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COLETES AMARELOS

Duas perguntas sobre um fiasco

Questão número 1: o protesto dos coletes amarelos foi um fiasco porquê? Questão número 2: da mesma maneira que se pode considerar um erro ter-se amplificado tanto o protesto antes de ele acontecer, será que também é um erro desvalorizá-lo por ter sido um flop?

Texto Helena Bento Vídeo João Santos Duarte Fotos Ana Baião, Rui Duarte Silva e Tiago Miranda

- Vão bloquear os acessos à Ponte 25 de abril?

- Não sei. O ideal seria marcha lenta ou buzinão. Já transmiti várias vezes a minha opinião, mas não sei o que vai acontecer.

- Mas os promotores do evento na ponte fazem parte do seu movimento. Não tem ideia sobre o que eles vão fazer?

- Não, não tenho.

- Para que horas estão marcadas as manifestações em Belém?

- Creio que para as 17h.

- E junto à Assembleia da República?

- Talvez início da noite, talvez lusco-fusco. Não está marcado, oficialmente vai quem quiser

- Mas não marcaram horas?

- Não.

A conversa é tida com António Martinho, um desempregado de 38 anos que ajudou a criar o Movimento Coletes Amarelos em Portugal (MCAP), e explica a desorganização observada nos protestos desta sexta-feira marcados para vários pontos do país. Horas antes admitira também ao Expresso não ter a certeza de quantos grupos se preparavam para participar nas ações nem conhecer os seus fundadores ou objetivos. Mas António Martinho não está preocupado nem com a desorganização - que considera “normal” tendo em conta o tempo que tiveram para preparar as ações na rua, “cerca de uma semana”, e até “positiva”, “já que se não houver uma cabeça é mais difícil matar a cobra e assim é mais fácil confundir e despistar a polícia e reorganizar o grupo caso algum líder seja impedido de continuar a sua missão” -, nem com número de participantes, claramente aquém do que se esperava.

No centro de Lisboa, por exemplo, e embora tenham conseguido um bloqueio do trânsito na rotunda do Marquês de Pombal, os manifestantes não ultrapassaram as dezenas. “A maior parte das pessoas está a trabalhar e se calhar até gostava de participar mas não pode. Chegou a estar em cima da mesa a possibilidade de fazer isto sábado e eu até preferia que assim tivesse sido, mas não é problemático. Isto está a ser apenas um exercício, um teste, para ver que ações podem ser planeadas no futuro. Isto é o mínimo que podemos fazer, porque na verdade podemos fazer muito mais.” No Porto participaram nos protestos cerca de 100 ‘coletes amarelos’, em Braga cerca de 60 e em Aveiro 50, segundo números avançados pela agência Lusa.

<span class="creditofoto">Foto Ana Baião</span>

Foto Ana Baião

“Com o tempo vamos melhorar”

António Martinho tem outras justificações para a falta de participação nos protestos além do dia escolhido para a sua realização, nomeadamente o atraso na divulgação do manifesto do grupo que ajudou a fundar e no qual são exigidos um aumento do salário mínimo para 700 euros e uma pensão mínima de 500 euros. Também se exige uma reforma no Sistema Nacional de Saúde, a baixa de impostos, a redução para metade do número de deputados e medidas para acabar com os privilégios da classe política. “Estamos a ter bons resultados mas a verdade é que a estrutura do nosso grupo ainda não está definida. Começámos de forma errada mas estamos a tentar acordar as pessoas, sobretudo aquelas que parecem ter alguma falta de capacidade para perceber a realidade em que vivem. Com o tempo vamos melhorar”, afirma, dizendo esperar que a sua formação e experiência na área da produção de eventos e espetáculos possa contribuir para que o movimento a que pertence ganhe uma estrutura mais sólida.

<span class="creditofoto">FOTO ANA BAIÃO</span>

FOTO ANA BAIÃO

Foi com a ajuda de “quatro ou cinco colegas ligados ao ativismo”, nomeadamente ao grupo Anonymous Portugal, a que chegou também a pertencer até ter abandonado o movimento há três anos, que António Martinho criou o MCAP. A primeira conversa aconteceu no início deste mês, dia 7, uma sexta-feira, e daí partiu a iniciativa para estes protestos. “A ideia era colocar toda a população ou a criar movimentos individuais ou a marcar manifestações próprias ou em grupo. Percebemos que havia uma lacuna na capacidade de a população de se autoorganizar.” Foi também nessa altura que este movimento dos coletes amarelos decidiu associar-se aos protestos já marcados para a A8, junto às portagens de Loures, “os primeiros a ser marcados, quando nenhum grupo se tinha ainda formado”, diz, e que vieram a revelar-se esta sexta-feira bastante pacíficos e a exigir uma intervenção mínima dos agentes da PSP destacados para essa zona. Ao núcleo de “quatro ou cinco pessoas” juntaram-se depois mais umas quantas e atualmente o grupo tem “12, 13 membros mais ativos” - psicólogos, um trabalhador da área da restauração, vários da construção civil, uma antiga professora de Geografia, entre outras pessoas “de diferentes estratos sociais” com ocupações que António admite desconhecer - e “outras pessoas a ajudar, distribuídas por departamentos”. O que têm em comum estas pessoas? “Estão insatisfeitas com a situação atual do país.” E qual é a situação atual do país?, perguntamos, e António Martinho menciona as ideias-chaves que constam do manifesto divulgado pelo seu grupo esta semana mas numa versão ainda mais simplificada: “Ordenado mínimo, subsídio de desemprego, pensões e reformas”.

