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Martim Silva

Tancos trouxe de volta o velho Marcelo. E não é desse que o país precisa

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Durante muitos anos, Portugal teve uma figura, podemos dar-lhe genericamente o nome de Marcelo Rebelo de Sousa, que se notabilizou, no jornalismo como na política como no comentário político, por ser o verdadeiro criador dos factos políticos. Alguém que dominava de tal forma os mecanismos do jornalismo político e do espaço mediático, que os usava e moldava a seu bel-prazer. A célebre história da vichyssoise com Paulo Portas é um de muitos exemplos que mostravam uma faceta de alguém genial, manipulador, maquiavélico e pouco confiável.

Entretanto, foi eleita Presidente da República, em 2016, uma figura moderada, sensata, interventiva, com sentido de Estado, próxima dos portugueses e da sua realidade e das suas expectativas e anseios. A essa figura podemos dar genericamente o nome de Marcelo Rebelo de Sousa.

Em comum, as duas figuras nada tinham.

O que se perdeu em animação nos bastidores político-mediáticos ganhou-se num Presidente da República de mão cheia, apoiado dois anos e meio depois de eleito por uma esmagadora percentagem de apoio popular à sua atuação.

Nas últimas semanas, Marcelo Rebelo de Sousa teve de vir a público várias vezes para, de forma recuada e defensiva, falar do caso do roubo de material militar de Tancos. Garantiu, repetiu e voltou a repetir que nada sabia, procurando afastar qualquer névoa de suspeita que pudesse pairar sobre o conhecimento da Presidência do episódio de encobrimento da recuperação das armas.

Com Tancos, o Marcelo Rebelo de Sousa das últimas semanas não é o Marcelo Presidente, é o Marcelo criador de factos políticos, que de tanto fazer cenários por vezes parecer dar nós em si próprio

A dado momento, Marcelo Rebelo de Sousa, para desviar atenções e criar um facto político, lembrou-se de numa inócua iniciativa à volta da Web Summit lançar uma espécie de pré-candidatura presidencial em 2021: "Não dormi muito, como é habitual. E pensei: há alguma vantagem adicional para a minha vida de ter dez anos da Web Summit em Portugal? E eu disse: bom, há algo que pode tornar-se um efeito colateral, não necessariamente muito positivo, que é ter a responsabilidade de me candidatar novamente à Presidência".

A frase parece bizarra, não parece? Mas foi dita desta forma. Isto permitiria, terá pensado Marcelo, voltar a controlar o tempo e o espaço político e mediático. Mas fê-lo de uma forma de tal maneira tosca que a seguir veio garantir que se tinha tratado afinal de uma brincadeirinha.

A recandidatura de Marcelo é uma espécie de segredo de polichinelo e não é propriamente o tipo de notícia que se possa considerar surpreendente. Mas, ainda assim, há formas e formas do chefe de Estado dizer publicamente que pretende lutar por ficar mais cinco anos em Belém, quando antes prometera não abordar para já o tema.

O problema, verdadeiramente, não é o anúncio tosco de uma recandidatura. Porque isso pode acontecer. O problema disto é que o Marcelo Rebelo de Sousa das últimas semanas não é o Marcelo Presidente, é o Marcelo criador de factos políticos que de tanto fazer cenários por vezes parecer dar nós em si próprio. E não é esse Marcelo que o país precisa para chefe do Estado.