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Eleições legislativas

“Não sei como é que vai acabar. Acho que ninguém sabe.” Eleições em Espanha são caso sério de indefinição

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Partidos dramatizam, mas, sem uma maioria à vista no Parlamento depois das eleições legislativas deste domingo, todos os cenários estão em aberto. Até o do pântano

Texto Miguel Santos Carrapatoso, enviado a Espanha

“Em quem votarei? PSOE, por supuesto. Es que no me gustan los extremos”. Cristian é taxista há treze anos. A caminho do Auditorio Entrevías, onde Pedro Sánchez fará o seu último comício em Madrid antes de encerrar a campanha em Valência, o condutor não esconde as suas dúvidas sobre o futuro de Espanha. “Acho que vai ficar tudo na mesma. O PSOE não vai ter maioria, nem com o Podemos. Tão pouco quero que faça coligações com os da Catalunha. Não sei como é que vai acabar. Acho que ninguém sabe”. “Ninguém sabe”, é frase mais repetida por estes dias em Madrid quando a pergunta é o futuro político de Espanha.

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“Que ninguém fique em casa no domingo. A Espanha não pode andar para trás. Não podemos conjugar outro verbo que não ganhar”, grita o speaker. O recinto ao ar livre está cheio e, contadas as cabeças, estarão umas duas mil pessoas. Maria Rosalinda é uma delas. Socialista de uma vida, como o pai antes dela fora. Veio com o marido, António. “Sou roja porque só eles é que cuidam das nossas pensões, da nossa escola pública, dos hospitais e das mulheres”, diz. O marido escuta à distância de segurança que se impõe nestas coisas. “Eu também sou, mas tenho vivido muito mal”. Não fica para o contraditório. Mas a desilusão era evidente. Rosalinda, num impecável sobretudo roxo apesar do calor, segue segura. “Só o PSOE pode impedir a ultra-direita”, diz. E o futuro? “Preferia uma coligação à esquerda, mas sem independentistas. Temos de dialogar, sim, mas eles têm de de deixar de ser radicais. A independência da Catalunha é impossível!”, sentencia.

Passam 41 minutos das 18h quando Pedro Sánchez sobe ao palco. O discurso tem alguma coisa de familiar. “Já ficou provado que não basta ganhar para governar. É preciso governar para ganhar”, recorda. O piscar de olho ao voto útil é evidente. O agitar do papão Vox também. “Só um Governo de PSOE pode evitar que o país recue 40 anos”, diz. Mais relevante: a referência a Albert Rivera, o líder do Ciudadanos, que, se os astros se alinharem, pode ser o fator se desbloqueio no parlamento espanhol. “Ouvi que Rivera quer pôr um cordão sanitário à volta do PSOE. Sabem qual é o problema de Rivera? É que se move muito”. Os militantes riem e aplaudem. Mas a frase tem outro alcance: pode ser que Rivera se mova para perto do PSOE.

No último dia de campanha em Espanha, todos os cenários continuam em aberto. Sem sondagens -- proibidas por lei na semana que antecede a votação -- valem as últimas publicadas. E as últimas eram pouco mais do que inconclusivas: com quase 40% de indecisos, deverá vencer o PSOE, mas, mesmo com o Unidos Podemos de Pablo Iglesias e outras forças partidárias mais pequenas, ficará longe da maioria absoluta.

Durante a campanha, e sobretudo nos dois debates televisivos, o líder socialista foi acusado à direita de estar a preparar uma coligação com os independentistas catalães. No WhatsApp, por estes dias transformado tanto numa plataforma de comunicação por excelência como numa arma de desinformação, continuam a circular rumores de que Sánchez tem um acordo secreto com os “separatistas” para conceder indultos e avançar com um referendo à independência da Catalunha. Nos debates, sobretudo no segundo, o presidente do Governo espanhol foi claro: “não é não” e o referendo não está em cima da mesa. Mas nunca esclareceu frontalmente a questão dos indultos, nem se estaria disposto a governar com o apoio dos independentistas, o que serviu de combustível para que PP e Ciudadanos, pressionados à sua direita por um Vox barulhento, apostassem numa campanha mais musculada com acusações de “traidor” para baixo.

