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GUERRA NA UCRÂNIA

A 5 de janeiro morreu uma mulher de 80 anos numa fronteira, depois mais 8 idosos: ainda nos lembramos de Donbass?

Uma das fronteiras no leste pró-russo da Ucrânia <span class="creditofoto">Foto Reuters</span>

Uma das fronteiras no leste pró-russo da Ucrânia Foto Reuters

Já passaram cinco anos desde que a Rússia tomou conta do sudeste da Ucrânia, por sua vez tomado por uma revolução pró-Kremlin nos primeiros meses de 2014. Todos os dias há bombardeamentos, explosões, pessoas morrem nas filas intermináveis nas fronteiras entre o território do governo e o ocupado. Já ninguém fala muito disso mas Kurt Volker, o embaixador norte-americano para o conflito na Ucrânia, falou com alguns jornalistas europeus e diz que é preciso não esquecer Donbass

Texto Ana França

A Guerra em Donbass - a região no sudeste da Ucrânia da qual fazem parte Luhansk e Donetsk e que faz fronteira com a Rússia - continua. Está tudo na mesma e tudo na mesma quer dizer que há pessoas que continuam a morrer num conflito dentro da União Europeia - atualmente, e por uma enorme margem, o mais mortífero. Esta sexta-feira marca o primeiro dia de fevereiro e é neste mês que se assinalam cinco anos desde que rebeldes pró-Rússia ocuparam a província de Donbass depois de uma revolta separatista ter colhido apoio do Kremlin. Seguiu-se a invasão da península ucraniana da Crimeia e a sua anexação em março desse mesmo ano, 2014.

Basta lermos os relatórios da Missão Especial de Monitorização do Conflito na Ucrânia (SMM) da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) para entendermos que pouco mudou, pouco muda à medida que os dias passam. Nos primeiros 31 dias deste ano, por exemplo, os relatórios falam de permanentes violações do cessar-fogo, que ora são menores num dia em relação ao anterior ora voltam a aumentar logo no dia a seguir, das constantes explosões nas áreas de “desmilitarização”, dos tiroteios sobre edifícios civis. Ainda há snipers, ainda há morteiros a rasgar o volátil cessar-fogo, ainda há guerra. Morrem menos civis mas o leste da Ucrânia está seco de recursos depois de cinco anos de conflito.

Treinos do Exército ucraniano perto da cidade de Shchastya, a norte de Luganks <span class="creditofoto">Foto ANATOLII STEPANOV/AFP/Getty</span>

Treinos do Exército ucraniano perto da cidade de Shchastya, a norte de Luganks Foto ANATOLII STEPANOV/AFP/Getty

Só desde o início deste ano, nove pessoas morreram a tentar passar da zona ocupada pela Rússia para território ucraniano ou vice-versa, disse o embaixador norte-americano para o conflito, Kurt Volker, numa chamada coletiva com alguns meios de comunicação europeus, na qual o Expresso participou. Estas nove pessoas não morreram com a força de uma bala, morreram nas impossíveis filas que por vezes se formam nas fronteiras entre os territórios controlados pelo governo ucraniano e aqueles sob domínio russo. Às vezes são mil pessoas à espera, nos dias bons 400, 500.

A 5 de janeiro morreu uma mulher de 80 anos enquanto esperava no checkpoint de Maiorsk (perto de Donetsk). Não se conhecem as causas da morte e a SMM diz apenas que não foi diretamente ligada aos confrontos. No dia 9 outra mulher, de 69 anos, morreu na fronteira em Horlivka (Donetsk), caiu inanimada, morreu de “causas naturais”. No dia a seguir mais três idosos morreram, os três de ataque cardíaco. No dia 15 uma mulher de 80 anos morreu no ponto de passagem de Maiorsk. As causas não aparecem especificadas nos relatórios. No dia 17 morreu mais uma mulher, também enquanto esperava para passar a fronteira em Horlivka. Logo no dia a seguir um homem de 80 anos morreu de ataque cardíaco no ‘checkpoint’ da ponte de Stanytsia Luhanska. No mesmo local morreram mais dois homens, a 21 e 28 de janeiro, também de ataque cardíaco. No total, 13 mil pessoas morreram desde o início do conflito e mais de 30 mil ficaram feridas, segundo os últimos números publicados pelas Nações Unidas. O número de mortes civis tem vindo a cair acentuadamente.

