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A tempo e a desmodo

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Henrique Raposo

O suicídio não pode ser um valor social

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Uma vergonha para a Europa, uma vergonha tão grande como a extrema-direita antimigrantes <span class="creditofoto">FOTO D.R.</span>

Uma vergonha para a Europa, uma vergonha tão grande como a extrema-direita antimigrantes FOTO D.R.

O caso Noa não é eutanásia. É talvez um “suicídio assistido” por omissão. A omissão aqui é da família e dos responsáveis de saúde que a deixaram morrer à fome e à sede. Ora, deixar alguém morrer à fome e à sede é um ato abjeto. Ponto final. Deixar que um ser humano de 17 anos sem qualquer doença terminal morra à fome e à desidratação é uma total violação de qualquer código moral de direitos humanos. A Holanda que permite esta barbárie moderninha é uma vergonha para a Europa, uma vergonha tão grande como as Hungrias antimigrantes.

O ser humano tem livre arbítrio, logo poderá chegar ao momento em que decide matar-se, mas os outros seres humanos que o rodeiam, a sociedade, não podem aceitar esse suicídio e devem fazer tudo para o evitar. Tudo. Como é que chegámos a este ponto? Porque é que é preciso explicar a adultos vacinados que o suicídio não pode ser um valor social? Como é que chegámos ao ponto em que médicos holandeses e belgas celebram (repito: celebram) o enorme complexo de hospitais e clínicas que fazem eutanásia e suicídio assistido em doses industriais? A pessoa tem sempre a liberdade para se matar, mas já não tem o direito de pedir que outros a matem por ação ou omissão. A liberdade e responsabilidade são da pessoa em causa, o ónus não pode passar para outrem.

O que fazemos quando vemos uma pessoa prestes a saltar de uma ponte ou prédio? O nosso impulso é travá-la ou dissuadi-la. Porque é que este impulso desaparece numa sala de hospital? O suicídio que era inaceitável na ponte não se torna aceitável em ambiente médico

O que fazemos quando vemos uma pessoa prestes a saltar de uma ponte ou prédio? O nosso impulso é travá-la ou dissuadi-la. Porque é que este impulso desaparece numa sala de hospital? O suicídio que era inaceitável na ponte não se torna aceitável em ambiente médico. Os médicos e os químicos não tornam aceitável o que é moralmente inaceitável. Esta não é uma questão médica e técnica, é uma questão moral, a mais importante de todas: a sociedade que aceita o suicídio como valor social está a criar bárbaros, está a criar o espaço para samurais e kamikazes, está a criar o ovo da serpente.