Sánchez, é verdade, desperdiçou todas as oportunidades de pôr uma pedra sobre o assunto. Até porque, a esta distância das eleições, fazê-lo seria um erro político em toda a linha. Ainda esta sexta-feira, em entrevista à Cadena Ser, o candidato socialista dramatizou, dizendo que "não quer que a governabilidade da Espanha dependa dos partidos da independência", porque "não são de confiança”. “Espanha merece quatro anos de estabilidade e harmonia social” O diabo está nos detalhes: apesar de ter dito que prefere que o Governo não dependa dos deputados independentistas, Sánchez também mostrou disponibilidade para falar com todas as forças partidárias depois das eleições. Incluindo com o Ciudadanos. "Rivera terá que avaliar o que vai fazer a partir de segunda-feira e se vai ter uma posição mais construtiva em relação ao PSOE e ao país”. Uma porta encostada para impedir fuga de votos e agarrar os indecisos e uma janela entreaberta para permitir plasticidade política a partir de segunda-feira.

O último suspiro de Casado

Daqui a sensivelmente duas horas, o líder do PP estará também em Madrid, WiZink Center, onde são esperadas mais de 7 mil pessoas para o comício de encerramento de uma campanha que teve mais momentos baixos do que altos.

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As sondagens não ajudaram (o PP arrisca ter o pior resultado da história), os debates idem, o excesso de protagonismo de Alberto Rivera e a saída estrondosa de Ángel Garrido, até há duas semanas presidente do Governo autónomo da Comunidade de Madrid (PP) para o Ciudadanos, foi um golpe demasiado doloroso para absorver. Num derradeiro esforço para se afirmar como o líder natural do bloco de direita, ao reafirmou a disponibilidade para chegar a acordo com o Ciudadanos e abriu em definitivo a porta de Governo ao partido de extrema-direita Vox, à semelhança do que já aconteceu na Andaluzia. “Unifiquemos o voto da direita para impedir que Sánchez continue em La Moncloa”, desafiou o líder do PP, em declarações à rádio esRadio.

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A estratégia foi percebida por Rivera, que encerra a campanha em Valência e que viu ali um sinal de fraqueza do seu mais direto rival à direita. Aos jornalistas, o líder do Ciudadanos classificou as declarações de Casado como “falta de respeito”, até porque não faz sentido “distribuir Ministérios”... quando há partidos que ainda se podem “esvaziar” eleitoralmente. Ao desafio de Sánchez, Rivera respondeu com o estilo beligerante que impôs na campanha. “Sánchez não nos estendeu a mão. Deu-nos uma estalada”, disse, antes de rejeitar novamente qualquer hipótese de coligação com os socialistas. Mesmo sem sondagens públicas -- os partidos têm as suas próprias sondagens -- quando se é tão disputado à esquerda e à direita, é sinal de que os ventos sopram favoravelmente. Domingo poderá trazer uma boa surpresa para o Ciudadanos.

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E se Sánchez ensaiou a marcação a Rivera, Pablo Iglésias não desiste da marcação cerrada a Sánchez. O líder da coligação Unidos Podemos, que tem vestido a pose de estadista assumiu-se como um moderado acima dos que fazem -- PP, Ciudadanos mas também PSOE -- campanha assente em “insultos e mentiras”. O “adulto na sala”, como foi descrito nos dois debates televisivos, marcou o seu último comício também em Madrid a escassos três quilómetros da festa socialista e deverá repetir o que já fez esta manhã em Valladolid: só o voto no Podemos poderá assegurar que o PSOE governa à esquerda e impedir que Sánchez se atire para os braços de Albert Rivera. A estratégia é compreensível: segundo as sondagens, o Podemos está prestes a tornar-se no quarto ou quinto partido no Parlamento espanhol, com apenas 13% a 14% dos votos e pouco mais de 30 deputados — em 2016, teve 20,7% e elegeu 71 deputados. Os 10 meses de aliança com o PSOE podem ter hipotecado o crescimento de um partido fraturado pelas suas próprias contradições e divisões internas.

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No outro extremo, Santiago Abascal, líder dos ‘ultra’ de direita que entraram com estrondo no parlamento andaluz e que agora se preparam para fazer o mesmo nestas legislativas, estará também em Madrid, na Plaza de Colón, palco da grande manifestação da direita (PP e Ciudadanos incluídos) pela unidade de Espanha, a 10 de fevereiro. Impedido de participar nos debates, o Vox foi um elefante não muito discreto nos dois confrontos televisivos. O discurso está mais do que afinado e vai ser posto em prática hoje: só o Vox pode salvar o país dos “traidores” socialistas e dos “cobardes” Casado e Rivera. Tudo para fazer de Espanha novamente grande. As eleições de domingo dirão se a estratégia do Vox foi bem sucedida.