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POPULISMOS NA EUROPA

“Não quero deixar de herança aos nossos filhos um califado islâmico.” O que o aprendiz disse ao mestre

Matteo Salvini visitou o muro entre a Hungria e a Sérvia e até afagou os cães de guarda da polícia que protege as fronteiras húngaras da entrada de refugiados <span class="creditofoto">Foto Balazs Szecsodi/ EPA</span>

Matteo Salvini visitou o muro entre a Hungria e a Sérvia e até afagou os cães de guarda da polícia que protege as fronteiras húngaras da entrada de refugiados Foto Balazs Szecsodi/ EPA

Um estancou as vias marítimas, outro amuralhou o país. Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria, e Matteo Salvini, vice-primeiro-ministro e ministro do Interior italiano, são dois temerários na luta contra a entrada de migrantes na União Europeia e esta quinta-feira encontraram-se. O mestre finalmente trouxe o aprendiz para a sua cúpula e resta agora saber se, nestas eleições europeias, mais líderes europeus seguirão os seus ensinamentos

Texto Ana França

“Salvini é a pessoa mais importante na Europa neste momento no que diz respeito ao controlo da imigração e a imigração é a questão mais séria com a qual a história da Europa já se viu confrontada.” Foi assim que o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, descreveu na quarta-feira, numa entrevista ao jornal italiano “La Stampa”, Matteo Salvini, o todo-poderoso ministro do Interior e vice-primeiro-ministro de Itália. Foi quase um selo de aprovação. Como se o mestre tivesse decidido dar ao seu aprendiz uma prova pública de reconhecimento pelo seu denodo em trazer a discussão sobre a limitação da imigração para o centro da agenda europeia, coisa que a própria Hungria, que não goza do peso que Itália tem na União Europeia (UE), já tinha feito à sua escala.

Um dia depois dessa entrevista, Orbán levou Salvini, no seu helicóptero pessoal, a visitar o muro revestido a arame farpado que mandou construir, em 2015, na fronteira com a Sérvia, para evitar a entrada de refugiados que desde esse mesmo ano têm assomado aos portos do sul da Europa. Chegam à Hungria e ficam detidos entre duas barreiras: a física e aquela que foi erguida pelas novas leis húngaras, que tornam praticamente impossível a um requerente de asilo provar que precisa de proteção.

O ministro italiano do Interior, Matteo Salvini, e o ministro do Interior da Hungria, Sandor Pinter, durante a visita à fronteira sérvio-húngara, perto de Roszke, na Hungria <span class="creditofoto">Foto Balazs Szecsodi/ EPA</span>

O ministro italiano do Interior, Matteo Salvini, e o ministro do Interior da Hungria, Sandor Pinter, durante a visita à fronteira sérvio-húngara, perto de Roszke, na Hungria Foto Balazs Szecsodi/ EPA

“Salvini é um mestre da encenação. Os populistas têm duas grandes cartas: imigrantes e minorias. Este tipo de visitas ajuda à sua causa se a base do seu voto estiver preparada - por si só não convence os eleitores. No entanto, aqueles que foram levados a acreditar que o imigrante é a ameaça veem nessa imagem de Salvini, nesse muro, a realização das promessas que foram feitas ou um caminho viável para a sua concretização”, diz ao Expresso Radosveta Vassileva, investigadora na área do Direito Europeu na University College de Londres.

Durante o pico da crise de refugiados, a Hungria posicionou-se em rota de colisão com a diretiva europeia que obrigava cada país a receber a sua parte de refugiados. Na Hungria deveriam ter sido realojadas 177 pessoas. Orbán foi a tribunal e perdeu mas o que é certo é que nenhum desses requerentes de asilo foi ainda enviado para a Hungria. Aos olhos de homens como Salvini, Orbán fez cara feia e venceu. Aliás, um título do jornal “Libero”, próximo do partido de Salvini, o Liga, escreveu recentemente o seguinte título: “Há muito a aprender com Orbán - ele conseguiu enganar a União Europeia.”

“Não surpreende que para os líderes populistas da Europa Orbán seja uma superstar. Mas a realidade europeia é diferente. As eleições espanholas provaram que as árvores não crescem até o céu, como dizemos em húngaro. A maioria das sociedades europeias tem uma imunização mais forte contra esse populismo baseado no ódio mas não nego o risco grave de um efeito de mimetismo do regime do Orbán”, diz ao Expresso Gyulai Gábor, diretor do programa de refugiados da organização não-governamental Helsinki Committee.

Orbán e Salvini consideram-se os próximos líderes de uma Europa mais nacionalista, sem “diluição” dos valores europeus em prol de outros, como por exemplo os da religião islâmica <span class="creditofoto">Foto Balazs Szecsodi/EPA</span>

Orbán e Salvini consideram-se os próximos líderes de uma Europa mais nacionalista, sem “diluição” dos valores europeus em prol de outros, como por exemplo os da religião islâmica Foto Balazs Szecsodi/EPA

Durante a visita à Hungria, Salvini voltou a falar da ameaça de invasão muçulmana aos valores europeus, um dos temas comuns ao discurso de ambos os líderes. “Não quero deixar de herança aos nossos filhos um califado islâmico, a lei sharia nas nossas cidades, e vou fazer tudo que estiver ao meu alcance para evitar esse triste fim para a Europa”, disse Salvini numa conferência de imprensa conjunta.

