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Reino Unido

“As europeias são o segundo referendo que não nos deram:” na sede do novo partido europeísta britânico

A equipa do Change UK que quer tornar estas europeias num segundo referendo ao Brexit <span class="creditofoto">Foto Kirsty O'Connor / PA / Getty</span>

A equipa do Change UK que quer tornar estas europeias num segundo referendo ao Brexit Foto Kirsty O'Connor / PA / Getty

Não é uma sede airosa, com janelas grandes, luz natural, correntes de ar: é uma cave com muitas chávenas de café vazias, mapas e equipamento rudimentar de captação de vídeo. O Change UK é um novo partido britânico com o singelo objetivo de mudar o rumo da História da Europa

Texto Ana França

A sede do novo partido pró-europeísta britânico é uma cave escura, com almofadas coloridas em cima de paletes de madeira a fazer de sofás, mesas comunitárias de bancos corridos e muitas caras jovens sentadas atrás de computadores portáteis. Twitter, Instagram e Facebook estão em permanente atualização e o exército do Change UK é maioritariamente composto por voluntários que querem lutar para que o Reino Unido permaneça na União Europeia.

As eleições europeias realizam-se no Reino Unido a 23 de maio e o Change UK, com os seus 70 candidatos a deputados europeus espalhados um pouco por todo o país, não tem medo de ‘usurpar’ o propósito destas eleições: para eles, as europeias são o segundo referendo. “Estas eleições são um segundo referendo que não nos deram. É assim que as vemos aqui, é nesse sentido que fazemos campanha e acredito que seja assim também que muitas pessoas que se sentem abandonadas pelos seus partidos estejam a avaliar esta oportunidade”, diz ao Expresso Annabel Mullin, número quatro na lista de Londres e líder do pró-UE Renew, partido que abdicou de concorrer sozinho para se juntar ao Change UK.

“Já que não há certezas por parte dos políticos de que possamos ter um voto ao acordo final, esta é sem dúvida uma oportunidade para as pessoas terem a sua voz, o seu voto e depositarem um veto contra a direção que as negociações do Brexit estão a tomar”, completa Mullin, que além do seu envolvimento na política é advogada e psicóloga - também foi agente da Polícia Metropolitana de Londres logo depois de acabar o primeiro curso.

Os partidos claramente europeístas - Verdes, Liberais Democratas e Change - esperam conseguir entre eles pelo menos cinco lugares no parlamento europeu sob a garrida bandeira da permanência, mas Mullin pode não ser eleita - e isso também não parece perturbá-la. Enquanto fala com o Expresso está a tentar encontrar alguém, nas suas redes sociais, que fale maltês. A equipa do Change UK tem um plano bastante abrangente do que à sua estratégia de comunicação diz respeito: encontrar nativos de todas as línguas europeias e pô-los a traduzir as mensagens de campanha. O foco principal deste dia é difundir a página do governo britânico que explica como qualquer europeu pode votar nestas eleições, não no seu país de origem mas no Reino Unido, se assim o desejar. “No referendo, os cidadãos europeus não puderam votar. A causa europeísta perdeu assim de uma vez quase quatro milhões de votos, mais ou menos o número de europeus que cá vivem, e a grande maioria já com idade para votar”, explica Mullin, que assume ser para aí que estão a dirigir a grande maioria dos esforços do grupo.

Carole Tongue e Annabel Mullin, na sede da campanha do Change UK <span class="creditofoto">Foto Ana França/Expresso</span>

Carole Tongue e Annabel Mullin, na sede da campanha do Change UK Foto Ana França/Expresso

O ex-vice-primeiro-ministro da Polónia Jan Rostowski, que supostamente não ia passar pela sede, afinal conseguiu. Toda a gente o cumprimenta com muita reverência. Nasceu no Reino Unido e o seu currículo ajuda “a aumentar o perfil público” da campanha, diz Mullin, que anuncia que o Expresso, um jornal português, está de visita ao local. As solicitações a Rostowsky são mais que muitas mas ele dirige-se à mesa onde estamos a entrevistar Mullin e, com as mãos em posição de súplica, explica que a comunidade portuguesa é mesmo muito, muito importante, “em números e em história”. Pergunta se temos a página para nos inscrevermos. Não podemos votar com morada fiscal noutro país, mas sabemos qual é a página, sim, obrigada.

Mullin regressa ao seu foco: as comunidades dos vários países europeus. “Estamos a falar com embaixadas, com universidades, mas o nosso grande foco é mesmo nas redes sociais. Eu entendo que algumas comunidades, como a francesa, tenham as suas próprias batalhas em casa, neste caso a luta contra a subida da extrema-direita de Le Pen, mas o que temos de deixar muito claro é que o Brexit não é um problema do Reino Unido, afeta tudo: o mercado de trabalho, a economia, a riqueza produzida, os direitos dos cidadãos, as exportações.”

Nestas eleições há dois novos partidos a concorrer a um dos 73 lugares a que o Reino Unido tem direito no Parlamento Europeu: o Change UK e o Brexit Party, de Nigel Farage, que de certo vai absorver muitos dos votos dos conservadores irados com os bloqueios impostos à materialização do Brexit a cada sessão parlamentar. O novo partido eurocético de Farage aparece atualmente com 27% das intenções de voto, segundo a página “Poll of Polls”, que faz a média das várias análises que vão sendo publicadas na imprensa. Os trabalhistas, tradicionalmente o partido que mais eurodeputados envia para o PE, aparecem com 23% e o Change UK com 8%.