Cemitério de Lychakiv, na cidade de Lviv, onde estão enterrados os soldados ucranianos que já morreram no conflito de Donbass, cerca de 4000 <span class="creditofoto">Foto Artur Widak/NurPhoto</span>

Cemitério de Lychakiv, na cidade de Lviv, onde estão enterrados os soldados ucranianos que já morreram no conflito de Donbass, cerca de 4000 Foto Artur Widak/NurPhoto

A crise em banho-maria em Donbass é apelidada pela Rússia como uma “guerra civil” entre nacionalistas ucranianos de inspiração neonazi e as pessoas que se sentem russas e querem escolher a que país pertencer. É uma definição simplista, que fomenta o extremismo de se estar literalmente ou de um lado ou do outro do rio Donets mas existem de facto nacionalistas que não escondem a filiação supremacista - e alguns são formados para combater por empresas de segurança privada europeias, como escreveu recentemente a página de jornalismo de investigação online Bellingcat, uma história que também foi escrita pela Al Jazeera. E também existem pessoas que de facto se sentem russas. O problema é que este “pequeno” cenário de guerra continua a ser o maior perigo para a paz entre a Rússia e o Ocidente desde o tempo da Guerra Fria. “Não é preciso que a Rússia aumente o seu arsenal bélico para que a sua presença na Ucrânia seja um perigo para todo o país e para a Europa. Com os homens que já têm, as armas, os tanques, os lança-morteiros, podem fazer o que quiserem”, disse Volker. Um relatório elaborado pelos próprios serviços de informações norte-americanos confirmam que a Rússia está em condições de se lançar num ataque que tome todo o país mas que “é pouco provável que o faça” em 2019.

Um militar ucraniano em patrulha perto da cidade de Luhansk <span class="creditofoto">Foto David Mdzinarishvili/REUTERS</span>

Um militar ucraniano em patrulha perto da cidade de Luhansk Foto David Mdzinarishvili/REUTERS

Já Simon Jenkins, colunista do “The Guardian” e autor de vários livros de análise histórica da guerra, escreveu que “a História ainda nos vai ensinar que as consequências da nossa postura perante a Rússia derrotada e deprimida nos anos 90 podem ser parecidas às que colhemos com a Alemanha de 1918” e que “a Europa do Leste é uma caixinha de populismos em competição entre si, cheia de conversa falhada de que Putin só entende as coisas à força e sem grandes alianças na área da segurança”. Os acordos de Minsk (2014-1015) são criticados de ambos os lados e inflamaram a causa nacionalista, que vê neles uma espécie de capitulação perante os rebeldes russos e um desrespeito pelo sofrimento dos ucranianos nas zonas afetadas pelo conflito.

A Rússia diz que não está em guerra

Respondendo às últimas declarações do porta-voz do Kremlin, que afirmou quarta-feira não haver uma guerra entre a Rússia e a Ucrânia, Volker disse que, pelo contrário, a Rússia continua o seu comportamento subversivo: “Os acordos de Minsk ainda são a matriz para a paz mas eles não estão a ser implementados. O cessar-fogo não é respeitado, a retirada das armas de grande porte não aconteceu, o Exército russo ainda lá está e estão também os grupos armados, ilegais, que a Rússia deixou que nascessem no território ocupado”. A única forma de normalizar o país, aponta, é a Rússia permitir que sua presença seja substituída por capacetes azuis. “A questão é saber se a Rússia aceita que uma força de reforço da paz possa substituir os seus militares no terreno e criar uma região genuinamente pacificada em Donbass. Se a Rússia quiser aceitar isso, seria a ONU a conduzir o estabelecimento dessa força e de um ambiente muito mais saudável para todos. Seria preciso uma polícia, uma administração eleita, entre outras coisas”, avançou o responsável.

