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Terrorismo

Jiadista que ia para a Síria via Lisboa condenado a 20 anos de prisão (e a outros 20 de liberdade condicionada)

Autoridades norte-americanas capturaram o suspeito em junho de 2015 no aeroporto JFK, em Nova Iorque <span class="creditofoto">Foto Reuters</span>

Autoridades norte-americanas capturaram o suspeito em junho de 2015 no aeroporto JFK, em Nova Iorque Foto Reuters

Um enfermeiro fez o check-in, passou pelos seguranças e foi preso quando se preparava para embarcar no avião que ia descolar do aeroporto JFK para a capital portuguesa. Ia juntar-se ao Daesh

Texto Hugo Franco

Saddam Raishani comprou um bilhete online para um voo com partida do aeroporto JFK, em Nova Iorque, com destino para a Turquia. A viagem transatlântica tinha uma paragem pelo meio: Lisboa. A estadia em Portugal não deveria ser longa, de acordo com os planos do jiadista do Bronx, que era seguido há vários meses pelas autoridades norte-americanas. Isto porque um dia depois da passagem por Portugal, Raishani tinha programado encontrar-se com “um irmão” em Istambul.

Na noite de 21 de junho de 2015, o enfermeiro de 30 anos viajou do Bronx até Queens de carro, onde apanhou um táxi até ao aeroporto JFK. Fez o check-in, passou pelos seguranças e foi preso quando se preparava para embarcar no avião que ia descolar para a capital portuguesa. A detenção foi o culminar de uma operação conjunta do FBI e da polícia de Nova Iorque (NYPD) por tentar juntar-se ao Daesh, onde seria treinado para matar pela organização terrorista.

Quase quatro anos depois, Raishani foi condenado por um tribunal nova-iorquino a 20 anos de prisão por “tentar fornecer e conspirar para fornecer apoio material” para o Daesh. A pesada sentença vai ainda mais longe. Quando for libertado, o jiadista ficará mais vinte anos sujeito a uma “liberdade condicionada”.

Não foi a primeira vez que a capital portuguesa serviu de escala a terroristas do Daesh. Entre 2012 e 2014, cerca de dez jiadistas britânicos escolheram Lisboa como ponto de passagem entre Londres e Raqqa. Muitos destes jovens operacionais estiveram escondidos na Grande Lisboa durante alguns dias ou semanas, sem saírem à rua. Depois foram até ao aeroporto da Portela e rumaram a Istambul de avião, seguindo então de carro ou autocarro até à zona fronteiriça com a Síria, para entrarem clandestinamente naquele país. A rota foi detetada pelos serviços de informações portugueses e britânicos, que passaram a monitorizar as casas de recuo a operar na Linha de Sintra.

Em 2015, foram detetados no aeroporto do Porto mais simpatizantes do Daesh, muitos deles oriundos do centro da Europa, a fazerem a rota aérea para a Turquia.

Dívidas saldadas antes da partida

Poucos dias antes da viagem, Raishani despediu-se do emprego, pagou quase todas as dívidas do cartão de crédito e entrou em várias lojas de desporto da cidade, onde comprou roupa e botas para usar na viagem ao Médio Oriente. A partida estava a ser preparada há já vários meses, sem o conhecimento da família. Mas era seguida de perto por dois agentes do FBI e da NYPD.

Saddam Raishani já tinha já tentado viajar para o califado com um amigo nova-iorquino, mas sem sucesso. Acabou por ajudar o cúmplice a abastecer-se nos shoppings da cidade de roupa e comida, emprestou-lhe dinheiro para levar para a Síria e até lhe deu uma boleia para o aeroporto JFK, meses antes. Raishani contou aos dois agentes do FBI e da NYPD que trabalharam sob disfarce neste caso “o sentimento de humilhação” por não ter viajado nessa altura.

Poucas semanas antes de comprar o bilhete com destino à Turquia, Raishani terá conhecido um facilitador com ligações a células do Daesh que o terá aconselhado a viajar da Turquia para o Iémen e não para a Síria, por causa dos ataques aéreos e terrestres travados nas zonas fronteiriças. Mas o sonho deste jiadista −que descarregou dezenas de vídeos com propaganda do Daesh, decapitações incluídas − era um dia lutar na Síria pela organização terrorista.