Um comício do Brexit Party, de Nigel Farage, que deve conseguir captar os votos de quem está zangado por o Brexit ainda não ser uma realidade <span class="creditofoto">Foto Christopher Furlong / Getty Images</span>

Um comício do Brexit Party, de Nigel Farage, que deve conseguir captar os votos de quem está zangado por o Brexit ainda não ser uma realidade Foto Christopher Furlong / Getty Images

“Sim, as sondagens mostram que eles vão sair-se bastante bem, o Farage é uma estrela da internet mas os conservadores vão ter a vida mais dificultada, muitos deles disseram já que não se vão envolver na campanha e o partido está a ter algumas dificuldades para se financiar. Uma boa parte do voto dos membros do partido conservador - e não necessariamente dos eleitores, que são coisas diferentes - pode passar para o partido de Farage, mas os apoiantes tradicionais dos conservadores já são uma outra história - são europeístas e podem vir a ampliar o nosso voto”, diz Mullin.

Em toda a literatura disponível na internet sobre o plano do Change UK fica claro que, tal como outros partidos disruptivos à direita, também eles se querem assumir como os representantes de uma onda de mudança radical - só que à esquerda. Mas não foi já numa mudança radical que as pessoas votaram quando escolheram o Brexit? “Foi, só que ninguém ainda lhes deu essa mudança”, responde. “Os britânicos foram enganados a todos os níveis: local, nacional, internacional. Disseram-nos que íamos recuperar soberania mas não é isso que está a acontecer, já que o nosso parlamento não consegue agir. Disseram-nos que o Serviço Nacional de Saúde ia ter uma injeção monetária enorme e isso não aconteceu. Todos sabemos hoje que estaremos mais pobres, não só de um ponto de vista macro-económico, como também o nosso sector financeiro e as nossas redes de sustentabilidade social.”

Não estará também o Change UK a entrar por uma caminho de antagonismo em vez de união, de “nós contra eles”? Mullin acha que não, que não é por aí que o partido vai com a sua mensagem, que “continua focado nos aspetos positivos da UE”. Considera, aliás, que os verdadeiros rebeldes estão hoje ao centro. “Nós somos os verdadeiros progressistas, coisa que a esquerda no Reino Unido deixou de ser. Os rebeldes estão hoje ao centro, são os que abrem caminhos pelo meio dos problemas e não pelas margens, em vez de optarem pelo caminho fácil de focar o que está mal do outro lado. Isso é fácil mas é regressivo, e acontece à esquerda e à direita.”

Voltamos a falar nas metas realistas do partido e lá do fundo, por trás de um quadro branco de plástico, daqueles que existem nos centros de explicações e nos quais se pode apagar com um pano húmido o que acabou de se escrever, ouve-se a voz de Carole Tongue: “O céu é o limite”.

Tongue é da velha guarda trabalhista mas desta vez vai concorrer pelo Change UK porque se sente “demasiado triste com prestação de Jeremy Corbyn, um homem eurocético que eu conheço há muito tempo mas que está focado num ideal anacrónico: o do socialismo isolacionista”.

De 1984 a 1999 foi deputada europeia precisamente pelos trabalhistas e continuou na UE a contribuir com estudos e análises para o seu processo legislativo. É presidente da Coligação Europeia para a Diversidade Cultural de Expressão e fala ela própria cinco línguas. Estava atrás do quadro a editar uma mensagem escrita em italiano para a comunidade de imigrantes, que é enorme. Vai lê-la para a câmara daqui a uns minutos. Antes disso senta-se com a perna cruzada no banco corrido, tem 64 anos, o cabelo apanhado como uma bailarina, duas argolas e um casaco de tweed aos quadrados. Está sempre a contar histórias de como se confunde a falar em todas as línguas que sabe. “No mês passado, na rádio, em alemão, expliquei ao locutor que não tinha podido aceitar o convite de um eurodeputado francês para jogar ténis naquela semana porque me tinha esquecido do meu lança-mísseis em casa. O que eu queria dizer era raquete, mas confundi francês e alemão.”

A sede do Change UK fica num edifício que ja foi uma discoteca clandestina, uma escola ilegal de dança do ventre e uma padaria onde os mais pobres pagavam só que podiam

A sede do Change UK fica num edifício que ja foi uma discoteca clandestina, uma escola ilegal de dança do ventre e uma padaria onde os mais pobres pagavam só que podiam

Concorrer contra os colegas do ‘Labour’ é ‘contranatura’ mas “vocês estão a falar com alguém que, durante os anos 80, lutou muito para tornar o partido trabalhista num partido pró-UE que agora está a facilitar o Brexit por não apoiar claramente e sem margem para segundas leituras o segundo referendo”, explica. “É uma decisão pouco honesta porque o ‘Labour’ quer ajudar as pessoas, quer ir às áreas mais desprotegidas, quer ir aonde os políticos quase nunca vão, mas não pode fazer isso enquanto defende ao mesmo tempo um harakiri económico”, diz Tongue referindo-se ao ritual suicidário dos samurais com intenção de restaurar a honra deles ou da sua família e evitar cair nas mãos do inimigo.

Decidiu juntar-se ao Change UK porque, pela primeira vez em muito tempo, sentiu-se emocionada ao ouvir um grupo de políticos falar. “Comoveram-me muito, lembro-me muito bem de onde estava, estava em França, na cozinha de um casal amigo, e o que eles disseram encontrou dentro de mim um grande paralelismo que me fez querer envolver de novo na política.” Durante meses e meses de campanha, diz Tongue, o público britânico foi enganado: “Venderam às pessoas a ideia de que iam conduzir um Rolls Royce depois do Brexit e agora têm um Trabant antigo em frente à porta de casa e em breve nem sequer uma indústria automóvel vamos ter”.

Sobre a pergunta desconfortável mas essencial sobre o que é que vai acontecer aos 73 deputados depois do Brexit, Tongue responde simplesmente: “Não quero falar disso porque não vamos sair, eu acredito que não vamos sair”.