Kurt Volker, embaixador norte-americano para as negociações de paz na Ucrânia, refere que há mais sanções destinadas à Rússia a serem discutidas pelos Estados Unidos e pela Europa <span class="creditofoto">Foto Valentyn Ogirenko/REUTERS</span>

Kurt Volker, embaixador norte-americano para as negociações de paz na Ucrânia, refere que há mais sanções destinadas à Rússia a serem discutidas pelos Estados Unidos e pela Europa Foto Valentyn Ogirenko/REUTERS

Não só a guerra existe como os episódios de provocação continuam a acontecer, disse o embaixador. “A Rússia tomou como seu o estreito de Kerch, unilateralmente, capturando 24 marinheiros ucranianos que ainda estão detidos sob acusação de terem entrado em território russo. Só que esse território não é russo, são águas internacionais.” Não há data para a libertação destes marinheiros, mas tanto a Europa como os Estados Unidos estão a ponderar um novo pacote de sanções no sentido de pressionar os russos a libertar os cidadãos ucranianos, confirmou Volker. Mas até às presidenciais, a 31 de março, isso não deve acontecer. Manobras de pressão, afirma Volker: “Os relatórios que nos chegam dizem que estes marinheiros vão continuar presos pelo menos até abril, por altura das eleições presidenciais. Isto leva-nos a crer que os russos estão a utilizar estas pessoas para exercer pressão sobre o governo ucraniano”.

Um relatório apresentado pelas secretas norte-americanas fala no perigo de que a Rússia venha a tentar interferir com as eleições presidenciais e legislativas deste ano. Daniel Coats, diretor dos Serviços de Informações, apresentou as conclusões desta avaliação na quarta-feira e disse que a Rússia já está a dar passos nesse sentido. “Estamos à espera de ver a Rússia utilizar a internet e o hacking para influenciar a eleição presidencial que se avizinha na Ucrânia, na esperança de conseguir remover o presidente Petro Poroshenko e levar ao poder um parlamento menos anti-Rússia”, disse. Para isso, de acordo com as conclusões do relatório, os russos devem explorar temas como a frágil economia ucraniana ou a corrupção para agitar, nomeadamente através das redes sociais, o descontentamento público com a classe política.

Volker comprometeu-se, porém, a trabalhar com qualquer que seja o presidente eleito, desde que ele (também) queira preservar “a integridade territorial da Ucrânia”. “Haverá uma eleição, a Ucrânia é uma democracia funcional e por isso não sabemos de antemão quem irá vencer. Se olharmos para as sondagens que nos chegam, não há nenhum candidato com números acima dos 20%. É muito imprevisível. Vamos trabalhar com qualquer líder eleito e continuaremos a apoiar a soberania da Ucrânia e a sua integridade territorial.”

Danos causados por um ataque de forças ucranianas numa maternidade perto da cidade de Pervomaisk, no leste da Ucrânia, onde se concentram os rebeldes pró-Rússia <span class="creditofoto">Foto Maxim Zmeyev/REUTERS</span>

Danos causados por um ataque de forças ucranianas numa maternidade perto da cidade de Pervomaisk, no leste da Ucrânia, onde se concentram os rebeldes pró-Rússia Foto Maxim Zmeyev/REUTERS

Um problema de acesso

Na sua conversa com os jornalistas, Volker notou ainda as dificuldades sentidas pela OSCE, cuja função é garantir que os Acordos de Minsk estão a ser implementados. Nos territórios que não são controlados pela Ucrânia, a OSCE não pode operar, só sob gestão russa. “Eu apoio a introdução de observadores nos territórios controlados pela Rússia. O problema é quando chegamos aos detalhes de como é que isso pode acontecer. A OSCE tem essa missão, a de monitorizar. Os ucranianos têm medo de permitir essa observação em locais onde seriam os russos a supervisionar os observadores, onde eles não seriam livres para investigar ou conduzir entrevistas ou reportar.”