A influência dos protestos dos “coletes amarelos” em França não é negada, antes admitida como “exemplo a seguir”, embora “não nos mesmos moldes porque foram cometidos erros ali”, tanto por causa dos “atos de violência” em que o MCPA diz nunca se ter revisto, como devido ao “aproveitamento político” que se fez dos protestos lá. “Durante todo este processo de preparação foram vários os comentários violentos ou sugerindo atos violentos que tivemos de apagar do nosso grupo no Facebook.” Foi difícil essa gestão como foi “difícil” chegar a consensos, por integrarem o movimento “pessoas de diferentes partes do país e com diferentes influências e ideologias”, mas António Martinho não vê como é que isso possa demover o grupo dos seus objetivos, que passam desde já por “unir todos os grupos” que participaram nos protestos desta sexta-feira e “planear novas ações na rua em conjunto”, algo que será abordado numa reunião do grupo já este sábado. Há já um dia em cima da mesa para novos protestos, 5 de janeiro, embora não esteja confirmado.

<span class="creditofoto">FOTO ANA BAIÃO</span>

FOTO ANA BAIÃO

Um aviso: há que prestar atenção ao que aconteceu

“A participação foi fraca desta vez mas não quer dizer que no futuro também o seja” e portanto há que prestar “atenção aos sinais dos tempos” e às “tensões que estão a emergir” mesmo cá e “refletir” sobre elas, caso contrário estaremos a provocar a “chegada do bolsonarismo” a Portugal. Eis, em resumo, a opinião de Elísio Estanque, sociólogo e investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (CES-COIMBRA). Embora não estabeleça qualquer paralelismo entre os atuais protestos e os ocorridos após a chegada da troika a Portugal, nem ache que exista agora um “ambiente de insatisfação como o vivido na altura”, o sociólogo refere que os protestos desta sexta-feira são “mais um sinal a juntar a todos os outros que têm vindo de baixo, de sectores específicos da sociedade”, e que “mereciam ser objeto de uma reflexão séria”, contribuindo “para corrigir insuficiência que são da responsabilidade do próprio campo associativo”. Sindicatos e instituições democráticas devem, na sua opinião, “olhar para isto com preocupação” para que “determinados vícios que estão instalados no seu funcionamento burocrático e também no discurso político sejam corrigidos”. “Que olhem para isto com muita atenção em vez de se limitarem a sacudir a água do capote é o meu conselho. Não se pode dizer que estes protestos vieram de uma bolha ou foram bluff ou um flop e simplesmente ignorá-los.”

Ao Expresso, Sérgio Monte, secretário-geral adjunto da UGT, diz que o sindicato a que pertence não tem sequer "informação suficiente" sobre estes grupos e as suas exigências para poder dar uma resposta e que, portanto, continuará a demarcar-se das suas iniciativas na rua.

<span class="creditofoto">Foto Rui Duarte Silva</span>

Foto Rui Duarte Silva

Elísio Estanque admite que é impossível dar resposta às reivindicações destes grupos que vestem coletes amarelos, mas ainda assim considera essencial “refletir porque é que estes grupos e sectores começam a ter voz, porque é que estão a crescer”. “Governo, instituições e Parlamento têm de evitar que os demagogos tenham bases concretas e objetivas para descredibilizar completamente as instituições. Têm de dignificar a democracia.” Mas como? Por exemplo, “dando provas de que é possível combater situações como a corrupção e o aproveitamento dos recursos públicos para benefício próprio, não deixar essas situações sem uma resposta positiva por parte da justiça”, considera o sociólogo, considerando que só assim se pode “esvaziar o espaço para que este tipo de dinâmicas possa crescer e eventualmente transformar-se em partidos políticos novos dispostos a apresentar soluções milagrosas para problemas complexos”.

É verdade que somos um caso exemplar na Europa no que diz respeito à inexistência de grandes movimentos de extrema-direita ou esquerda, continua Elísio Estanque, mas também não deixa de ser verdade que os cidadãos portugueses “sentem-se cada vez mais afastados da classe política e dos sindicatos”. “Temos sido uma exceção. Vamos a ver se conseguimos manter-nos exceção.”