Em abril já tinha havido um encontro de vários dirigentes de partidos nacionalistas da União Europeia, no final do qual anunciaram a intenção de se aliarem após as eleições europeias. “Estamos a ampliar a nossa família, a trabalhar para um novo sonho europeu. Trabalhamos para voltar a pôr no centro a família, a segurança, a proteção do ambiente, o futuro dos jovens”, enumerou Salvini então. O desejo de promover uma mudança na UE a partir de dentro também ficou clara: “Queremos mudar a Comissão Europeia. Queremos proteger as nossas fronteiras. Vamos combater as políticas pró-imigração apoiadas por [Emmanuel] Macron e [George] Soros”, acrescentou Salvini, numa referência ao multimilionário húngaro, tornado ódio de estimação dos apoiantes de Orbán pelo seu apoio a organizações que, entre outras coisas, apoiam o estabelecimento dos imigrantes na UE.

“Os líderes populistas da Europa abusam do tema da migração para inebriar a sociedade, criam um mundo alternativo na comunicação onde o inimigo imaginário do migrante é responsável por todo o mal do mundo. Essa guerra de propaganda foi tragicamente bem-sucedida na Hungria devido à ocupação governamental dos média”, acrescenta Gábor.

Independentemente daquilo que foi discutido, há analistas que consideram que o facto de estes dois homens se encontrarem é já mais que suficiente para fazer soar os alarmes nas casas dos dirigentes dos partidos de centro. “Se Orbán e Salvini se unem formalmente ou não neste estágio, isso é irrelevante. Há já duas leituras deste encontro, que não são mutuamente exclusivas. Uma é de que Orban é um político experiente, muito orgulhoso, por isso parece estar a tentar demonstrar ao PPE que eles não são insubstituíveis. Alternativamente - e esta é uma afirmação mais ousada - ele pode estar a saltar de um navio que se está a afundar, porque é altamente provável que o PPE perca eleitores nestas europeias”, diz Radosveta Vassileva. Logo depois explica porquê: “A Bulgária, que é uma fortaleza tradicional do PPE, está atualmente abalada por um grande escândalo de corrupção, que afetará os resultados da GERB (afiliada do PPE). Entretanto, o PPE pode também ser o seu próprio carrasco, já que encorajou colaborações com partidos de extrema-direita no passado. Na Bulgária, o GERB está em coligação com três partidos de extrema direita, as linhas estão mesmo muito difusas para estas eleições”, completa a investigadora búlgara.

A Hungria foi o primeiro país europeu, a até agora o único, a mandar construir uma barreira física que impedisse a progressão de migrantes para dentro da UE. A construção do muro iniciou-se em 2015 e tem vindo a expandir-se desde então <span class="creditofoto">Foto Balazs Szecsodi/EPA</span>

A Hungria foi o primeiro país europeu, a até agora o único, a mandar construir uma barreira física que impedisse a progressão de migrantes para dentro da UE. A construção do muro iniciou-se em 2015 e tem vindo a expandir-se desde então Foto Balazs Szecsodi/EPA

Na entrevista concedida na quarta-feira ao “La Stampa”, Orbán defendeu que os partidos que formam o PPE façam precisamente o mesmo que o GERB e trabalhem em cooperação com partidos de extrema-direita para garantir que continua a existir uma maioria conservadora ao leme da UE. Disse também que considera um “suicídio político” o facto de o PPE estar mais inclinado para fazer alianças à esquerda do que à direita que ele integra, uma direita considerada demasiado xenófoba para os paladares de alguns políticos de direita mais moderados.

Mas o líder do PPE, Manfred Weber, já disse que prefere o campo dos progressistas. Só que a culpa também emana desse lado. “O PPE e os Progressistas colaboraram em muitos assuntos, os últimos perdendo a oportunidade de, na oposição, obrigar o PPE a mudar. Tornaram-se aliados de bastidores porque, muitas vezes, a ‘realpolitik’ dos políticos mais conhecidos mete-se no meio da concretização das ideias que os seus partidos defendem. É normal que os eleitores estejam confusos”, acrescenta a académica.

A imigração e as soberanias nacionais, vulgo nacionalismos, são os mais fortes pontos de união entre os partidos que em abril se reuniram com Salvini em Milão na tentativa de criar uma frente unida europeia para os cenários de pós-eleições. Já em pastas tão importantes como o modelo económico, as coisas complicam-se. Por exemplo: para os alemães da Alternativa para a Alemanha (AfD, em alemão), a economia de mercado é o único caminho possível, enquanto Marine Le Pen sempre fez campanha contra a globalização sem freio, que deixa os pequenos produtores franceses inundados de mercadoria estrangeira e mais barata; ou seja, é muito mais protecionista.

Independentemente daquilo que defendem especificamente, o ceticismo em relação às políticas implementadas pela UE, e mesmo quanto à mera pertinência de existir uma união europeia de qualquer tipo, parece chegar para que estes partidos, no geral, estejam a subir nas sondagens para as próximas eleições europeias.

Segundo a primeira sondagem do próprio Parlamento Europeu (PE), os grupos anti-UE vão controlar mais de 14% do Parlamento, o que ainda não é suficiente para desafiar os grupos principais, mas poderá servir como um sério obstáculo à visão do ‘mainstream’ em alguns debates legislativos. Os resultados do inquérito de opinião também mostram que vão ser necessários pelo menos três partidos para que, nesta próxima legislatura europeia, se forme uma maioria pró-UE no PE, com o centro-direita e o centro-esquerda a deixarem de ser capazes de ultrapassar os 50% sozinhos. O PPE, de centro-direita, há muito dominante, deve continuar a ser o maior grupo, mas pode perder 34 assentos, caindo de 217 para 183.