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Daniel Oliveira

Mujica e Bolsonaro, o que nos eleva e rebaixa

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Há umas semanas vi o filme “Uma Noite de 12 Anos”, de Alvaro Brecher. O filme conta os 12 terríveis anos de cativeiro de José Mujica, carinhosamente conhecido pelo seu povo como “Pepe”. Durante a ditadura militar uruguaia, Mujica e dois companheiros viveram 12 anos de terror, grande parte do tempo em isolamento total, com sessões de tortura e fome. “Pepe” esteve mesmo à beira da demência. O filme está disponível na Netflix.

Apesar de Mujica ter sido Presidente do Uruguai, viveu sempre uma vida espartana, abaixo de classe média. Numa casa pequena, fora de Montevideu, onde trata, com a sua mulher (que é senadora), da sua pequena exploração agrícola. Tem um “carocha”, uma casa minúscula e pouco mais. Tenho inveja de pessoas como “Pepe”. Que se conseguem libertar do dinheiro e do que ele nos dá. São mais livres do que eu sou ou alguma vez conseguirei ser. Se querem conhecer a sua vida, as suas contradições e o seu exemplo, podem ver o documentário de Emir Kusturica, “El Pe pe”. Aí não se esquece que a sua militância nos Tupamaros incluiu assaltos a bancos e luta armada. Mujica não é beatificado.

AQUI escrevi que não podemos fazer política com a santidade. Porque isso excluiria quase todos da política e a aproximaria perigosamente da religião. Mas isso não nos impede de nos comovermos com Jose Mujica. Com o que a sua história, a sua resiliência e a sua pobreza escolhida nos ensinam. O exemplo é sempre mais comovente quando não é dever e quando não é para ser seguido. Quando é uma escolha do próprio que a ninguém a quer impor. No caso de Mujica, é uma radical coerência política que ajuda a ilustrar um desejo intransigente de liberdade.

Vi “Uma Noite de 12 Anos” poucos dias depois da tomada de posse de Jair Bolsonaro. Ao ver o filme sobre aqueles 12 terríveis anos de cativeiro, tortura e sadismo, e ao olhar para como foi Presidente e como continua a ser político, não pude deixar de pensar no contraste. De um lado temos um homem que lutou a vida toda, que sofreu a tortura e o isolamento durante anos, do outro um militar medíocre (apesar de ter a Academia Militar, nunca passou de capitão) e que vegetou num congresso durante 26 anos, sem nada de relevante ter ali produzido – conseguiu aprovar apenas dois projetos, mesmo quando havia largas maiorias conservadoras.

Mujica é seguido pelo povo por ser aquilo que devíamos ser. Eleva-nos. Bolsonaro é seguido pelo povo por nos autorizar a ser o que não devíamos. Rebaixa-nos. São, mesmo detestando maniqueísmos, o que mais se aproxima do bem e do mal

De um lado temos um homem que é, para qualquer pessoa, extraordinário. E é extraordinário porque se distingue de nós pela liberdade que escolheu para si e de praticamente todos os estadistas pela simplicidade que conseguiu manter. Fazendo dela uma mensagem política. E foi através dessa extraordinária diferença que se aproximou do povo. Do outro lado temos um homem boçal no trato e indiferente nas suas capacidades. E é através da semelhança com a banalidade humana, no que ela tem de pior, que ele se aproxima do povo. De um lado temos alguém que teve uma vida dura e que não guardou ressentimento. A sua mensagem é de tolerância. Do outro temos um tipo cuja vida não se distingue pela coragem ou pelo trabalho, mas pela capacidade de transmitir em público o pior dos sentimentos humanos: o preconceito, o ódio e o ressentimento. De um lado temos um discurso combativo mas nunca consumido pelo ódio, do outro temos o ódio como único programa político.

A democracia tende, pelo menos do ponto de vista simbólico, a igualizar o poder de todos. E é por isso que ela também tende para a mediania, que é a sua parte dececionante. As redes sociais vieram trazer uma coisa mais estranha, que alguns autores já tinham assinalado, há dois séculos, como um perigo democrático: o desprezo por tudo o que se distinga. Uma das coisas mais comuns no discurso político, à esquerda e à direita, é a ideia de que queremos “pessoas como nós” a representar-nos. Não aqueles que consideramos os melhores de nós. Na realidade, a tendência tem sido a de querer aqueles que representam o pior de nós. E que assim nos reconfortam.

Os heróis são os santos laicos. Precisamos deles como exemplo que nos permite a busca de um ideal. São uma espécie de utopia viva que nos dá um horizonte para onde caminhar. Não quero uma política feita de santos, quero uma política feita de pessoas. Mas no meio daqueles que nos representam tem de haver alguns exemplos que nos mobilizem. A diferença entre Mujica e Bolsonaro não é apenas política, apesar dela ser bastante relevante. As suas funções junto do povo são as opostas. Um é seguido pelo povo por ser aquilo que todos sentimos que devíamos ser. Eleva-nos. O outro é seguido pelo povo por ser aquilo que nós sabemos que não devíamos ser mas somos. Rebaixa-nos, porque nos autoriza a não querer ser melhores. Um teve uma vida extraordinária, outro teve uma vida ordinária, nos dois sentidos que a palavra tem. Um retirou do seu sofrimento (na luta armada e nos terríveis anos de prisão e tortura) alegria; outro retirou do seu privilégio (nas forças armadas onde foi um militar sem brilho, no Congresso onde foi deputado sem obra) ódio. Eles não são apenas dois olhares políticos, eles são, mesmo detestando maniqueísmos, o que mais se aproxima do bem e do mal. Mesmo com as contradições que cada um tenha, porque nem o bem ou o mal são simples.