada país, é que se comportem como adultos, não como eternas vítimas dos seus próprios erros.